A sociedade poderia ser vista como organismo vivo?

Você já pensou em todos os níveis da escala da existência que o homem já conseguiu explorar, ou teorizar sobre? Não raramente me pego pensando nisso e nos caminhos que nosso desenvolvimento enquanto humanidade, ou melhor, enquanto vida na Terra tem tomado, e no que estamos nos tornando.

Primeira fotografia de microcopia por força atômica mostrando as ligações químicas dentro de uma molécula individual.

Segundo alguns físicos teóricos, o universo é composto por p-branas que, em suas 11 dimensões, vibram e formam partículas, energia e tudo mais que há. Essas partículas se combinam e formam as partes dos átomos. Estes, por sua vez, interagem de maneira específica e organizada e formam moléculas e macromoléculas. Algumas dessas moléculas possuem reatividade química suficiente para interagir de forma ainda mais específica e, junto com átomos isolados, formam as células e sua dinâmica. Algumas células, se agrupando, organizando, especializando, concebem formas de existência ainda mais complexas, os organismos multicelulares. Esses organismos compõem as espécies dos reinos animal, vegetal e fungii. No reino animal, algumas espécies se organizam em grupos, formando sociedades. Dessas espécies comunitárias, algumas poucas possuem cultura (um conceito biológico dela). E dessas, nenhuma cultura é mais complexa e permitiu [na evolução] maior sobrevida, de uma geração para outra, como a da espécie humana. É tão complexa que engloba as outras espécies. Dá-lhes uma função nessa comunidade e aumenta a sobrevida de todos ainda mais (ok, eu sei que esse fato é discutível quanto ao grau benefício que as outras espécies recebem, mas foquemos na interação e na maior sobrevida que as espécies interagentes tem). Nessa produção cultural sistematizou-se o método científico, entre os tantos outros, produzindo conhecimento, tecnologia, arte, e tudo que influencia nosso comportamento e que não é de origem genética – nem epigenética.

Diversas comunidades humanas se formaram ao longo da história e… de suas interações, sejam harmoniosas como alianças comerciais ou hostis como guerras e dominações, a globalização e as “mesclas” culturais se fizeram – e continuam se fazendo.

Aplicativo interessantíssimo com todas as escalas que o homem já conseguiu explorar empírica ou teoricamente (clique para ir ao aplicativo)


Essas ideias e fatos mostram duas máximas: 1 – (quase) tudo é formado da interação de partes menores (ao menos nosso conhecimento de mundo se montou assim) e 2 – as propriedades daquilo que se forma através da interação possui uma natureza diferente das possuidas pelas partes isoladas. Talvez seja por isso que dizem que a força está na união. Só através dela podemos atingir algo que é maior que nós mesmos, talvez maior até mesmo em natureza.

Pensando sobre essa interação, há um tempo atrás fiquei me perguntando se nós, organismos vivos, não formaríamos um organismo ou modo de existência maior, em nossa interação. Ou seja, se, de alguma forma, somos células de um organismo chamado humanidade (ou sociedade). Depois que comecei a pensar nisso, jamais consegui imaginar uma sociedade de modo diferente. Inicialmente, pensei na sociedade como um reflexo de nossa própria biologia, com setores como agropecuária, política, sistemas de energia, educação, economia etc, sendo análogos a processos biológicos que ocorrem em nossas células. Mas vi que, na hipótese de a sociedade ser um organismo, este poderia possuir propriedades/natureza diferentes das que nós ou nossas células possuímos. No fim, não se pode definir muita coisa, mas é interessante notar que esse conceito de “sociedade viva” já foi imaginado em livros  de ficção científica (i.e., Isaac Asimov).

Contudo, organismo ou não, há algumas considerações sobre o desenvolvimento histórico (e por que não evolução) da humanidade que podemos fazer.

Primeiro, o desenvolvimento cultural e tecnológico da sociedade adquiriu uma dinâmica tal que não se pode mais desmontá-la por força humana (ok, pode-se destruir com bombas atômicas, mas me refiro ao se parar esse processo interativo). É impossível isolar as particulas humanas da sociedade e voltar ao primitivismo. Nem é desejo do ser humano fazê-lo, nem este conseguiria sobreviver se o fizesse. Já não tem mais a estrutura biológica para agir como nos primórdios de sua definição como espécie. Ou seja, a interação social e modo de vida em grupo, que começaram como uma grande vantagem para a sobrevivência e procriação, aprisionou o ser humano em sua dinâmica social. Em outras palavras, já não se pode mais abandonar o barco!

Segundo, o rumo pelo o qual estamos caminhando é incerto. A diversidade cultural e política nas sociedades é tal que é bem comum vermos grandes ações que resultam em mais danos do que benefícios à sociedade,  mas que, no curto prazo, beneficia um pequeno grupo. Conseguiria citar aqui um sem número de eventos assim, mas prefiro mostrar o clipe da música Harakiri, de Serj Tankian (System of a Down). A questão é, essas ações não são pensadas sistemicamente. Elas são inconsequentes em uma escala global ou em um prazo que o ser humano não considera (geralmente, aquelas que extrapolam o tempo de uma vida). Na possibilidade de a humanidade (ou as sociedades) compor uma dinâmica que possui vida, esta precisaria ser mais complexa e mais harmonica. Ou, no máximo, comporíamos “protossociedades simples”, mas nunca uma “eussociedade complexa”.

Outra questão a que esse ponto pode levar é a insustentabilidade das ações humanas, para a própria sociedade. Ali em cima eu disse que não podemos desfazer a sociedade. Bom, além da excessão da bomba atômica, há a possibilidade de a humanidade quebrar de vez os ciclos naturais do qual depende biologicamente, e inviabilizar sua própria vida. Aí, nem protossociedade haverá. Essa possibilidade pode ser resumida a: não vendo a cascata à frente, alguns troladores empurraram o barco correnteza abaixo. Agora, não se pode nem ver o caminho nem sair do barco.

No fim das contas, precisamos fazer com que nossas interações sejam tão harmônicas quanto as das nossas células, e as das moléculas que as compõem.

Desculpem-me por não apresentar nada sob nosso costumeiro pragmatismo científico. Nem sempre uma pergunta é respondida com um teste empírico de hipóteses.

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Sobre Cesar A O Coelho

Bacharel em Biologia pela UNESP, Botucatu (a gloriosa!), e mestrando em Psicobiologia pela UNIFESP, São Paulo. Apaixonado por neurociências desde o colégio, venceu sua aversão à maior cidade do Brasil para trilhar seu sonhado caminho. Iniciado nas neurociências com o estudo do comportamento animal, hoje estuda memória emocional e sistemas de memória. Sonha em investigar seu objeto de estudo com a maior quantidade de perspectivas possível, cercá-lo por todos os lados. E tenta se cercar dessas ferramentas (perspectivas) ou pessoas que as possuem. “Doido”, como é chamado pelos amigos, é portador de expressões…peculiares (p****ta véio!), muita empolgação e uma mania de tentar ver tudo em seu significado mais abragente (é até chato às vezes). De um jogo de RPG a uma balada, de uma dança de forró a uma discussão científica, de uma reunião científica a uma manifestação política, admira a reunião de pessoas em prol de um mesmo objetivo.

2 respostas em “A sociedade poderia ser vista como organismo vivo?

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