Ah, as Olimpíadas

Sempre fui ligado a esportes. Para quem é fã como eu, a Olimpíada de Londres foi um prato cheio. Assistindo aos Jogos de Londres, me perguntava constantemente porque eu não volto a treinar sério.

Claro que o fatores como tempo, alimentação e sono são importantes, mas sempre se acha um jeito quando realmente se quer treinar.

Comecei a pensar então do que eu realmente sentia falta no treinamento esportivo. Claro que não era de acordar mais cedo e pegar frio na piscina, ou tomar uma chuvarada de bicicleta. Eu sentia falta da adrenalina das competições. Sentia falta das pessoas se preparando, os treinadores passando as informações de última hora, dos pais incentivando seus filhos, da ansiedade sem mensuração antes da largada.

Resolvi escrever então de dois hormônios que agem no nosso cérebro e que estão presentes no treinamento.

Se você quer treinar um esporte, saiba que uma hora vai se deparar com a dor. Dor é um sinal de aviso e não deve ser ignorada. A exaustão muscular leva a hiperacidez, porque utiliza energia demais e inibe a dexintoxicação do ácido lático, que causa a dor. Logo, um alívio para a dor nos faz ir mais longe. De fato, os analgésicos estão entre os fármacos mais consumidos no mundo. Além dessas drogas químicas que causam alívio, nós também possuímos alguns aliviadores endógenos, como as endorfinas. Esse hormônio é um opióide endógeno e é secretado pelo hipotálamo, e apresenta meia-vida de aproximadamente 20 minutos.

Como eu disse, a endorfina alivia a dor causada pelo exercício físico, além de outras ações: maior tolerância ao lactato, diminuição do esforço e do desconforto muscular. Conforme o ritmo de treino melhora, mais adaptado ao estresse do exercício você fica. Além dessas ações, a endorfina também causa um tipo de euforia, uma sensação de bem-estar indescritível. Essa euforia está associada diretamente com a quantidade de endorfina liberada. É uma sensação contraditória de liberdade e de cansaço, de vontade de ir cada vez mais longe e de não conseguir dar mais um passo.

Uma das coisas interessantes é que os níveis de endorfina só estão aumentados após a prática de exercícios com alto esforço ou por longos períodos (em termos técnicos, algo em média 70% de VO2máx por 30 minutos ou exercício anaeróbico por volta de 80% de VO2máx). Em outras palavras, a endorfina é liberada em situações de esforço intenso e causa uma sensação muito agradável! Agora, quando esse hormônio é liberado ele atua em receptores opióides, podendo diminuir a dor e o desconforto muscular. Então nós temos um hormônio que alivia a dor e o desconforto, produz bem-estar e atua no sistema de neurotransmissão opióide, o mesmo sistema da morfina ou ópio. Essa é uma das hipóteses sobre o porquê de algumas pessoas serem “viciadas” em exercícios físicos!

Além dessa sensação agradável do exercício, existe outra coisa que eu sinto falta do treino esportivo. Quando você está cansado, desanimado, pensando em seus problemas pessoais, você olha para o lado e percebe que não está sozinho. Há um grupo de pessoas que está todo dia ao seu lado, para apoiar o seu esforço, rir de suas trapalhadas, levar bronca do treinador juntos, praticar uma jogada ensaiada e por vezes, descontar a sua frustação.

Após certo tempo, amizade e confiança são criadas. Um vínculo é estabelecido. Uma das substâncias envolvidas nesse comportamento é a ocitocina.

Até pouco tempo atrás, a ocitocina era largamente conhecida pelo seu papel na lactação e na contração uterina na hora do parto. Recentemente, vários estudos científicos sugerem a participação desse hormônio no comportamento social. Além disso, a ocitocina poderia ajudar em outros comportamentos, como a ansiedade e empatia.

Alguns cientistas afirmam que uma borrifada nasal de um spray de ocitocina poderia melhorar o seu comportamento social, diminuindo a ansiedade e aumentando a confiança em seus companheiros, melhorando o seu desenpenho (perfeito para dar para alguém que está prestes a bater um pênalti na final de um campeonato ou para o seu chefe).

Sem sombra de dúvidas, esses hormônios atuam em nosso desempenho esportivo. Em nossa era em que milésimos de segundos podem fazer a diferença, tornando as competições cada vez acirradas, uma das maneiras de aumentar e melhorar o desempenho seria através da genômica do esporte. A ideia é muito simples. Se a endorfina está relacionada com dor e bem-estar e a ocitocina com o comportamento social, por que não inserir mais cópias no nosso DNA desses genes para uma melhor performance? Esse é o princípio do “Gene Dopping”.

Apesar dos vários benefícios que o esporte nos proporciona, nós burlamos nossa rotina para não treinar. Para economizar energia, puro comportamento evolutivo.

Por fim, gostaria de deixar um vídeo que sempre me inspira quando eu estou com preguiça de treinar. O que motiva esse pai em empurrar o seu filho? Endorfina? Ocitocina? Ou algo que a ciência ainda não descobriu e que só acontece entre pais e filhos? Deixem suas impressões nos comentários!

Referências:

Oxytocin: the great facilitator of life. Lee HJ, Macbeth AH, Pagani JH, Young WS, Prog Neurobiol. 2009.88:127-51

Gene doping. Haisma HJ, de Hon O. Int J Sports Med. 2006. 27:257-66.

Levels of beta-endorphin in response to exercise and overtraining. Cunha GS, Ribeiro JL, Oliveira AR.Arq Bras Endocrinol Metabol. 2008.52:589-98.

Modulating social behavior with oxytocin: how does it work? What does it mean? Churchland PS, Winkielman P. Horm Behav. 2012. 61:392-9.

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3 respostas em “Ah, as Olimpíadas

  1. Admito que fiquei bem curioso com o segundo hormônio que você iria abordar, e achei uma ótima escolha!
    Esse caráter social da prática esportiva é de fato fantástico, e, particularmente, acredito que seja um grande motivador para a mesma.

    • Obrigado André!

      Não tenho artigos científicos para me basear no que vou dizer, só alguma experiência no assunto. Esporte como ciclismo e corrida são incrivelmente chatos e monótonos para treinar sozinho. Tudo muda de figura quando se tem uma companhia ou um grupo de treino. E como você mesmo disse, é um grande motivador.

      Abraço!

      • Concordo com você, e o mesmo aplico à academia/musculação. Apesar de não ter também trabalhos científicos sobre, grande parte das pessoas normalmente não se mantém por muito tempo por acharem monótono e enfadonho. Elas se sentem extremamente desmotivadas a se manter no exercício.
        Esta desmotivação é inclusive um dos grandes problemas relatados por pesquisadores da área de exercício, visto que pessoas motivadas e desmotivadas respondem muito diferente às intervenções.
        Particularmente acredito que para se manter em uma atividade física devemos encontrar alguma motivação seja intrínseca (faço por que gosto, faço poque me sinto bem, sinto prazer ao fazer, etc) – mais ligado às endorfinas – ou extrínsecas (gosto do contato que tenho com as pessoas que praticam esse esporte, etc.) – mais ligado à ocitocina.

        Abcs!

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