Mera coincidência? A relação entre a indústria farmacêutica e o diagnóstico dos transtornos mentais.

2554O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), famoso DSM, vem sendo utilizado desde a década de 50 por diversos profissionais.  Sua importância é clara por padronizar e facilitar os diagnósticos. Recém lançada, a nova versão, DSM V já está disponível para os profissionais.

O manual é escrito por um grupo de experts e muitos criticam que ele carece de uma teoria básica central que guia os diagnósticos. Além dessa questão de ordem teórica, outro problema é que assim como grande parcela das relações humanas contemporâneas, o DSM também sofre a influência de interesses capitalistas, particularmente da indústria farmacêutica, financiadora de várias pesquisas e trabalhos na área da saúde mental.

Neste sentido, alguns meses antes da publicação do DSM V, Thomas Insel, diretor do NIMH (National Institute of Mental Health), principal órgão do governo dos EUA sobre a saúde mental, revela que eles estão abandonando o DSM. De acordo com ele a série DSM tem como principal ponto fraco a “falta de validade” e em contrapartida, o NIMH está criando o Research Domain Criteria, novo manual para diagnósticos mentais1. Este projeto incorpora estudos a genética, estudos de imagem, ciência cognitiva, entre outros níveis de informação para transformar o diagnóstico de saúde mental.

A figura abaixo apresenta os conflitos de interesse relatados pelos redatores do DSM. O gráfico foi publicado originalmente no periódico PLOS One,  e demonstra variações na frequência em que conflitos de interesse foram relatados (consultoria, honorários, grants, royalties,etc.) comparando DSM-V com sua versão anterior.

Tabela retirada do texto A Comparison of DSM-IV and DSM-5 Panel Members’ Financial Associations with Industry: A Pernicious Problem Persists. Disponível em: http://www.plosmedicine.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pmed.1001190

Se formos cuidadosos ao ler o gráfico podemos nos perguntar: Será mera coincidência que tenham aumentado os relatos de conflitos de interesse nos distúrbios do sono vigília e transtornos relacionados ao uso de substâncias. Ou, seria ao acaso terem diminuído para transtornos de humor e esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos? Eu diria que não.

Antidepressivos e antipsicóticos são drogas bem consolidadas como estratégia terapêutica (tão bem consolidadas que juntas renderam 34,4 bilhões de dólares em vendas no ano de 2004).

Por outro lado, entre 1994 e 2013, o FDA (Food and Drug Administration)2 liberou o uso de diversos novos fármacos para tratamento de transtornos do sono vigília e relacionados ao uso de substâncias (por exemplo, Antabuse; Naltrexone para tratamento de dependência de álcool; Brupropiona no tratamento para parar de fumar; Zopiclone; Zolpidem).

Obviamente, o intuito ao se lançar medicamentos novos no mercado é com que eles sejam consumidos e de fato retornem lucro à indústria, fazendo jus ao esforço despendido em seu desenvolvimento. Um dos problemas dessa premissa capitalista é que várias pesquisas científicas publicadas para demostrar a efetividade do medicamento são questionáveis por apresentarem resultados enviesados como não serem mencionados dados negativos e metodologia questionável, por exemplo, comparações inapropriadas com medicamentos3.

Neste sentido é importante nos atentarmos para os interesses velados na construção de manuais. Modificar critérios diagnósticos das doenças pode acarretar o aumento na quantidade de pessoas diagnosticadas, inclusive, diagnósticos indevidos. Consequentemente, mais medicamentos são adquiridos e os lucros da indústria aumentam.

Longe de ser contra o uso do DSM, tão pouco de medicamentos em determinados casos de distúrbios psiquiátricos, mas considerando a força de uma gigante indústria farmacêutica, com interesses eminentemente capitalistas, nos resta a parcimônia ao sentarmos na frente de um paciente enquanto carimbamos um número em seu prontuário. Isto, pois, esse processo de rotulação, por vezes mecanicista, pode acabar ajudando mais a indústria farmacêutica do que o próprio paciente.

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[1] http://www.nimh.nih.gov/about/director/2013/transforming-diagnosis.shtml

[2] Órgão norte americano análogo à ANVISA no Brasil e responsável pela regulamentação dos medicamentos, e outros produtos, para comercialização.

[3] Lexchin, Joel, et al. “Pharmaceutical industry sponsorship and research outcome and quality: systematic review.” Bmj 326.7400 (2003): 1167-1170.

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