Vai querer o que, playboy? – Novas drogas no mercado (Parte 1)

Quando comecei a graduação não sabia direito o que iria fazer na minha carreira científica, só tinha uma certeza, gostava de drogas (por favor, leia-se gostava de estudar drogas – minha mãe acompanha esse blog). Sempre me fascinou como um comprimido, uma planta ou um pó podiam alterar tudo aquilo que uma pessoa define por percepção. Da onde vinham essas alucinações? Que áreas cerebrais eram ativadas? Por que uma pessoa usa drogas apesar de ter consciência de seus malefícios? Todas essas perguntas ecoavam na minha cabeça.

Há mais ou menos 4 anos atrás tive meu primeiro contato com o mundo da neurobiologia do abuso de drogas quando assisti a apresentação dos resultados do pós-doutorado realizado pela  minha futura orientadora. Meses depois, dei início a minha iniciação científica e comecei a vivenciar a pesquisa com drogas. Aprendi que não se deve olhar para o problema de drogas apenas na situação biológica, mas também em todo contexto que envolve o indivíduo em questão. Assim, o que antes era interesse virou paixão.

Outra matéria importante foi a iniciação à docência. Nessa matéria eu era responsável pela montagem e apresentação de uma aula para outro curso de graduação sob a supervisão de um professor responsável. Assim comecei a apresentar aulas sobre diferentes assuntos, um deles, as drogas. Falava sobre cocaína, álcool, maconha, LSD entre outras e em virtude disso tive que me manter atualizado sobre as novas descobertas e pesquisas que surgiam nesse campo.

A partir daí comecei a perceber que independente do local e do público (salas de aula, congressos ou na mídia) eram sempre as mesmas drogas discutidas. Por um lado, a abordagem dessas drogas “clássicas” é compreensível, pois a quantidade de estudos sobre elas já nos permite falar com certa propriedade e segurança, mas será que hoje em dia, com os avanços na bioquímica e a facilidade de se criar “laboratórios caseiros”, novas drogas já não foram criadas e já estão no mercado? Senti a necessidade de uma atualização sobre esse assunto.

Sendo assim, iniciarei uma série de posts para que vocês, leitores do Prisma, se atualizem junto comigo sobre o que está começando a surgir no mercado. É necessário pontuar que por questões socioeconômicas e culturais nem todas as drogas que virei a abordar poderão um dia chegar aos mercados brasileiros, no entanto isso não impede que ampliemos nosso conhecimento.

Os baratos legais

Legal highs – barato legal – assim são chamadas as novas drogas que vem tomando conta dos mercados europeus e norte-americanos nos últimos anos.

Mas por que essas drogas são legais? Bom, graças à facilidade de manipulação de compostos químicos, análogos a compostos ilegais (e alguns legais) são rapidamente sintetizados e “jogados” no mercado, na maioria das vezes com nomes diferentes de seus predecessores. As instituições responsáveis pelo controle de substâncias não conseguem acompanhar a taxa de produção dessas novas drogas, e dessa maneira os “produtores” conseguem burlar as leis de proibição de drogas, e essas novas substâncias são vendidas e consumidas legalmente.

Outra questão relevante nesse assunto (e muito importante quando se trata de dependência de drogas) consiste na desvirtualização de um composto do seu contexto cultural inicial para um associado ao consumo recreativo, fenômeno corriqueiro na sociedade que vivemos. Exemplificando: a Ayahuasca é uma bebida feita a partir de duas plantas amazônicas e que apresenta um efeito alucinógeno. Ela é usada em rituais religiosos indígenas e em religiões como o Santo Daime, e dentro desse contexto específico, seu uso é permitido por lei. O fenômeno que ocorreu (e ocorre) foi o uso da Ayahuasca num contexto diferente, visando seus efeitos para fins recreativos. Novamente, os usuários se aproveitam das brechas na lei que protegem o indivíduo dentro do contexto inicial para fazer uso de plantas com efeitos psicoativos sem sofrer as sanções legais previstas.

Apesar de tudo isso as instituições internacionais e brasileiras de controle de substâncias não estão inertes. Em julho desse ano, a ANVISA emitiu uma nova resolução na qual inclui algumas das legal highs no grupo de substâncias proibidas.

Desde que foi criado em 2007 até o ano de 2010, o Sistema de Alerta e Resposta Prévio da União Europeia – Early Warning and Response System – já identificou 91 novas substâncias psicotrópicas que podem ser divididas em naturais (plantas) ou sintéticas (compostos criados em laboratórios). Tomando por base as drogas “clássicas” podemos dividir as novas drogas em 4 grupos: similares a anfetamina, similares a opiáceos (heroína), canabinóides sintéticos (compostos análogos ao THC – princípio ativo da maconha) e alucinógenos.

A principal forma de venda dessas drogas é através de head shops e pela Internet. A venda on-line representa um dos principais empecilhos enfrentados pelas autoridades, pois a Internet garante a anonimidade do usuário dificultando a identificação de padrões de uso, necessários na definição de políticas públicas. Para tentar solucionar esse problema, alguns programas como o Reitox, CEWG e ToxIC  foram criados e já estão em vigência.

Nos próximos posts iremos falar sobre substâncias como a Salvia divinorum, sais de banho, Spice e krokodil.

Aguardem!

Referências

Rosenbaum CD, Carreiro SP, Babu KM (2012) Here Today, Gone Tomorrow… and Back Again? A Review of Herbal Marijuana Alternatives (K2, Spice), Synthetic Cathiones (Bath Salts), Kratom, Salvia divinorum, Methoxetamine, and Piperazines J. Med. Toxicol. 8:15-32

Kapka-Skrzypczak L, Kulpa P, Sawicki K, Cyranka M, Wojtyła A, Kruszewki M (2011) Legal highs – legal aspects and legislative solutions Ann. Agric. Environ. Med. 18(2):304-9

Carrol FI, Lewin HA, Mascarella SW, Seltzman HH, Reddy PA (2012) Designer Drugs: a Medicinal Chemistry Perspective Ann. N. Y. Acad. Sci. 1248:18-38

Hughes B, Winstock AR (2012) Controlling new drugs under marketing regulations Addiction doi 10.1111/j.1360-0443.2011.03620.x.

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6 respostas em “Vai querer o que, playboy? – Novas drogas no mercado (Parte 1)

    • Sais de banho é um negócio pesado, alguns meses atrás saiu umas notícias de casos bem bizarros que envolviam essas drogas. Devo falar deles no próximo post =)

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