As duas faces do altruísmo

Existem ou não ações genuinamente altruístas?

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O altruísmo é um comportamento no qual o indivíduo praticante está disposto a ser prejudicado de alguma forma em favor de algo ou alguém. Considerado uma característica chave na evolução do comportamento social, o altruísmo está longe de ser considerado uma característica unicamente humana, sendo observado em várias classes de animais que apresentam uma rede social complexa, como insetos e mamíferos.

É comum se ter notícias de pessoas que em situações críticas são ajudadas por desconhecidos, ou mesmo pais ao salvar a vida de seus filhos diante de um perigo iminente. Outras vezes, vemos animais de diferentes espécies cooperando um com o outro e até casos de animais domésticos ao salvar a vida de seus donos. Qual é a real motivação por trás desse comportamento? Agir em favor de alguém ou de um bem maior é algo totalmente livre de qualquer sentimento egoísta?

Charles Darwin não foi capaz de explicar a evolução do altruísmo, uma vez que a própria definição do comportamento vai de encontro com sua teoria da evolução biológica, pois em um mundo em que os indivíduos com maior chance de sobrevivência são aqueles que utilizam melhor os recursos e deixam um maior número de descendentes. Então, será que os animais não deveriam abster-se de comportamentos isentos de benefícios próprios e que ainda por cima beneficiam os outros?

Existem duas teorias que tentam justificar o altruísmo. A primeira delas diz que tal comportamento evoluiu para assegurar a transmissão dos genes do indivíduo altruísta para as gerações seguintes, ou seja, a ação ocorre quando o comportamento beneficia indivíduos geneticamente aparentados. No entanto, essa teoria não deixa de carregar consigo um caráter egoísta, na medida em que a probabilidade de ocorrência da ação altruísta diminui com o distanciamento do parentesco e, consequentemente, da bagagem genética em questão.

ImagemA segunda teoria se refere ao altruísmo recíproco, no qual os indivíduos que exercem ações altruístas não são aparentados. Desenvolvida em 1971, por Robert Trivers, essa teoria leva em conta o princípio de que “uma mão lava a outra”, ou seja, a cooperação entre indivíduos pode beneficiar ambos. Para isso, o indivíduo deve reconhecer e discriminar aqueles que não colaboram com a reciprocidade. Dessa forma, o sujeito tende a aumentar suas chances de sobrevivência mesmo que indiretamente.  O caráter egoísta dessa teoria reside no momento que a probabilidade de uma ação altruísta se repetir entre dois indivíduos é reduzida quando não há reciprocidade de um deles.

A minha intenção aqui é questionar a existência de um egoísmo inconsciente por trás do altruísmo e de forma alguma desvalorizar esse comportamento. Pelo contrário, na minha opinião, é evidente que a cooperação entre indivíduos compensa e que a adoção desse comportamento contribuiu para nosso sucesso evolutivo. É possível visualizar isso através do nosso próprio padrão comportamental em que culturamente temos antipatia por pessoas egoístas, assim como temos atitudes de recompensa para as ações altruístas e punições para as egoístas, e ainda cultuamos pessoas reconhecidamente altruístas.

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10 respostas em “As duas faces do altruísmo

  1. Interessantes esses pontos de vista…

    Alguém pensou na possibilidade de um indivíduo apenas e tão somente sentir prazer pessoal (como por exemplo a sensação de paz e bem estar) ao praticar um ato que beneficia o outro?
    Se a única “vantagem” fosse a satisfação íntima, a atitude seria considerada egoísta?
    E os indivíduos (humanos ou não) que sentem uma espécie de “obrigação” (ou consciência) de praticar atos benfazejos (como a cadela que busca comida para alimentar outros cães – mostrada em reportagem na TV) como seriam considerados pelos “elaboradores de teorias”?

    Por mais incrível que pareça, existem pessoas com plena consciência de que fazer o bem a outrem não implica em “levar vantagem” e que, simplesmente, tornar a vida do outro melhor com algo que está ao seu alcance (seja uma atitude ou bem material que não lhe fará falta) é apenas uma forma natural de encarar a vida. Simples assim!
    Sem egoísmo, altruísmo ou qualquer outro rótulo criado por “gênios”para “enquadrar” atitudes sob esta ou aquela ótica.
    Parece que somos “obrigados” a viver e agir de acordo com “comportamentos lógicos”.

    Mas… sob a lógica de quem?

  2. Oi Vanessa, muito bom o post, parabéns!

    Eu nunca tinha ouvido falar destas teorias, mas já fiz um trabalho acadêmico
    sobre trabalho voluntário, e percebi que por trás de uma ação ” altruísta” sempre tem uma função em prol do individuo que realiza a ação, os fatores sociais tem forte implicação neste comportamento, o post ampliou mais minha visão acerca deste tema, considerando os aspectos genéticos. Na realidade é uma questão bem complexa.
    Vou ler mais sobre isso.

    Abraço.

  3. Vanessa, voce já viu a teoria da Sociobiologia do Edward Wilson? Olha isso: http://bit.ly/KH0lSG

    É uma terceira idéia nessa discussão. Altruísmo como resultado de uma seleção de grupo altruísta. Apesar de ser mais próxima da teoria do Trivers, esse é um dos maiores críticos do Wilson. Vale a pena dar uma olhada na matéria acima.

  4. Pingback: O futuro da divulgação científica! | Prisma Científico

  5. Oi Vanessa, gostei do post! De fato o altruísmo é um dos comportamentos mais intrigantes, especialmente entre seres humanos, pois aparentemente não é suficientemente explicado pelas duas teorias.

    Pessoalmente acredito que seres humanos tenham conseguido uma certa “emancipação” das forças genéticas; embora tenhamos estes mecanismos de nepotismo e reciprocidade, acho que também somos capazes de agir altruisticamente devido a crenças e valores sustentados mais simbolica e socialmente. Embora ainda se possa tentar argumentar que estes possam ter um fundo de auto-interesse, acho que é um comportamento suficientemente dissociado da sua origem evolutiva pra não ter uma relação causal forte e necessária com este egoísmo genético.

    É bom também esclarecer que o fato de um indivíduo agir segundo seus interesses não quer dizer que vai agir somente em seu benefício. O caso da seleção por parentesco mostra isso, os beneficiados são os genes, não propriamente o indivíduo que é altruísta.

    • Só para esclarecer meu último parágrafo, quis dizer que “agir segundo os próprios interesses” não é o mesmo que “agir em benefício próprio”. Posso estar interessado no benefício de outrem.

  6. Na minha opinião, é o Melhor texto até agora.

    No entanto, gostaria de saber os argumentos pelos quais voce se inclina para a teoria do Trivers e não a do Dawkins (do gene egoísta). Não que eu tenha uma posição, acho as duas teorias muito bem fundamentadas. Apenas gosto do jogo de argumentos…rs

    As únicas evidências que voce citou que são fatos bem estabelecidos são os comportamentos sociais de espécies em que alguns indivíduos “abrem mão” da própria procriação para proteger outro indivíduo (a rainha), como abelhas e formigas. Mas esses comportamentos geram argumentos a favor da teoria do Dawkins, e não do Trivers, visto que eles estão protegendo um indivíduo que é relacionado parentalmente.

    Fica a sugestão para uma próxima ocasião ou uma resposta aqui!

    • Oi Cesar, fico feliz com seus comentários!!!

      Eu acredito que o caráter egoísta do altruísmo fica mais digerível na teoria do gene egoísta de Richard Dawkins, pois nesse caso, é mais aceitável para as pessoas que, por exemplo, estaríamos dispostos perder mais por parentes mais próximos e por isso deixei os comportamentos em benefício de aparentados em evidência. No entanto, nessa teoria a “culpa” pelo caráter egoísta recai sobre nossos genes, que na minha opinião tira um pouco da culpa do individuo, ou seja, o altruísmo é resultado da manipulação dos genes sobre nosso comportamento.

      Por outro lado, a “culpa” pelo caráter egoísta na teoria de Trivers recai muito mais sobre o indivíduo que nesse caso, é responsável pelas suas próprias decisões e alem disso, também é menos aceitável pelas pessoas que a tendência da prática de ações altruístas diminui com a ausência de reciprocidade, por isso me aproximei mais da teoria de Trivers neste post.
      Espero ter respondido!!

      Abraços!!

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