A relação entre didática e o meio acadêmico

Certa vez assisti a uma palestra sobre jornalismo científico de um matemático chamado Luiz Barco, que em determinado momento durante seu discurso, ele disse algo que ecoa na minha cabeça até hoje. Suas palavras foram: “Você só pode dizer que realmente entende de determinado assunto, quando consegue descrevê-lo de forma que uma criança de cinco anos entenda”.

Imagine agora não uma criança de cinco anos, mas uma pessoa leiga, que tenha até uma educação básica semelhante, mas seja de uma área distante da sua. Quantas vezes você conseguiu explicar sua pesquisa a uma pessoa dessas. Quantos conceitos ou termos você teve que substituir para facilitar o entendimento dessa pessoa. Ou pior, quantos detalhes você propositalmente ocultou para não confundir ainda mais a pessoa. E no final das contas, quantas vezes você se convenceu que a outra pessoa realmente entendeu tudo o que você falou, mesmo que ela tenha falado que entendeu tudo.

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A relação entre o mundo acadêmico e a população em geral é distanciada por diversos fatores. O ponto que eu quero chegar é aquele no qual não somos capazes de atuar como pontes desse sistema, ou seja, nos isolamos dentro desse meio ao invés de sermos facilitadores da dispersão do conhecimento. E nesse caso eu não me refiro às publicações, que apesar de possuírem o papel de divulgação, ficam restritas ao mundo acadêmico, na verdade eu falo sobre a relação de troca de informações entre a academia e a população leiga, na qual não somos capazes de explicar de forma eficaz nosso próprio objeto de estudo.

Como vamos exercer esse papel se em grande parte dos cursos bacharéis em biologia, química e muitos outros, não existem disciplinas obrigatórias que abordem conteúdos de didática. Além disso, quando um aluno desses decide pela carreira acadêmica, por muitas vezes ele termina sua pós-graduação sem a menor noção de ferramentas que facilitem a transmissão da informação.

Ter uma disciplina que aborde técnicas de didática também não é suficiente para que o aluno seja um bom professor, somente o exercício dessa prática faz com que ele consiga passar um determinado conteúdo de forma clara e objetiva. O problema, na minha opinião, reside no fato de que esse exercício não é incentivado durante a carreira acadêmica e se o aluno também não se dispõe a buscar meios alternativos de praticar sua didática, ele corre um grande risco de sair da pós-graduação com pouco ou nenhum domínio do exercício da mesma.

Diante disso tudo, eu percebo dentro desse meio, uma preocupação maior em se aprofundar em conhecimento científico do que buscar por saber COMO passar o conhecimento adiante. Ainda que essa informação seja transmitida por meio de publicações e que essa forma de divulgação científica passe por mudanças de forma a atingir um maior número de pessoas, a maneira como tentamos explicar o nosso objeto de estudo para familiares e amigos permanece prejudicada.

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7 respostas em “A relação entre didática e o meio acadêmico

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  3. Achei bastante interessante esse tópico, pois sempre pensei nessa mesma coisa. Além disso, acho que um grande obstáculo entre cientistas e sociedade não está só em mostrar o que está sendo estudando e fazer os leigos “entenderem” a sua pesquisa, mas também em comprovar a justificativa e importância do seu estudo. Pois muitas vezes as pessoas entendem o que está sendo estudado, mas não conseguem entender a aplicação daquilo. Claro que em pesquisa básica, muitos estudos não tem aplicação direta, mas acho que todo estudo deve ter uma justificativa coerente e palpável para ser feito. Senão, seria pouco interessante.

    • Gabriel,
      concordo contigo sobre a ciência básica. Ramon y Cajal tem um livro chamado “Advices for a young investigator”. Nele há uma passagem muito citada por um amigo: “a ciência básica deveria ser uma anti-sala de toda empresa” [ou instituto tecnológico]. Muitas vezes (na maioria eu diria), ver a aplicação ou utilidade de um conhecimento nas centenas de setores da sociedade é difícil para o cientista básico. Mas, para quem trabalha com ciência aplicada, que pensa nisso o tempo todo, é mais fácil. Por isso, vejo a Ciência Aplicada é a “extensão” da produção científica.

  4. Creio que a “vulgarização”, aqui em seu sentido de propagação não o pejorativo, do conhecimento acadêmico – veja que não utilizo o termo “ciência” – vai muito além de uma reforma curricular dos cursos universitários, sejam eles ciências de base ou não.

    Além de disciplinas ligadas à didática, e realmente duvido da capacidade delas, acredito que essa aproximação entre mundo acadêmico e população/sociedade deva ser alicerçado num diálogo contínuo. Lembra dos três “pilares” da universidade pública (ensino, pesquisa e extensão)? Então, como fazer do último um componente efetivo da política universitária para além de uma brecha para oportunismo universitário? Somente repensando este tipo de problema é que essa distância universidade-sociedade pode ser encurtada. (Ela sempre vai existir, o nosso papel, como pesquisadores, é fazê-la sentir o mínimo possível).

    • Thiago, eu compartilhava da mesma opinião que você sobre as disciplinas da área de didática, duvidava – e muito – da capacidade delas, afinal, ler textos de teóricos que não estão inclusos em determinados conceitos nada resolvem o problema de professores. Hoje percebi que tratava-se de uma questão de perspectiva, eu via as disciplinas como muitos colegas de trabalho e da academia ainda veem: não se trata de receita, é algo próximo – ou não – a uma orientação, os textos somente expandem nossos pontos de vista, nos mostram outros contextos de aprendizagem e algumas “variáveis educacionais”, em muitos casos trata-se de ressaltar o óbvio, nada mais.

      Sobre “extensão” li um texto transcrito de uma palestra do Professor Milton Santos em que ele questionava a existência deste termo, segundo ele, é como se tudo aquilo que a universidade produz ou estuda não interfira (ou deva o fazer) na sociedade.

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