Google Generation

Em meados da década de 90, me lembro de inúmeras situações que perguntava à minha mãe: Mãe, o que significa tal palavra? E a resposta que sempre obtinha era: O dicionário tá na estante.

Após um dilema entre a preguiça e curiosidade, sempre ia atrás do bom e velho dicionário para buscar o significado da palavra.

Agora, muitos provavelmente vão se recordar das famosas enciclopédias que guardavam várias informações sobre os mais diversos assuntos e que muitas vezes ocupavam lugar de destaque nas prateleiras na sala de inúmeras casas. Porém, mesmo sendo presente em muitas residências, estas coleções eram caras e nem todas as pessoas tinham acesso a tal fonte de informação. Consequentemente, essas enciclopédias muitas vezes ficavam ali como símbolo de status social, não só pelo valor financeiro, mas também pelo seu valor intelectual.

Hoje em dia, dificilmente recorremos a essas duas fontes de conhecimento, pelo menos em sua forma física, afinal, a internet nos traz todas essas e mais infinitas fontes de informação conectadas e muito mais comodamente.

Mas a questão é: E toda esta inundação de informação, o que fazemos com ela? Como processamos tudo isso?

Em um artigo publicado no ano passado na Science sobre os “efeitos do Google na memória”, ou melhor, os efeitos da Internet sobre a memória, os autores observaram que as pessoas tendem a confiar em fontes externas do armazenamento de informações, como a Internet. Por exemplo, as pessoas tendiam a esquecer informações que elas acreditavam estar disponíveis externamente no futuro (como nos históricos de busca do Google), assim como tendiam a lembrar mais de informações que acreditavam não estar disponíveis externamente. Basicamente, estaríamos entrando em um processo de simbiose com nossos computadores, no qual o computador seria parte de nossa memória, deixando nosso cérebro mais “livre” para outras memórias ou atividades.

Por outro lado, Nicholas Carr destaca no texto “Is Google making us stupid?” que nossa forma de leitura se modificou nos últimos tempos por conta da internet.

Reflita: no seu dia a dia, existe maior chance de você assistir um vídeo no Youtube de 4 ou 40 minutos? Ou então, ler um paper de 6 páginas ou 20?

Claro que isto depende diretamente do seu interesse pelo tema, mas de maneira geral, escolhemos pelas opções mais rápidas. Consequentemente, nossos cérebros se habituaram a receber informações desta forma (curta, direta e simplificada), o que estaria de diminuindo a capacidade de concentração e pensamento dos indivíduos.

Além disso, Maryanne Wolf, citada por Carr, argumenta que nossa habilidade de interpretação dos textos, de formar conexões mentais quando lemos profundamente e sem distrações, permanece amplamente desconectada quando lemos online, o que nos torna meros decodificadores de textos.

“Once I was a scuba diver in the sea of words. Now I zip along the surface like a guy on a Jet Ski.”   Nicholas Carr

Enfim, essa Google generation, da qual também faço parte, vem colhendo os frutos e as mazelas de uma mudança na maneira como acessamos e recebemos as informações. Em muitas situações, facilitando nossas vidas, porém, se não nos atentarmos para algumas das possíveis consequências, podemos acabar engolidos por nossa própria criação.

Referências:

Sparrow, B. et al. (2011) Google Effects on Memory: Cognitive Consequences of Information at Our Fingertips. Science 333, 776-778.

Carr, N. (2008) Is Google Making us Stupid? Yearbook of the National Society for the Study of Education, 107(2), 89–94.

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2 respostas em “Google Generation

  1. Eu fico bem preocupada com isso, a medida que eu acho que a qualidade baixou muito por causa da dificuldade de concentração em um assunto só. Por exemplo, eu estou aqui depois que eu li as informações e eu parei 3 vezes pra ver outras coisas por mais que o assunto seja interessante. (!!!!!)

    • Realmente, também me pego várias vezes fazendo isso…Raramente tenho menos de 4 abas abertas no navegador…Hahha

      Por isso é sempre bom refletirmos sobre nossas ações!

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