Fatos e falácias sobre o crack

Foto: Alter-Latina

Definitivamente todos já ouvimos falar sobre o crack. Uma droga estimulante que tem sido utilizada no país desde início da década de 90. Mas caso ainda não estejam tão familiarizados com ela, vamos a alguns fatos. O crack nada mais é que uma variação da cocaína. Ambas as drogas são derivadas da folha de coca, provenientes de uma planta nativa da Bolívia. A diferenciação entre a cocaína (cheirada ou injetada) e o crack (fumada) se dá basicamente no processo de criação (extração) da droga, no qual subprodutos da produção de cocaína são reaproveitados e produz-se então o crack (o mesmo valendo para o oxi).

Algumas das razões para que o uso do crack tenha aumentado desde a década de 90 são: ele ser mais barato que a própria cocaína, ser uma alternativa à cocaína injetada (mesmo que pouco comum, houve casos especialmente durante a década de 90) e causar seus efeitos rapidamente no Sistema Nervoso Central.

O crack é uma droga que pode causar dependência rapidamente? Sim.  A principal explicação é que o crack, por ser fumado, chega muito rápido ao cérebro, causando o que chamamos de efeito reforçador (capacidade de fazer com que um estímulo, uma droga, aumente a chances de uma resposta, um novo uso). Este efeito é comum a qualquer droga de abuso (álcool, tabaco, maconha, cocaína, ansiolíticos, inalantes, etc.) e, em resumo, quanto mais rápida a ação da droga, maior seu poder reforçador. Em contrapartida, menos duradouros são seus efeitos, fazendo com que a pessoa tenha de consumi-la mais vezes para obter este prazer novamente. O conjunto dessas coisas pode sim favorecer um quadro de dependência.

Agora algumas falácias sobre o crack: Todos que usam crack se tornam dependentes? Não. Nenhuma droga gera tal certeza. O processo de dependência é influenciado por fatores biológicos, psicológicos e também sociais, com isso não conseguimos prever com exatidão se alguém que consumiu certa droga será ou não dependente dela.

Figura 1 – VI Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio das Redes Pública e Privada de Ensino nas 27 Capitais Brasileiras – 2010.
Fonte: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas
Disponível em: http://www.cebrid.epm.br

Estamos vivendo uma epidemia do uso de crack? Não, pelo menos do ponto de vista dos estudos epidemiológicos. No último levantamento nacional sobre o consumo de drogas psicotrópicas entre estudantes de ensino fundamental e médio das redes pública e privada realizado em 2010 (Figura 1), observou-se que somente 0,6% dos estudantes consumiram crack na vida. Uso muito menor que os 60,5% que já consumiram álcool na vida. Já na população domiciliar o uso na vida de crack e cocaína juntos foi relatado por 0,7% da população, sendo a décima terceira droga mais utilizada. E a primeira, claro, o álcool, com 74,6% de relatos de uso na vida (Figura 2).

Vale destacar que entre outras populações, como a de crianças e adolescentes de rua, a prevalência do uso de crack sobe, mas ainda assim não é a droga mais consumida. Se quiser saber mais sobre esses levantamentos, todos estão disponibilizados gratuitamente neste link.

Figura 2 – II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil – 2005.
Fonte: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas
Disponível em: http://www.cebrid.epm.br

Crack é droga de pobre? Não. Atualmente mesmo não sendo o principal foco dos noticiários, diversas pessoas das classes média e alta consomem crack e sofrem as consequências dos mesmos. Pessoas de todas as profissões e em diversas condições consomem crack. Não somente moradores de rua.

Portanto, toda essa importância exacerbada do crack soa muito mais como uma estratégia política e midiática de exploração de uma droga que apesar dos prejuízos que causa, fica muito aquém de várias outras drogas que podem gerar tantos problemas ou mais que o próprio crack. De fato, o número de pessoas afetadas pelo consumo abusivo de álcool é muito maior que o do crack, mas nem sempre nos atentamos para os problemas que ele pode causar. Por exemplo, mortes, incapacidades, violência, relação sexual sem proteção, danos ao patrimônio, demência, direção perigosa de veículos, problemas acadêmicos e no trabalho, etc. Porém por ser uma droga amplamente aceita na sociedade e com permissão para consumo usualmente acabamos nos esquecendo dessas questões.

A questão não é nem nunca foi se o crack consegue prejudicar a vida das pessoas e de seus familiares, nem se causa ou não dependência, tão pouco se as consequências de seu uso devem ou não ser tratadas com cuidado pelas políticas públicas. A questão é: será mesmo que o crack merece tanto destaque e ser considerado como a principal droga e que mais causa problemas na sociedade brasileira? Mais uma vez vale então o julgamento crítico de tudo que vemos e ouvimos nos noticiários.

Assim finalizo com um trecho da música de John Mayer, Waiting on the World to Change para deixar o recado:

“And when you trust your television
What you get is what you got
Cause when they own the information
They can bend it all they want”

“E quando você acredita na televisão
O que você recebe é o que você teve
Porque quando eles possuem a informação
Eles podem te dobrar tudo o que quiserem”

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8 respostas em “Fatos e falácias sobre o crack

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