Um mundo que queima livros

Sou fascinado por distopias. Não só por existir nas representações de um mundo distópico uma atraente e avançada tecnologia, mas também porque acredito que é o caminho mais provável da realidade em que vivemos. Pelo que vejo, tudo indica que o futuro será distópico. Alguns dos cenários apresentados em livros e filmes devem ter se aproximado muito de onde estaremos em breve, talvez só com uma menor quantidade de roxo nas roupas e cabelos góticos nas ruas. No passado, escritores acertaram ao prever as qualidades e defeitos do presente, o mundo de hoje é a distopia de ontem, então podemos acreditar que a distopia de hoje será a realidade de amanhã, um caminho que parece ser irrefreável.

Um dos cenários distópicos que acho mais interessante é o da história contada no livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. Nesta realidade, aos poucos as pessoas vão parando de ler livros, desinteressados e com pouco tempo, até que em um determinado momento o governo vê uma brecha para agir e proíbe em definitivo qualquer tipo de leitura, transformando os livros clássicos em filmes curtos de cinco minutos e criando uma política anti-leitura geral para a população, que satisfeita pela substituição de cansativos blocos de papel e letras pela caixa brilhante, se torna submissa às leis governamentais. Um grupo de oficiais, os Bombeiros, agora possui a função de controlar a leitura ilegal, incendiar livros e bibliotecas e punir os leitores, além de receber denuncias sobre qualquer atividade suspeita por parte de qualquer cidadão. Pessoas muito reflexivas, soturnas e pensativas terminam investigadas sob a suspeita de estar lendo algum livro, às vezes denunciadas pelos familiares mais próximos.

Clique para o pdf (em inglês)

Após explicar o cenário de Fahrenheit 451 – essa foi só uma pequena introdução, para o resto, sugiro a leitura do livro (não vou sugerir o filme, pois apesar de ser bom, seria irônico demais) – conto então um sonho que tive recentemente, onde estava imerso em uma distopia semelhante à de Bradbury e que me fez pensar um pouco mais sobre conhecimento, ciência, ensino e literatura e me deu a ideia para este texto.

No sonho me vi incumbido da missão de transportar alguns livros da biblioteca de um apartamento onde estava – apartamento que seria revistado dentro de pouco tempo – para algum lugar seguro. Algumas informações sobre a realidade que estava inserido me surgiam automaticamente – pois nos sonhos nós sempre sabemos do essencial – em forma das capas dos livros que deveria transportar, como 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Huxley. Escondi livros nos bolsos e em uma espécie de corcunda artificial, onde carregava a maioria deles. Saí então com uma comparsa em direção ao elevador, esta mulher possuía a mesma missão que eu, embora não tivesse que portar uma corcunda, então a chamarei de Esmeralda.

No elevador a tensão era crescente, qualquer descuido e seríamos capturados. Além destes dois ilegais, também estava um grupo que julguei ser uma família, um senhor e seus dois filhos pequenos. O pai da família era negro, por volta de seus cinquenta anos, de cabelos brancos e que possuía uma barriga com um formato peculiar, um pouco retangular. Era um dos meus. Mas me contive, pois embora estivéssemos em situações semelhantes, talvez seus filhos fossem perigosos, pois poderiam estar seduzidos por uma realidade pouco avessa à paixão imensurável ao Playstation e ao Xbox e totalmente dispostos a delatar o seu pai, Esmeralda e eu.

Saímos do elevador deixando a família para trás, devagar atravessamos as grades pretas da portaria do condomínio, caminhando para a rua e a liberdade! Enquanto andávamos ao lado das paredes cor de salmão do condomínio, uma mão me parou solenemente. Dois fiscais do governo afirmavam saber que estávamos transportando itens ilegais, havíamos sido delatados! Tentei argumentar afirmando que já estava na rua, fora do condomínio e da jurisdição dos fiscais e recebi uma resposta seca: Nós somos o condomínio, o mundo é o condomínio. Ao dizer tais palavras, o fiscal apontou para uma pequena barraca de trocas que estava instalada na calçada, onde ele me levaria para entregar os livros.

Foi então que Esmeralda conseguiu se desvencilhar, correndo com apenas um livro em sua mão, sabia que era um exemplar de Caim (Saramago), mas em uma distopia, luta-se para se salvar qualquer coisa. Um dos fiscais saiu em sua perseguição. Também lutei e tentei segui-la, mas o meu correr quasimodesco me impedia de alcançá-los, sentia como se o peso do mundo todo estivesse em minhas costas e o desespero por viver em uma sociedade que trata leitores com desprezo e violência me acordou de um sonho curto, mas incrivelmente detalhado.

Os Bombeiros do filme “Fahrenheit 451”, de 1966, meus captores.

Nesta terrível distopia o primeiro detalhe que pode ser abordado é que inicialmente a falta de leitura não vem do governo, mas da população em geral, repleta de outras alternativas supostamente mais atraentes que os livros, como filmes-resumo ou atividades de entretenimento rotineiro. A grande crítica de Bradbury não é ao totalitarismo governamental, mas como a TV afastou as pessoas dos livros. O segundo, é que o comportamento geral da população vai aos poucos se tornando arredio, amoral, pouco sensível e impulsivo nesta realidade midiática. Sem a leitura as pessoas gradativamente perdem a capacidades de sentir, pois sua linguagem fica debilitada e sem expressão. O terceiro ponto é o comportamento daqueles que se tornam rebeldes, estejam eles dando suas primeiras folheadas em um romance – se tornando assim mais capazes de recordar momentos e mais críticos – ou professores e cientistas que se tornam fugitivos e passam a vida em reclusão, escondidos fora dos muros da cidade.

Em relação aos dois primeiros pontos a pergunta que surge é: Estaríamos fadados a viver em um futuro de não leitores sem pensamento próprio?

É fato que, com a exceção de livros extremamente populares como Harry Potter e Crepúsculo, as pessoas têm lido menos e, mesmo no meio acadêmico, a disposição à leitura não tem sido tão natural. Acredito que mesmo em grandes universidades a leitura vem em módicas parcelas, pequenos textos e artigos que os alunos devem ler para a próxima aula e que mesmo sendo pequenos, não são lidos. Isso é algo complicado, pois por mais tecnológica que uma sociedade – e o ensino – se torne a forma mais efetiva de se obter o conhecimento ainda é a leitura e o estudo. O que nos leva a pensar se talvez estaríamos caminhando para um meio acadêmico que lê pouco, pensa pouco, que se permite uma distância auto imposta daqueles com livre-pensamento e que pensa pouco criticamente, mas escreve muito, pois a pressão para a escrita cresce progressivamente, seja a produção “séria” como artigos, ensaios e blogs científicos ou com o puro exercício da escrita hedonista e superficial como xingamentos no Twitter, murais de Facebook e comentários agressivos pelo Youtube.

A outra pergunta que faço é fruto do terceiro ponto do cenário apresentado: O que devemos fazer – como cientistas, professores, pais etc. – para tentar mudar tal realidade?

Professor: Como faz, classe?; Mariazinha: Vai ter lista?

Apesar de – utopicamente – acreditar que em um mundo que proibisse a leitura entraria em colapso e guerra civil, onde massas populares enfrentariam seu governo nas ruas com televisões em chamas sendo lançadas pelo ar e livros sendo distribuídos ilegalmente pela internet, concordo que não é a medida mais civilizada para incentivar a leitura. Faço esta pergunta, mas sei que ela é complicada, tendo sido feita – sem resposta  conclusiva – por anos a fio em cursos de pedagogia, pois a falta de interesse pela leitura é um dos problemas mais citados pelos professores em relação a seus alunos.

Deixo a possível resposta nas mãos daqueles que quiserem comentar, pois em algum momento todos os que se interessam por um blog de ciência deverão passar por esse problema, como professores, orientadores ou mesmo pais. Deixo a reflexão aberta também por que, apesar de acreditar não haver ainda resposta definitiva para tal pergunta, também acredito que não haja distopia que não possa ser evitada. E que consigamos evitar tal destino, pois como disse uma vez um poeta alemão chamado Heine: Onde se queimam livros, ainda se queimarão pessoas.

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5 respostas em “Um mundo que queima livros

  1. Marcus os elogios foram muito bem feitos e acredito que fez um ótimo trabalho escrevendo.

    Concordo que embora os número sejam crescentes, ainda é algo que não se deve tanto prestigio pois ainda é muito inferior há outros que vivem em situações piores.
    A qualidade sempre é muito importante e é raro as pessoas que buscam o conhecimento.
    Não gostaria de falar de mim mas quem me indicou essa leitura fez de propósito!

    Eu sou uma pessoa jovem e que na infância não tinha apoio algum para ler. Diversas vezes zombavam de mim ou apenas não tinha apoio familiar. A situação era drástica porque eu queria livros e me falavam que era uma grande perda de tempo e quanto mais as minhas leituras escondidas ganhavam um ar complexo, mais eu queria ler e consequentemente guardava para mim as palavras que me machucavam afinal, não é todo dia que uma garota de 15 anos é apaixonada por histórias medievais, mitologia nórdica, guerras mundiais, genética e o corpo humano.

    Hoje em dia espero apenas poder ter uma casa com uma biblioteca repleta de livros variados pois acredito que cada faixa da vida e cada indivíduo possuí um gosto diferente. E quem sabe poder colocar meus futuros filhos para dormir com uma maravilhosa estória de J. R. R. Tolkien, O Hobbit por exemplo. Afinal, esses livros foram escritos visando este propósito.

    Para encerrar: penso que um grande mal que acomete os queridos “jovens leitores” é o estímulo que lhes é dado. Acredito que se uma criança cresce com estímulo voltado para leitura então a tendência não seria evoluir se este estímulo o acompanha? Será que uma saída possível não seria cuidar desses pequenos ‘projetos de gente’ (crianças)?

    Até e novamente parabéns pelo post

    • Olá, obrigado pelo elogio,

      Acredito no que você escreveu. Também vejo que a estimulação para a leitura seja o mais importante para que as pessoas voltem a ler. A pouca leitura do brasileiro (http://goo.gl/0mZcDU) é puro reflexo da história da nossa sociedade, não podemos ignorar. Espero que você estimule bem os seus filhos.

      Até mais,

  2. Pingback: O “Macaco Azul” e a (não) escrita nossa de cada dia | Prisma Científico

  3. Marcus, parabéns pelo post. Muito bem escrito!

    Você falou que na pedagogia sempre se pergunta sobre qual o futuro (distópico ou não) do mundo em relação ao interesse pela leitura, diante dos problemas enfretados pelos professores no desinteresse dos alunos pela leitura. E ao olharmos para a história moderna, é fácil vermos grandes movimentos que lutaram pelo direito da educação do povo, pela liberdade de expressão, pelo direito de criar a própria cultura e tal. Comparando esses quadros, sendo o primeiro mais recente, também é fácil sermos levados ao pensamento de que a educação e uma de suas variáveis (a leitura) estejam piorando.

    Mas, venho trazer uma perspectiva da mesma situação.
    Apesar de você afirmar que haja uma diminuição do interesse pela leitura, sempre que eu leio sobre estimativas do aumento de leitores, numa escala secular, encontro um número crescente de leitores (no Brasil e no mundo). Se pensarmos em 400, 300 ou 150 anos, hoje temos mais leitores que no passado. Quantidade não é tanto um problema. O problema é o que a leitura simoliza.
    A leitura simboliza a interação livre do povo através da expressão de idéias. É uma das oportunidades que o povo tem para criar cultura, de criar a própria sociedade. E para quem a livre criação de cultura pode ser prejudicial? Para os governantes, obviamente.
    O livro de Bradbury peca (ou os leitores pecam), ao meu ver, ao dizer que o desinteresse pela leitura partiu do povo e o governo apenas se aproveitou disso. Para mim, o governo planejou junto com as empresas midiáticas, silenciosamente, para manipular esse comportamento leitor da população, assim como qualquer outro comportamento que resulte em criação cultural (comportamentos em ultima instância). Para não deixá-los criar e/ou beber da criação de outrem se não os próprios dominantes.
    Por que?
    Porque, para os governantes, governar significa controlar. E o melhor modo de controlar o povo é saber o que/como eles pensam. E, para isso, o governo precisa ser o único criador cultural. A criação cultural livre, do povo para o povo, seja pela escrita/leitura ou qualquer outra, é o modo de tornar o comportamento (e idéias) do povo incontrolável.

    E como surge a criação cultural?
    Em qualquer interação pode surgir criação cultural. Voce já presenciou alguém apelidando alguém? Isso é uma criação cultural a nível minúsculo. Num determinado grupo, a cultura está presente. A cultura é, primordialmente, um comportamento resultante da interação social, que a modifique de alguma forma.

    No final, o que o governo gostaria é tornar as pessoas menos interativas, pq a cultura se faz na interação, e isso inclui menos leitores, pq lendo, pessoas interagem. Como isso é impossível, eles tentam limitar as pessoas a uma quantidade de interações permitidas por eles, em que eles ainda conseguiríam manter o controle sobre a população.

    Essa é a perspectiva que eu gostaria de deixar como comentário do seu ótimo texto!

    • Olá, meu caro, tudo bem? Antes de tudo, obrigado pelos elogios.

      Em se tratando da leitura, acredito que esta escala que você cita traz muito mais uma representação da leitura em números brutos. Sim, a quantidade de leitores tem aumentado, como tem aumentado o acesso a livros e o valor destes tem caído, mas a qualidade do que é lido talvez não. Não quero aqui delimitar o que é bom e o que é ruim, longe de mim, mas me parece que há pouca paciência para se ler livros mais densos. Percebi que realmente não deixei claro no texto essa minha opinião, pois só cito Twitter, Facebook e afins como sendo parte de uma escrita imediatista, mas a internet também favorece uma espécie de leitura imediatista. O que nos traz a todo o tipo de leitura apressada e superficial que a gente vê por aí. Ainda diria que, mesmo existindo estas pesquisas que demonstram que as pessoas leem mais hoje em dia, ainda acredito que a leitura que tem crescido é particularmente de livros como Crepúsculo, auto-ajuda e “especialistas” (falando de um assunto em particular que interessa ao trabalho ou estudo da pessoa), o que, em minha humilde opinião, não ajuda a formar um caráter crítico e questionador de quem lê. Então concordo, a quantidade de leitura pode até ter crescido (e a internet é essencialmente um local com muito para se ler), a quantidade de livros comprados também, mas talvez fazendo uma análise guiada emocionalmente, tenho visto outros tipos de mídia tomando o lugar dos livros.

      Em relação a afirmação de que as pessoas deixaram aos poucos a leitura, esta é uma afirmação que o Professor Faber faz para o bombeiro Montag. O Faber é uma personagem que simboliza os professores e cientistas na distopia de Bradbury, e, como é uma personagem, talvez a sua visão seja um pouco enviesada. Particularmente tomei a fala de Faber e uma entrevista do próprio Bradbury, onde ele afirmou que o seu livro tratava do desleixo da sociedade com os livros e que as pessoas deixaram de ler e o governo se aproveitou. Bradbury afirmava que o seu livro era mais uma homenagem à leitura e uma crítica ao abandono deste comportamento do que um olhar sobre um governo totalitarista (como em 1984). Por isso resolvi tomar essa linha de pensamento também no texto, mas seguindo a sua teoria – que me é muito pertinente e realmente as coisas tendem muito mais a acontecer desta forma que você escreveu – diria que não só o governo e as empresas midiáticas, mas toda e qualquer instituição do poder, como grandes empresas capitalistas (favorecendo o consumo) e igrejas/religiões (favorecendo a idolatria e o serviço cego) estariam relacionadas com este abandono da leitura. Uma vez já ouvi um pastor dizer “O único livro que vale a pena ser lido é a Bíblia”. Então concordo com você, as pessoas abandonariam a leitura aos poucos, mas sob a influência de diversas forças opressoras disfarçadas, eu “temo” muito menos um governo militarizado do que um governo militarizado e com muita fé.

      Seu comentário foi muito bom e acabei escrevendo muito também. Infelizmente no texto tive que me ater apenas a essa discussão da leitura, mas muito mais poderia ter sido abordado. Seu comentário enriquece a leitura para os próximos que passarem aqui, espero que minha resposta tenha sido pertinente, obrigado e espero vê-lo mais vezes comentando não só os meus textos, como os dos meus colegas.

      Até mais,

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