Ética na experimentação animal (parte 1)

Neste semestre eu cursei a disciplina de ‘Ética em experimentação animal e humana’ aqui na Psicobiologia, UNIFESP. Ao mesmo tempo, coincidência ou consequência da disciplina, também  me vi dentro de algumas discussões com ativistas de Sociedades e Associações Protetoras dos Animais, em decorrência de alguns virais da internet resultantes de manifestações e atos desses movimentos contra grandes corporações farmacêuticas e cosméticas nos ultimos meses. Esse tema borbulhou em minha mente esse semestre e não pude deixar de escrever sobre isso.
Na análise da Ética na prática da experimentação animal, deve-se considerar, primeiro de tudo, o conjunto de fatores que levam à discussão ética. O que faz a ética necessária nesse caso? A discussão sobre ética e moral surge a partir do momento em que, existindo no mesmo meio social indivíduos com diferentes premissas (ou valores), justificam como certo ou direito diferentes comportamentos. Assim, quando 2 ou mais desses comportamentos (ou valores) são direta ou indiretamente conflitantes, surge a necessidade de uma “ética do dever” para que os conflitos da sociedade ainda permitam uma convivência harmônica.
No caso da experimentação animal, os dois comportamentos conflitantes são claros. De um lado, o comportamento inerente ao ser humano de produzir cultura. No caso, esse comportamento desenvolveu o método científico, e a cultura resultante é o conhecimento científio, que sempre foi vital no aumento da sobrevivência e desenvolvimento humanos. Do outro lado, está outro traço inerente à espécie humana: a empatia. A empatia, definida como a capacidade de identificar, no outro, traços de si mesmo, entendendo à situação/estado do outro, é uma habilidade humana (não só humana) prestigiada na sociedade contemporânea e, certamente, selecionada evolutivamente. A comunicação empática é tão expandida no humano que nós facilmente sentimos empatia por outras espécies como caninos, felinos, roedores, ruminantes e, certamente, outros primatas.

Em uma escala populacional, esses dois comportamentos existem em diferentes “intensidades” (podemos até dizer que teriam uma distribuição normal) na sociedade, e isso culmina na existência de pessoas defendendo ambos os lados e, consequentemente, no conflito dos comportamentos (o homem começou a fazer testes em outros animais, sua pressão pelo saber o levou a comportamentos que outros homens, dotados de maiores traços empáticos, condenaram). Além disso, essas intensidades também geram “anormalidades ou bizarrices” em ambos os lados (a exemplo temos os virais de internet mostrando fotos de animais com expressões, posições ou objetos que relembrem à própria espécie humana, mas que nada tem a ver com a espécie em questão; ou os fatídicos e numerosos experimentos que claramente causaram sofrimento a animais ao longo da história).Mas, no fim do conflito, um código que propõe a harmonia entre esses comportamentos surge da – conflituosa – discussão entre as pessoas que defendem cada um desses valores. A experimentação animal é esencial para nossa sociedade? Indubitavelmente. Ela é a diferença entre ter ou não a cura/tratamento para muitas doenças e o aumento do nosso desenvolvimento. Ao mesmo tempo, animais em experimentação (e organismos de outros reinos também) são seres vivos, dotados da percepção dos estímulos nocivos e de outras respostas que tanto cativaram nossa empatia (sofrimento, dor, emoções etc). Assim, a parcimônia entre esses valores veio através da ocorrência da experimentação com diretrizes sobre o respeito à vida e integridade do animal.

Para quem não sabe, animais de experimentação são criados em grandes biotérios de forma controlada, de modo que os animais se mantenham o mais parecidos possível (genética e fenotipicamente). Essa é uma das razões pela qual alguns fanáticos criticam os cientistas dizendo que ‘brincam de Deus’.
O propósito de vida desses animais de laboratório é gerar dados científicos. Eles nasceram e foram criados para isso. Então, espera-se que isso seja o mínimo que aconteça. Na vida acadêmica, vergonhosamente, não é raro observar animais que, por diversos motivos, não chegam compor “a amostra no gráfico”. Se a vida desse animal foi gerada com esse único propósito, o primeiro sinal de respeito à sua vida é fazer cumpri-lo.
Além do animal contribuir para a ciência, ele deve fazê-lo com sua integridade (física ou qualquer outra) respeitada. Como dito, o aspecto mais exposto pela sociedade como desrespeitoso à vida do animal (e percebida pela capacidade empática humana) é o sofrimento a que é submetido na experimentação. Então, assim como o homem tem seus direitos humanos, os animais de experimentação também têm seus direitos a uma vida minimamente íntegra e sem sofrimento.
Me desculpem os psicólogos evolucionistas no caso de eu ter cometido uma gafe – se o fiz, comentem por favor, pois eu adoraria postar uma atualização no futuro.

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Sobre Cesar A O Coelho

Bacharel em Biologia pela UNESP, Botucatu (a gloriosa!), e mestrando em Psicobiologia pela UNIFESP, São Paulo. Apaixonado por neurociências desde o colégio, venceu sua aversão à maior cidade do Brasil para trilhar seu sonhado caminho. Iniciado nas neurociências com o estudo do comportamento animal, hoje estuda memória emocional e sistemas de memória. Sonha em investigar seu objeto de estudo com a maior quantidade de perspectivas possível, cercá-lo por todos os lados. E tenta se cercar dessas ferramentas (perspectivas) ou pessoas que as possuem. “Doido”, como é chamado pelos amigos, é portador de expressões…peculiares (p****ta véio!), muita empolgação e uma mania de tentar ver tudo em seu significado mais abragente (é até chato às vezes). De um jogo de RPG a uma balada, de uma dança de forró a uma discussão científica, de uma reunião científica a uma manifestação política, admira a reunião de pessoas em prol de um mesmo objetivo.

11 respostas em “Ética na experimentação animal (parte 1)

  1. Pingback: A rata Zana | Prisma Científico

  2. Pingback: Por que os modelos computacionais não podem substituir os modelos animais? | Prisma Científico

  3. Fala Juvena… Beleza?!?!
    Consegui um tempo pra ler o blog!! aeeeee!!! muito bom!!!

    Quanto a experimentação animal… não podemos ser hipócritas como alguns “barbas” ( você me entende neh?!) que brigam contra todo e qualquer tipo de experimentação, se desta pratica com os “pobres ratinhos branquinhos” que tivemos grandes avanços…

    é isso ae…

    Abraço!! Sucesso com o Blog!!

    • Obrigado, rapaz.

      Estou preparando mais duas partes desse tema que talvez explique um pouco da revolta dos “barbas”. Nunca soube o quão informados eles eram sobre isso. Mas Apoio algumas vertentes do PETA hoje contra uso de animais no setor privado. Falarei sobre isso no futuro.

      grande abraço!

  4. César, gostei do seu texto, acho que ele merece sim uma continuação/atualização, principalmente porque cabe a nós dismistificar a experimentação animal e pontuar o quanto ela é necessária para nossa sociedade. Muito bem colocado que esses animais tem direitos e devem ser respeitados.

    No entanto, tem dois pontos que eu queria discutir.

    Primeiro, acredito que o comportamento inerente do ser humano não é produzir cultura e sim consumir cultura. Nem todo mundo tem o ímpeto de produzir cultura, mas até hoje não conheci uma pessoa que não goste de música, filmes, viagens, ou que seja. Ainda nesse ponto, não creio que o método científico seja uma forma de cultura, mas de conhecimento como você colocou muito bem no seu texto. Ao meu ver, cultura e conhecimento são coisas distintas.

    O outro ponto que eu queria abordar é onde você coloca: “O propósito de vida desses animais de laboratório é gerar dados científicos. Eles nasceram e foram criados para isso”.
    O meu propósito de vida é descobir algo que ajude a humanidade um dia. É minha obrigação gerar dados científicos confiáveis. É o mesmo propósito de vida dos animais de experimentação? Esse é o propósito que ELES escolheram? Ou eles tiveram pouca ou nenhuma escolha nesse propósito de vida? Os animais de laboratórios não foram criados para serem utilizados em experimentos científicos, mas nós os usamos em experimentos científicos. Percebe a diferença?

    Abs

    • Tonhão,

      Vou adorar responder seus comentários…rs

      Sobre o primeiro ponto, a questão sobre sermos consumidores e não produtores. Se, na população, não há produtores, como consumimos em primeiro lugar? Somos ambos. Qualquer comportamento/informação/conhecimento que “viraliza” e acaba por modificar o comportamento alheio é cultura.
      Sobre cultura, adotei uma perspectiva segundo a qual a produção de conhecimento é pertencente ao hall de comportamentos produtores de cultura sim. De modo geral, pode-se verificar se um traço é cultural ou genético comparando duas ou mais culturas diferentes. Fazendo isso, facilmente percebemos que o método científico é um traço cultural, visto que é oriunda da sociedade ocidental, da qual descendemos.
      A produção de conhecimento e produção cultural tem, em todos os níveis, as mesmas características, o primeiro está contido no segundo. Posso falar em produção de conhecimento musical, cinematográfico por exemplo. São produções culturais, que modificam o comportamento humano.

      Sobre o Segundo ponto. Quando digo que o propósito do animal é a experimentação, me refiro à seleção artificial (ou proposital) feita pelo homem para gerar a linhagem usada experimentalmente. O propósito pelo qual o HOMEM gerou essa(s) linhagem(s) é esse.
      Quem atribuiu o propósito a esse animal foi o homem, não o próprio animal. Talvez eu me pareça pouco empático ao dizer isso, mas ao dominar e utilizar-se das outras espécies, o homem lhes atribui propósitos dentro da sociedade. Assim como algumas linhagens de pombos eram utilizadas para enviar mensagem, essas, são usadas na experimentação.

  5. Oi Cesar, gostei do post!

    Acho que talvez empatia ou valores metafísicos/religiosos sejam a única forma de motivar as pessoas a se importar com animais, e me parece que há uma grande porcentagem da população indiferente ao sofrimento deles. Basta ver os tipos de argumentos que as pessoas usam para justificar comer carne.

    Do outro lado, os empáticos muitas vezes desconhecem ou ignoram as condições, cuidados e métodos de pesquisa com animais e tomam posturas radicalmente contra qualquer tipo de experimentação. Acho que cabe a nós mostrar a eles como isso de fato ocorre nas universidades, e que há uma preocupação com seu bem-estar.

    Por último, também cabe também a nós sempre pensarmos por que uma pesquisa com animais é necessária e que benefícios potenciais ela pode trazer.

    • Obrigado, Leo. Vindo de você isso me alegra muito.

      Tentei dar uma visão evolutiva e bem simples da coisa.

      Empatia é um valor metafísico pra você ou eu entendi errado?
      Sobre comer carne, acho que é um traço inerente ao ser humano, assim como a empatia, e que também tem uma distribuição de intensidades na população. E que a produção em massa (desenvolvimento cultural) tenha posto esse comportamento em conflito com a empatia.

      Nessa perspectiva, quase tudo se torna uma competição dessas pressões para o comportamento, considerando-se a influência ontogenética e a motivação momentânea.

      Sobre nosso papel em pensarmos quando a pesquisa com animais é necessária, vou falar sobre isso na parte 2 (e talvez numa parte 3).

      • Quis dizer que nem todos empatizam com os animais, seja porque tem baixo grau de empatia, seja porque acham que são muito diferentes de nós. E se a pessoa não empatiza, a única motivação possível que vejo para ela se importar com animais seria se tiver uma crença metafísica a respeito.

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