A moral daqueles que não possuem fé

Um vídeo recentemente retirado de um jornal catarinense e postado no Youtube incomodou diversas pessoas na internet. Não só pelo tema que, por si só, possui uma alta carga polêmica, mas pela opinião contundente expressa pelo jornalista e psicólogo Luiz Carlos Prates sobre a maior quantidade de religiosos do que ateus nas cadeias, inicialmente buscando ir de encontro a uma pesquisa que afirmou que a religião é um dos fatores fundamentais para a felicidade. Um dia falarei mais sobre essa pesquisa, antes de tudo, vamos falar sobre o que acabou sendo o ponto mais crítico do argumento de Prates, a discussão entre moral e religião.

Em primeiro lugar, antes de começarmos, é preciso advertir: Prates é inconstante. Seus argumentos às vezes são lúcidos, às vezes beiram o delirante excesso do conservadorismo preconceituoso, tanto que um destes acabou custando o seu cargo de comentarista em uma emissora de televisão, após dizer que os acidentes de trânsitos eram causados por “miseráveis que nunca haviam lido um livro”. Por isso, pouco sobre ele será dito aqui, pois a pessoa e qualquer questão valorativa agregada a ela é desimportante, é preciso se discutir a ideia. Então vamos à crônica de Prates:

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Apesar da agressiva assertiva, quando retirada a dose de fervor que lhe é característica, a linha de raciocínio de Prates neste vídeo é clara: Crer ou não na existência de um Deus e seguir ou não os preceitos de uma religião não devem ser usados como distinção de capacidade ou intencionalidade “moral”. E, pelo menos desta vez, a ciência concorda com Prates.

A suposição de que a religiosidade possuiria uma relação causal com a expressão de comportamentos de cunho pró-social se chama “Hipótese Pró-social da Religião”, um viés de pensamento extremamente difundido entre a população. Todavia, revisões e experimentos¹ que buscaram testar essa possível relação entre moralidade e a crença em um deus parecem fazer coro com a ideia de que, após uma análise crítica, esta hipótese não se sustenta. A crença religiosa simplesmente não está relacionada com pensamentos e comportamentos morais e pró-sociais, da mesma forma que a não-crença não pode ser relacionada a comportamentos amorais, o que é condizente com o que poderia se esperar de uma forma de pensamento agregado ao laicismo, onde estão valores humanistas e secularistas, ou seja, valores devidamente separados de qualquer crença religiosa, mas pautados no conhecimento científico e filosófico em prol da humanidade e da sociedade.

A religião (ou a falta dela) apesar de interferir na formação dos valores e atitudes de um indivíduo, é apenas um pequeno pedaço do grande sistema de crenças que é modelado durante a vida de cada pessoa. A religião é uma forma de balizar os comportamentos daqueles que acreditam, mas para os que não são religiosos outros valores são utilizados², valores estes que inclusive tendem a ser mais justificáveis do que a crença em um mundo espiritual pós-morte, como a ética, o respeito ao próximo, as evidências científicas que guiam as opiniões acerca de temas polêmicos, a intenção de coexistência pacífica com os outros indivíduos etc. Os valores de um ateu ou agnóstico – a maioria que conheço, pelo menos – tendem a caminhar com uma visão menos conservadora da realidade. Os preceitos que justificam e guiam os valores que os indivíduos que não seguem uma fé em particular atribuem às coisas – e assim também os comportamentos resultantes desta equação – tendem a seguir pela direção do melhor para a humanidade, e pouco tem relação com algo místico, como escrituras sagradas ou a possibilidade de alcançar um futuro paraíso, mas sim na tentativa de ser melhor no presente, para fazê-lo funcionar. Bom, mesmo assim, é claro que este grupo também possui as suas exceções.

Sendo assim, e aqui é um ponto importante para tentar fazer com que a ideia exposta por Prates seja mais palatável, não é possível e nem honesto associar a crença em uma religião ou a inexistência desta a atos criminosos e amorais. Todavia, a discussão é cabível, justamente por aqueles que não creem em uma religião ou existência divina fazerem parte de um dos grupos que mais sofre com o preconceito velado na sociedade, seja agnóstico ou ateu. Um grande número de pessoas acredita que a não crença em deus é o cancro da humanidade e diretriz absoluta e fundamental para que seja engendrada em uma pessoa os traços definitivos de um psicopata, como exemplo, cito e mostro um outro comentário na televisão que quando divulgado na internet causou revolta, mas desta vez para o lado dos ateus: O jornalista José Luiz Datena falou em diversos programas que os crimes que ele apresentava em seu noticiário seriam resultados da “ausência de deus no coração” do indivíduo.

 

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Ou seja, para o jornalista, não acreditar em um deus – seja ele Odin, Czernog, Bastet ou Jeová – já é, antes de qualquer coisa, uma comprovação de que o indivíduo faz parte do lado “Mau” da humanidade, um maniqueísmo barato e raso, que não se sustenta. Não crer na existência de Deus não significa dizer que o sujeito não seguirá as leis e não possuirá valores humanistas, muito pelo contrário, já que a fé tende a ser uma justificativa utilizada para aniquilar todo e qualquer argumento – mesmo que pró-social e embasado – que vá de encontro ao dogmatismo e às bases sacras. Como vimos anteriormente, a “Hipótese Pró-social da Religião” já foi comprovada não passar de uma falácia irreal.

E essa discussão se faz necessária também baseada em experimentos, onde foi encontrado que o preconceito em relação a esse grupo social tende a reduzir quando a população é apresentada a informações que indiquem que há efetividade de forças jurídicas e legais no julgamento de criminosos³. Ou seja, se mesmo o preconceito em relação aos ateus e agnósticos tendem a diminuir quando estas informações são apresentadas, parece ser plausível pensar que o que leva a esse preconceito pode não ser somente a crença de que os indivíduos que não possuem fé sejam amorais, mas apenas uma necessidade de acreditar que cada ato terá sua devida punição, por falta de confiança na existência de uma lei terrena justa, se espera uma lei divina. Datena foi processado e teve que se desculpar ao vivo, infelizmente não aprendeu e permanece divulgando suas crenças absurdas como realidade, um argumento que chega a ser assustador, onde se afirma que as pessoas ajam com respeito e civilidade com outras apenas por medo do julgamento final e do inferno.

Sendo religioso ou não, o que se defende aqui é que os indivíduo não devem se abster de ações humanistas, tendo ou não uma consequência etérea. Pensar que todos os indivíduos no mundo deixariam de agir desta forma caso descobrissem que, provavelmente, não há um deus, é reduzir a complexa rede de aprendizado e ética em que em estamos submersos desde o início de nossas vidas. Respeitar e agir de acordo com as leis, a razão e as necessidades dos outros indivíduos e da sociedade deve ser o modo mais natural de se existir, tendo você um deus “em seu coração” ou não, e acredito que para a maioria das pessoas, assim é.

Referências:

1. Galen, L. W. (2012). Does Religious Belief Promote Prosociality? A Critical Examination. Psychological Bulletin, 128 (5), 876-906.

2. Shariff, A. F.; & Norenzayan, A. (2007). God is Watching You: Priming God Concepts Increases Prosocial Behavior in a Anonymous Economic Game, Psychological Science, 18 (9), 803-809.

3. Gervais, W. N.; & Norenzayan, A. (2012). Reminders of secular authority reduce believers’ distrusts on atheists. Psychological Science, 23 (5), 483-491.

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16 respostas em “A moral daqueles que não possuem fé

  1. Olá, Marcus. É o primeiro texto que leio aqui do Prisma e achei ótimo.
    Eu sou ateia, mas fui criada em uma família extremamente cristã. Eu segui as crenças e os costumes deles por muito tempo, até começar a ler mais sobre outras crenças e outras religiões, inclusive as mais antigas e mudar um pouco de ideia.
    Não acho, todavia, a religião algo ruim, nem acho o ateísmo algo ruim. O que é ruim hoje em dia é a não-aceitação da maioria das pessoas a crenças/opiniões que diferem das suas.
    Seria ótimo se cristãos/religiosos parassem de tentar impor suas convicções a ateístas e seria ótimo se ateístas parassem de tentar fazer os religiosos se tornarem descrentes.
    E também seria bom se todos enxergassem de um vez por todas que ser religioso não é sinônimo de ser bom e ser ateu também não é sinônimo de ser mau.

  2. Pingback: A moral daqueles que não possuem fé » Bule Voador

    • Olá Maurício,

      Discordo completamente de você.

      Primeiramente, o ateu é aquele que não crê na existência de seres sobrenaturais e/ou divindades. Aquele que crê no deus cristão e vai parar em um presídio é um cristão criminoso, nada mais. É muito fácil imputar ao que crê e ‘peca’ a pecha de “não-cristão”, “ateu”, “endemoniado” e dizer que ele era o joio, em meio ao trigo que supostamente seria os outros, que possuem crenças semelhantes, com o diferencial de não terem cometido um crime.

    • É esse tipo de intolerância que os cristãos praticam? Daí para o massacre de milhões é um passo.. Ou você também “nunca conheceu deus(es)”?

  3. Muito bom o texto! Gostei dos comentários acima também.
    Para um aprofundamento na problemática dos sistemas de crença, aconselho a leitura de Charles Sander(?) Pierce, um filósofo do séc. XIX que fez reflexões interessantes sobre a forma com que as crenças são difundidas e como elas têm vínculo direto com a insegurança dos fundamentalistas.

  4. A difusão da moral “religiosa” tem servido de mercadoria para várias seitas que diligenciam em obter poder. Não dá para honestamente crer nos pregadores já que paralelamente às suas respectivas pregaçóes cometem toda sorte de atos que seriam condenáveis pelas suas próprias palavras. A ética, que é a ciência que deve presidir as relações sociais e humanas pode perfeitamente prescindir,pois, dessa “colaboração”.É induvidoso que algumas teorias religiosas podem colaborar para os fins éticos, todavia, seus fundamentos provém de tempos anteriores aos ídolos e ícones colocados. A construção dos valores a presidir o convívio social inteligente deveria ser, sempre e antes de tudo, baseado em honestidade intelectual e ética e não em pregações mercenárias.

  5. Belo post Marcus!
    A não ser que a pessoa tenha algum transtorno nos seus circuitos morais (como os psicopatas), ela sentirá coisas como empatia, compaixão, culpa, amor, etc e tendo vivido em sociedade sabe o que é bom ou ruim às outras pessoas. Acho que quase todo mundo concorda por exemplo, que é injusto e indesejável impor sofrimento ou males desnecessários a inocentes, independentemente de ter ou não uma religião.

    No meu círculo social as pessoas tendem a adotar éticas consequencialistas, isto é, avaliar os atos como bons ou ruins pelas suas consequências prováveis em beneficiar ou prejudicar (e não porque foram prescritos por alguma doutrina, ou porque se tem boas intenções e sentimentos no coração), eu sou um consequencialista e tenho de avaliar como todas as minhas decisões tem implicações sobre mim e outros, para melhor ou pior, e como otimizar isto, um raciocínio que muitas vezes as pessoas não fazem porque não se questionam, porque já tem uma concepção de que um tipo de ação é boa ou ruim e nem sabem por quê.

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