Contabilidade da produção científica X formação do pós-graduando

ImageReflexões de uma recém formada pós-graduanda!
Recentemente finalizei o doutorado e, com certa carga de experiência, estou certa que escolhi o caminho certo. Sou apaixonada pelo o que faço. Confesso também que tenho um carinho gratuito e imenso pelo local que proporcionou minha formação. E é exatamente por causa deste carinho que tenho me preocupado com a situação da pós-graduação no Brasil. Por isso, decidi escrever para deixar registradas algumas das reflexões que fiz sobre o que está acontecendo na formação do pós-graduando.
Hoje já consigo enxergar os meus erros e também ver, nos estudantes mais novos, tropeços que poderiam ser evitados se ocorresse uma orientação científica mais eficaz.

Sinto que a pós-graduação vem se empresariando sem se profissionalizar. Quero dizer: a academia está ganhando os departamentos de contabilidade (ex: nota 7 = 3x1A, 6 em 3 anos etc etc), e toda a burocracia empresarial. No entanto, está deixando de profissionalizar os pós-graduandos. E eu não estou contente com isso.

Não se melhora o conhecimento científico mundial com publicações de experimentos singulares. Deve-se replicar resultados interessantes. Deve-se resolver uma questão por vários pontos de vista. Deve-se discutir o significado, os valores estatisticamente significativos e, até mesmo, dos não significativos.

Porém, é insuportável a quantidade de informações que existe nas bases de dados científicas. Vale refletir sobre quanto dessas informações são realmente relevantes. Uma vez ouvi o Prof. Esper Abraao em um curso na UNIFESP: se cada cientista, no momento que entrasse para a academia como professor, tivesse uma cota de 10 trabalhos científicos a contribuir para a humanidade durante toda sua carreira, quais seriam os trabalhos que estariam entre os seus 10? Pensem nisso!

A CAPES faz as exigências e o departamento deve cumprí-las, eu concordo. No entanto, os professores não deveriam estar entrando em um modo automático e mecânico. Se não concordamos com as regras até podemos jogá-las para manter os padrões de excelência, mas deveríamos em paralelo lutar contra. Dessa forma buscamos algo mais justo e coerente. É certo que parece mais fácil cumprir com o exigido e pronto, mas só cumprir não dá o direito de reclamar depois.

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Eu não sou contra as publicações. Quer queiramos ou não, elas iriam aumentar com os avanços tecnológicos, o aumento do número de cientistas, etc etc. Mas o problema é que deixamos de lembrar do humano para contabilizar a ciência. No livro, Inimigos da Esperança – Publicar, Perecer e o Eclipse da Erudição, Lindsay Waters (editora da Harvard University Press) diz que o empirismo torna as pessoas escravas daquilo que podem ver e contar. Por causa disso, o mundo científico vem contabilizando as produções sem se preocupar com o impacto real e, mais ainda, com o profissional por detrás dessa publicação, o pós-graduando.
O termo profissionalização é utilizado para definir o processo pelo qual um indivíduo vai gradualmente agregando valores e critérios que constituem uma profissão. O profissional é aquele que teve um treinamento especial para aquisição de embasamento específico com o qual pode controlar o trabalho desenvolvido. A redução deste controle indica tendência à desprofissionalização. Isto ocorre, por exemplo, quando se reduz o âmbito de exigências para o ingresso na profissão ou se aligeira a formação (O Eufemismo da Profissionalização, Eneida Oto Shiroma).

Acredito que é possível sim manter um padrão de excelência e de números de publicações e, paralelamente, retomar os cuidados humanísticos e profissionalizantes que deveriam ser uma exigência da academia para com os pós-graduandos.Pós-graduando não deveria ser visto como força de trabalho. Se fosse dessa forma deveríamos ter os mesmos deveres e direitos de trabalhadores comuns do Brasil. O que não temos, certo? Estamos ali para nos profissionalizar e é essa a função primordial da relação orientador e pós-graduando.

Pensem!

Vejam também o impacto no ensino da graduação.

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2 respostas em “Contabilidade da produção científica X formação do pós-graduando

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