O Pau de Arara científico

Quico – “Onde você vai, Chavinho?”
Chaves – “Vou fazer mestrado.”
Quico – “Gentalha!!”

Certa vez escrevi um texto com conselhos de como escolher um programa de pós-graduação stricto sensu que se adequasse às necessidades acadêmicas dos estudantes de psicologia. Foquei nestes estudantes somente porque o pedido para escrever este texto veio de colegas e outros leitores do CogPsi, a maiora psicólogos. Todavia, um dos conselhos que julguei mais importante neste texto que escrevi serve para estudantes de todas as áreas do conhecimento que estejam dispostos a seguir carreira de pesquisa e ensino.

Então escrevo hoje visando enfatizar tal conselho, que era o de que a pessoa deveria se libertar do desejo de se manter perto do seu ninho, cercado pelos cuidados maternos e paternos, para poder galgar espaços maiores na vida acadêmica. Confesso, esse texto possui um caráter motivacional e vai acabar passando por cima de alguns pontos que pesam nas necessidades individuais, então consuma com moderação.

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E se o texto é algo mezzo motivacional, mezzo passional, é preciso ter uma trilha sonora para acompanhar. Antes de continuar, sugiro esta bela música da Led Zeppelin para ouvir durante a leitura do texto. Eu a chamo “Ten Years Gone fazendo Mestrado, Doutorado e esperando concurso” e conta mais ou menos a história de um rapaz que queria ser Professor Adjunto de uma Universidade pública:

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Sim, sair de sua cidade natal é difícil e é fato que os sentimentos nostálgicos relacionados à vida na sua cidade se somam aos receios de um passo rumo ao incerto, a fim de te afastar dos desejos de melhores possibilidades de trabalhar com pesquisa, solapando aos poucos aquele seu sonho de um futuro bem sucedido escrevendo livros, dando palestras e carregando um prêmio “Nobel de Tudo e Mais um Pouco” enquanto toca guitarra e salva o mundo, fazendo ele parecer cada vez mais distante e ingênuo. É difícil sim, mas isso não deveria te impedir de correr atrás. É importante lembrar que as universidades públicas – maiores detentoras de programas de pós-graduação bem conceituados – estão centralizadas nas regiões sul e sudeste do Brasil, e a maioria nas capitais. Sendo assim, a quantidade de pessoas distantes destes programas é imensa e migração para poder estar sempre inserido nos melhores programas é corriqueira. É o pau de arara científico.

Penso que existe um grande número de pessoas que ainda se questiona acerca da importância de cursar um Mestrado e/ou Doutorado para sua carreira ser bem sucedida e qual o impacto disto em suas vidas. Grande parte dos que se questionam acerca deste impacto provavelmente está finalizando o seu curso de graduação e decidindo sobre o quanto vale a pena dar tal passo, e mais, para aqueles que não vivem perto de um ótimo programa em sua área, é somada a necessidade de dar um passo ainda mais largo, em direção a uma cidade provavelmente bem distante da sua.

Basicamente, os pontos positivos para sair de sua cidade natal e iniciar o seu caminho pela carreira científica é a excelência do ensino em uma instituição distante. Além disso, quando perto dos grandes centros, somos bombardeados com cursos, palestras e oportunidades de ensino e pesquisa em um nível de excelência. Sem dúvidas, estes são pontos que podem servir bem para balizar sua decisão.

É claro que há o lado ruim de enveredar por tais caminhos distantes, mas a maioria tem a ver com questões de responsabilidade que em álgum momento surgiriam. Seja o sair da casa dos pais e morar com completos estranhos, tendo que lidar com a individualidade de alguém que você sequer sabia que existia no mês anterior, como grandes dificuldades de relacionamento. Amigos se distanciam e, eu não queria te contar, mas o seu namoro ou vai acabar ou vai precisar resistir muito às agruras da distância. Também é muito difícil que você consiga morar em uma cidade mais barata que a sua cidade natal, pois a tendência termina ser a ir para os grandes centros acadêmicos do Brasil, estados como São Paulo e Minas Gerais, ou ainda para capitais com universidades de destaque, que terminam por ser muito caras, como Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador.

Talvez o ponto negativo que se mostra mais incômodo é o fator de que nossa ciência não é valorizada e justamente por isso as bolsas que deveriam garantir a sobrevivência daqueles que estão responsáveis pelo desenvolvimento científico e tecnológico do país estão há anos sem reajuste. Sendo assim, o governo termina por pagar um pequeno valor para os estudantes de pós-graduação, exigindo dedicação exclusiva destes, mas sem nenhum benefício trabalhista que justifique chamar essa empreitada de emprego, a não ser a dedicação e compromisso deste estudante com o programa em que está vinculado e com seu próprio futuro. Apesar de tudo, os estudantes de pós-graduação tem protestado e lutado para resolver tão situação, enquanto permanecem se dedicando aos seus projetos.

Tendo em vista estes pontos, é claro que não há dúvidas que em uma empreitada deste tamanho as coisas podem sim dar errado, embora “poder dar errado” é algo que não deveria nos impedir de seguir em frente. Como não tenho experiências com viagens internacionais, outras pessoas estão muito mais capacitadas para falar disso – nos comentários, por exemplo – do que eu e por isso não falei em nenhum momento destas, mas – e aí só quem já teve tal experiência pode dizer – acredito que o sistema tende a ser o mesmo.

Embora todas as dificuldades passadas sejam extremamente desgastantes, acredito que não conheço um cientista que se arrependa de ter tomado a decisão de expandir os seus horizontes e viver uma outra vida, em outro lugar. Talvez porque isso faz muito parte da visão do cientista, de querer descobrir, vivendo cada vez mais o que há de novo. É claro que a minha visão em relação a esse tema não é nada imparcial. Pode ser até fruto de uma dissonância cognitiva por estar vivendo este exato momento, como também pode ser a confirmação de um caminho pensado e traçado, repleto de saudade, sim, mas – até agora – satisfatório.

Apesar dos diversos problemas que você talvez precise enfrentar, ainda aconselho: saia da zona de conforto, mesmo que tenha que virar um retirante acadêmico, se jogue e vá fazer ciência!

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