Ciência para menores de idade

Um dos problemas mais relatados no meio científico é a captação de recursos. Quando se fala em recursos, imediatamente voltamos nossos pensamentos para os já tão discutidos, e pouco solucionados, problemas financeiros vividos pela maioria dos laboratórios de pesquisa no Brasil e acabamos por omitir outro recurso tão escasso quanto o primeiro, o recurso humano. Além de existirem poucos cientistas/pesquisadores, raríssimos são os jovens que ingressam no vestibular com o interesse pela carreira científica. Como consequência da falta de mão de obra, muitos projetos não são finalizados ou nem saem do papel. A ciência e o desenvolvimento ainda não fazem parte do vocabulário do brasileiro.

Mas onde se encontra a raiz desse problema? A meu ver, na falta de conhecimento, não aquela gerada por sistemas educativos precários, mas aquela gerada pela escassez de informação passada a população. Novelas e jornais estão recheados de enfermeiros, jogadores de futebol, escritores, advogados, DJ´s e bombeiros exemplificando a vida desses e outros segmentos profissionais mais populares. Já o pesquisador (que nem personagem em novela tem!), ainda se encontra marginalizado nesse contexto e muitas vezes estigmatizado pela opinião pública.

Este vídeo retrata bem a situação da profissão de pesquisador no Brasil.

Cabe a nós, cientistas/pesquisadores/pós-graduandos, iniciar a mudança desse pensamento, através da chamada divulgação científica. Esse assunto – que já foi abordado por outras perspectivas anteriormente no Prisma (aqui e aqui) – foi a fagulha que deu início ao blog, por isso muitos podem pensar que ele já está batido, mas por ser tão significativo para nosso futuro ele deve ser constantemente levantado nas rodas de discussão.

No cerne do debate encontramos uma pergunta central: Como melhorar a comunicação entre os cientistas e a população? Mas eu me faço outra pergunta: Como fazer uma criança de 8 anos se apaixonar pela ciência? Esta pergunta é mais significativa pra mim, pois foi nessa idade que comecei a trilhar o caminho em que estou agora, e tudo por causa de um grande “cientista” que conheci nessa idade, o grande Beakman.

Para aqueles que não conhecem, o Mundo de Beakman era um programa transmitido na TV aberta entre os anos de 1994 e 2002 . Seu elenco era composto pelo cientista Beakman e seus dois assistentes, uma mocinha muita simpática e vivaz e um rato sujo e folgado. A temática do show consistia em basicamente transformar a tão assustadora e complexa ciência em algo divertido e simplificado para crianças, e nessa questão o programa teve muito êxito.

O cientista Beakman (Paul Zaloom), com seus assistentes, Lester (Mark Ritts) e Josie (Alanna Ubach)

Com o auxílio de personagens históricos importantes na ciência (sempre interpretados pelo Beakman), esquema ilustrativos eficientes, efeitos visuais e sonoros (mais de 5 mil por episódio!) e muito bom humor o programa respondia questões enviadas por crianças sobre os mais diversos assuntos relacionados à ciência, como por exemplo, como funciona eletricidade até como se formam as espinhas.

Neste vídeo, Beakman explica com muita clareza e precisão um dos princípios mais importantes para a pesquisa, o método científico.

Hoje em dia vejo como o trabalho desenvolvido pelo Mundo de Beakman deve ser valorizado e difundido, não só pela influência que teve em mim, mas por ter lidado tão bem com a comunicação ciência-população passando informações coerentes e ao mesmo tempo atraentes para um público extremamente complexo, crianças curiosas.

Se nosso objetivo é criar um mundo melhor porque não investir naqueles que irão formar o futuro. Investimentos na educação básica atrelados a uma divulgação interessante e atrativa para crianças pode ser a solução para o problema de falta interessados na carreira científica. Vai que no futuro o Manoel Carlos não faz uma Helena pesquisadora…

Helena – “Acho que vou tomar uma água de coco na praia do Leblon enquanto meu PCR fica pronto”

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6 respostas em “Ciência para menores de idade

  1. Pingback: 4 Programas infantis da década de 90 que te fizeram gostar de ciência | Prisma Científico

  2. Eu acho que talvez mais importante do que formar um bom pesquisador é formar bons profissionais em suas formações de base. Essa comparação parece meio redundante, mas isso é consequência da nossa mania de considerarmos cientistas apenas aqueles que trabalham com ciência biomédica. Esquecemos que por trás das engenharias existem ciências, que existe avanços científicos na área da educação e de que a ciência social também merece muita atenção.
    Assim sendo, não haverá boa ciência em engenharia se não formarmos bons engenheiros; se nossos sociólogos não forem competentes parte das ciências sociais se esculhambam; se não formarmos bons médicos, biológos e biomédicos (dentre outros) a pesquisa científica na área da saúde também se escasseará.
    Ainda que seja plausível que uma criança queira ser pesquisador (termo vago quando consideramos o viés de focar apenas na pesquisa biomédica), acho mais justificável que a criança queira ser biológa, professora, psicóloga, arquiteta, astronauta… O senso científico direcionado (diferente do senso científico geral e do raciocínio lógico) será mais bem construído durante a formação e não deve ser tomado como um pré-requisito.
    No final das contas, pesquisador ou cientista é uma ocupação, uma condição ou um emprego, não uma profissão.

    • Concordo plenamente Gabriel. A qualidade da educação dada nas faculdades ou cursos profissionalizantes será refletida na qualidade da pesquisa desenvolvida. Antes de pesquisador/cientista, somos biomédicos, educadores físicos, psicólogos, engenheiros e por ai vai. A minha crítica é em cima da valorização dessa opção. Quantos cursos de engenharia enfatizam a pesquisa científica como opção de futuro profissional? Mesmo em cursos da área de saúde, essa opção nem sempre é levada em consideração. E quantos jovens ao comprar revistas de orientação profissional ou ao procurar alguém especializado encontram este desdobramento para a profissão que desejam?

      Ciência pra mim não está apenas nas mãos dos profissionais da saúde, muito pelo contrário, acredito que as ciências sociais e as tecnológicas são de suma importância. Segundo o último relatório de ciência da UNESCO, as três áreas de P&D com maior investimento do capital governamental brasileiro são agricultura, tecnologia industrial e saúde. O Brasil demanda de profissionais de qualidade nas diversas áreas de pesquisa, mas muitos dos que poderiam suprir essa necessidade nem fazem ideia de que são aptos, pois muitas vezes não conhecem essa faceta de sua profissão. Por isso a melhor divulgação dessa opção, desde ensino básico é tão relevante.

    • É exatamente por isso que eu apoio a greve das universidades federais, apoio totalmente a reformulação do ensino e a valorização da carreira dos pesquisadores, doutores e professores universitários, mas acho pouco, muito pouco, irrisório, enquanto não pensarmos em uma reformulação geral e valorização do ensino básico!

      Baseando-me em experiência própria, desde 2002, vejo que existem basicamente três perfis para os professores do ensino básico, principalmente na educação pública: 1. aqueles que deram aula aos meus pais e que continuam na escola, aguardando a aposentadoria; 2. aqueles que estão lá enquanto não conseguem um emprego melhor; 3. aqueles que optaram de livre e espontânea vontade por essa profissão (normalmente jovens recém-formados) e que estão tentando desenvolver um trabalho digno, apesar das dificuldades impostas pela própria escola.

      O primeiro perfil se refere àqueles que foram profissionalizados pela ditadura e que não conseguem compreender essa “nova escola”. Por isso, “jogaram a toalha” e jogam toda a culpa do nosso fracasso educacional no suposto mau caratismo do “Joãozinho da 5ªB”. Infelizmente, por serem mais velhos e experientes, tem ensinado essa visão odiosa a muitos novos professores, principalmente àqueles do segundo perfil. Estes, por sua vez, pouco se importam se têm ou não condições de lecionar, por alguns motivos: ele só está ali temporariamente, até conseguir um emprego melhor; ou ele simplesmente não está preocupado. Só quer que o dia acabe e que o salário caia na conta no 5º dia útil.
      Já, o terceiro perfil é aquele que tem mais propensão a utilizar o Serviço Psiquiátrico do Hospital do Servidor Público. É aquele que sofre com as péssimas condições de trabalho, é aquele que é sindicalizado, que apoia e organiza greves, mas sofre represálias da diretoria e a chacota dos professores do primeiro perfil – e que tenta todos os dias não desistir e não se transformar em um deles, como acontece com os do segundo grupo – , que é aconselhado pela família a procurar outro ofício e que, entre tantas outras coisas, é ridicularizado por seus alunos, pela sociedade e, pasmem!!! Por seus colegas professores universitários.

      Sim, isso mesmo… nossos colegas doutores, livres-docentes, professores de universidades públicas ou candidatos a tal, que criticam o analfabetismo funcional e as condições precárias em que estudantes chegam às universidades hoje, mas que ajudam no cenário de desunião entre a classe, que compram esse estigma de que o professor do ensino básico é aquele que foi incompetente demais para ser coisa melhor!
      Faça o teste! Procure dizer aos seus colegas que está decidido a trocar a carreira universitária pela educação básica e sinta o gosto amargo do preconceito… “ele nunca levou jeito para a pesquisa mesmo”; “quem mandou não publicar!”; “deve estar com depressão”, etc…

      O mais triste é saber que, de fato, os profissionais mais gabaritados da área dificilmente opta por ser professor da rede pública. Bem, pensando no ensino fundamental II (nosso antigo Ginásio), onde se ganha cerca de R$8,00 por uma aula de 50 minutos em uma sala de aula suja, com cerca de 40 alunos; onde parte deles continuam matriculados para não perder as refeições que são dadas; onde você passa de professor a carcereiro, porque a a diretora não quer saber de barulho no corredor… É compreensível que um profissional melhor gabaritado opte por desempenhar outra função… No caso dos biólogos, por exemplo, ser pesquisador da Monsanto e desenvolver espécies transgênicas e novos agrotóxicos pode não ser tão digno, mas leva sua família à Europa em todas as férias de verão…

      É isso, amigos… enquanto a educação básica atrair mais pessoas “sem opção” do que aqueles com capacidade e vontade de lecionar, estaremos dando murro em ponta de faca com a nossa bem intencionada divulgação científica. De nada adianta um volume imenso de informações para uma população que não sabe ler. Não adianta ler para uma população que não sabe fazer uma reflexão crítica do que ouve.

      Para o bem de toda a sociedade, os professores e amantes da educação precisam se unir e lutar por uma educação básica de qualidade, com professores capacitados e bem remunerados.

      Pensem nisso… porque não termos doutores na educação básica???
      Reclamamos de um salário de R$7000,00 na universidade mas não falamos sobre os R$1200,00 que um professor ganha por 40h/aula na educação básica.

      O momento é de união! Todos pela educação!

  3. Ah, injusto! Tinha um neurocientista no Big Brother (acho que no 2o ou 3o…) super bem ilustrativo. rsrs. Brincadeiras a parte, gostei da materia.

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