Álcool: consumir ou não, eis os seus efeitos (parte 1)

 Desde o início da minha carreira acadêmica tenho um interesse no estudo da neurobiologia associada à adaptações comportamentais decorrentes da exposição crônica às drogas de abuso, mais especificadamente ao álcool. Gostaria de dividir aqui um pouco dos aspectos gerais relacionados aos efeitos e à dependência de álcool. Seu uso abusivo é um problema médico e social tão antigo quanto a história da civilização humana. Existe uma passagem notória da Bíblia que se refere ao semita Noé: “Noé, que era agricultor, plantou uma vinha. Tendo bebido vinho, embriagou-se, e apareceu nu no meio de sua tenda” (Bíblia Sagrada, Gênesis, capítulo 9, versículos 20-21). É provável que as primeiras doses de álcool consumidas pelo ser humano tenham sido provenientes de fermentações acidentais. A representação do uso de álcool foi corporificada por Dionísio, Deus do êxtase e do entusiasmo, sendo o seu uso abusivo uma prática muito comum naquela época. É inevitável, portanto, perceber que a espécie humana sempre buscou maneiras de alterar a própria consciência (Huxley, 1954).

Atualmente, o álcool é uma das substâncias mais consumidas no mundo. O impacto global de doenças relacionadas ao álcool é imenso, cerca de 3 a 8 % de todas as mortes relatadas são atribuídas de alguma maneira ao seu consumo (Rehm et al., 2009). Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS), em sua publicação sobre o status global de uso de álcool, relatou que o consumo excessivo de bebidas alcoólicas é a terceira mais importante causa para o desenvolvimento de doenças, levando aproximadamente 2,5 milhões de pessoas a óbito todos os anos (Global Status Report on Alcohol and Health, 2011). Segundo este relato, os brasileiros bebem em média cerca de 7,50 a 9,99 L de álcool puro per capita por ano. 

II Levantamento Domiciliar – CEBRID, 2005

De acordo com o II Levantamento Domiciliar sobre o uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, realizado em 2005 pelo CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), aproximadamente 75 % da população brasileira já experimentou bebidas alcoólicas pelo menos uma vez na vida e 12,3 % da população pode ser considerada dependente desta droga (Carlini, 2006). A dependência de álcool e outras drogas é caracterizada por um conjunto de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos. Indivíduos dependentes fazem o uso repetido e compulsivo da droga mesmo quando sofrem efeitos adversos negativos decorrentes do uso dela (CID-10, 2012).

Há muito tempo a sociedade conhece os efeitos comportamentais do álcool. Os gregos aconselhavam: “Para as pessoas sensatas, preparo apenas três crateras: uma de saúde, que elas tomam antes; a segunda, de amor e de prazer; a terceira, de sono. Depois de terem esvaziado essa terceira, aqueles que se chamam sábios vão deitar-se. A quarta, eu a ignoro; pertence à insolência. A quinta é repleta de gritos; a sexta transborda de maldades e zombarias; a sétima tem os olhos inchados; a oitava é o meirinho; a nona, a bile; a décima é a loucura” (Passagem da comédia grega de Êubolo (século IV a.C.), intitulada Dionísio ou Semele). O etanol apresenta um efeito agudo bifásico dose-dependente: enquanto baixas doses causam euforia e agitação, indicando seu efeito estimulante, doses elevadas induzem efeitos predominantemente depressores (Pohorecky, 1977).

Farmacologicamente, é bem estabelecido que o etanol possua ação estimulante sobre o sistema gabaérgico (sistema responsável pela inibição da atividade cerebral), induzindo a abertura dos canais GABA através de uma ligação alostérica e potencializando assim, a entrada de íons cloreto (Mihic et al., 1997). O etanol também inibe o sistema glutamatérgico (principal sistema excitatório cerebral) por bloquear os canais do subtipo NMDA (Lovinger et al., 1989), que tem um papel importante nos processos de dependência, abstinência, “fissura” e recaída do uso de álcool (Krystal et al., 2003; Trujillo e Akil, 1995). No entanto, apesar desses efeitos farmacológicos, eu sempre digo que o álcool é umas das drogas de abuso mais promíscuas que existe pois pode atingir diversos sistemas de neurotransmissão (Eckardt et al., 1998). Isso provavelmente se deve ao fato do etanol ser uma molécula pequena e polar, e por isso, atravessar facilmente as membranas celulares podendo, inclusive, afetar várias moléculas intracelulares. Todo o efeito farmacológico vai induzir efeitos fisiológicos subjacentes às características genéticas de cada indivíduo. Dependendo de quais subtipos de receptores que cada um expressa os efeitos do álcool podem pender para um ou outro lado.

Vale pontuar também que os efeitos do álcool são muito dependentes do ambiente em que um indivíduo está inserido. Em um bar ou “balada” (“night“ ou “boate”) os efeitos excitatórios do álcool são bem fortes. É fácil perceber que o consumidor fica mais amigável, sociável e eufórico. No entanto, caso um cientista resolva estudar os efeitos dessa mesma dose de álcool no indivíduo em um hospital, é muito provável que o sujeito durma, mesmo recebendo a mesma dose de álcool que, corriqueiramente, causou estimulação na festa. Portanto, o ambiente também é um fator primordial que afeta diretamente os efeitos fisiológicos do álcool e outras drogas de abuso.

O conjunto de efeitos prazerosos e reforçadores pode aumentar a vulnerabilidade ao desenvolvimento da dependência. Por ser o ator principal da minha pesquisa científica, o álcool será o tema de uma série de posts escritos por mim. O que mais você gostaria de saber a respeito do uso, abuso e desenvolvimento da dependência dessa droga? 

REFERÊNCIAS:

cas.org [homepage na internet]. American Chemical Society, Inc.; citado dia 13 de fevereiro de 2012]. Disponível em:http://www.cas.org/

Global status report on alcohol and health. Switzerland: WHO 2011.

Huxley AL. As Portas da Percepção. Editora Globo S.A. São Paulo. 1954.

Rehm J, Mathers C, Popova S, Thavorncharoensap M, Teerawattananon Y, Patra J. Global burden of disease and injury and economic cost attributable to alcohol use and alcohol-use disorders. Lancet. 2009; 373 (9682): 2223-33.

Carlini E. II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil – 2005. São Paulo: Páginas & Letras Editora e Gráfica Ltda, 2006.

Pohorecky LA. Biphasic Action of Ethanol. Biobehavioral Reviews. 977; 1: 231-40.

Mihic SJ, Ye Q, Wick MJ, Koltchine VV, Krasowski MD, Finn SE, Mascia MP, Valenzuela CF, Hanson KK, Greenblatt EP, Harris RA, Harrison NL. Sites of alcohol and volatile anaesthetic action on GABA(A) and glycine receptors. Nature. 1997; 389 (6649): 385-9.

Lovinger DM, White G, Weight FF. Ethanol inhibits NMDA-activated ion current in hippocampal neurons. Science. 1989; 243 (4899): 1721-4.

Krystal JH, Petrakis IL, Mason G, Trevisan L, D’souza DC. N-methyl-D-aspartate glutamate receptors and alcoholism: reward, dependence, treatment, and vulnerability. Pharmacol Ther. 2003; 99 (1): 79-94.

Trujillo KA, Akil H. Excitatory amino acids and drugs of abuse: a role for N-methyl-D-aspartate receptors in drug tolerance, sensitization and physical dependence. Drug Alcohol Depend. 1995; 38 (2): 139-54.

Eckardt MJ, File SE, Gessa GL, Grant KA, Guerri C, Hoffman PL, Kalant H, Koob GF, Li TK, Tabakoff B. Effects of moderate alcohol consumption on the central nervous system. Alcohol Clin Exp Res. 1998; 22 (5): 998-1040.

Anúncios

7 respostas em “Álcool: consumir ou não, eis os seus efeitos (parte 1)

  1. Pingback: Ciência de Mesa de bar (1) | Prisma Científico

  2. Pingback: Álcool: consumir ou não, eis os seus efeitos (parte 1) | Ano Sobriático

  3. Pingback: Álcool: dificuldade em parar, problema de memória a vista! (parte 3) | Prisma Científico

  4. Karina, me bateu uma dúvida agora. Segundo o relato de 2011, os brasileiros bebem algo entre 7,50 a 9,99 L de álcool puro por ano. Como isso é mensurado? É por venda absoluta de garrafas e latas de bebidas alcoólicas ou por declarações de voluntários? Tenho a impressão de que se for por declarações de voluntários, esse número é subestimado, pois após a “quinta cratera”, as pessoas não tem mais noção do quanto bebem de fato.

    • Oi Bruno, desculpa a demora na minha resposta, mas antes tarde do que nunca.
      A Organização Mundial da Saúde tem um banco de dados internacional (“World Bank income). Você pode ver uma lista dos territórios no Apendice IV da referência Global status report on alcohol and health, Switzerland: WHO 2011. Além disso, esse relatório também apresenta alguns dados de consumo não relatado (pág 5). NO geral o consumo é relatado pelo próprio país baseado da venda e compra de produtos alcoólicos uma vez que esses produtos tem taxas governamentais especiais. O consumo não relatado tem muito a ver com a comercialização de álcool que não é taxada pelo governo ou o consumo de álcool feito em casa. Eu acredito que o consumo real deva ser maior do que o relatado no relatório, mas acho que esse relatório traz informações importantíssimas.
      .
      Você pode encontrar muitas informações no banco de dados da OMS: http://apps.who.int/ghodata/?theme=GISAH

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s