Um arco-íris nos teus olhos? Um pouco sobre dilatação da pupila e orientação sexual

A sexualidade tem grande importância na vida das pessoas, não apenas por uma questão reprodutiva, mas também por envolver a busca pelo prazer, a formação da identidade e mesmo a representação social deste indivíduo e a sua identificação e imersão em determinados grupos. Indo além do produto de ordenanças genéticas, a sexualidade é algo que se constrói durante a vida. O Sexo é algo majoritariamente biológico, indica um conjunto de características anatômicas e funcionais relacionadas a ele, já a sexualidade e a orientação sexual podem ser consideradas uma forma de expressão cultural (quem já criou algum questionário de pesquisa provavelmente já ouviu aquela velha frase “sexo é diferente de gênero”).

O comportamento sexual é algo interessante, que incita na maioria das pessoas curiosidade, algumas relacionadas a tabus e preconceitos, outras a desejos… E o estudo da sexualidade, multifacetada como é, não poderia se dar apenas por uma disciplina e praticamente nunca passa despercebido pelos olhares curiosos.

Tendo em vista este alcance, é normal o alvoroço causado por notícias relacionadas a esse tema. O jornalismo – mesmo o científico – tende a dar foco a qualquer produção que toque neste assunto e que possa causar certa polêmica, fazendo assim com que as notícias corram de compartilhamento a compartilhamento. Os resultados de um estudo que foi publicado há pouco tempo atrás são um exemplo disso. As notícias afirmavam que tais resultados indicavam ser possível a partir da dilatação da pupila das pessoas descobrir qual a sua orientação sexual. Mas façamos uma análise antes de sairmos compartilhando indiscriminadamente esta ideia.

Um pouco sobre comportamento sexual…

Estudos científicos sobre a sexualidade já estabeleceram aquilo que qualquer livro de auto-ajuda adora propagar: Mulheres são de Vênus e homens são de Marte (1, 2). Tudo bem que não de forma absurda, mas realmente a gama de diferenças da relação entre homens e mulheres e suas sexualidades é extensa. Por exemplo, aquela ideia comum de que os homens são quase totalmente afetados por informações eróticas nos estímulos sexuais, enquanto mulheres também se excitam com intensidade por aspectos não-eróticos não é falsa.

A quantidade de pesquisas que busca investigar as diferenças e particularidades dos sexos é enorme, dando margem para estudos que busquem também estabelecer critérios para a compreensão de alguns aspectos da sexualidade, e a orientação sexual talvez seja um dos tópicos que mais suscite questões, e assim muitas áreas do conhecimento tendem a desenhar suas teorias e porquês para obter as respostas, às vezes juntas, às vezes tentando se sobrepor às outras. E é aí que entram estudos onde há a confusão entre excitação e orientação sexual. Todavia, a existência da confusão – ou uma simplificação da definição – não necessariamente indica que não seja possível realizar esse tipo de estudo. Existem diversos trabalhos sobre orientação sexual e excitação – normalmente usando dados de excitação genital – que são bem interessantes e trazem alguns dados consistentes e outros nem tão consistentes assim (3).

Mas dilatação da pupila? Sério mesmo?

A dilatação da pupila é forma objetiva e reconhecida de alcançar alguns parâmetros biológicos para alguns aspectos subjetivos dos indivíduos (4, 5). Quando pensamos nos estudos com excitação genital, um dos problemas mais comuns é que estes, além de causar certo constrangimento (por exemplo, alguns participantes desistem de se voluntariar nos experimentos quando percebem o que será medido e como essa mensuração será feita…) e viés (o grupo que aceita participar, pode em si ser enviesado) com as mulheres os dados não costumam ser muito claros. Explicando, homens heterossexuais tendem a se excitar apenas com estímulos de mulheres, homens homossexuais, apenas com homens, mas com as mulheres algo diferente ocorre, não importando sua orientação (obtida por auto-relato), seus dados são mais flutuantes, a excitação pode acontecer com estímulos femininos e masculinos, parece que ou a sensualidade para as mulheres é algo mais complexo ou as medidas de excitação genital feminina não são muito confiáveis.

A dilatação da pupila é tão somente uma tentativa de homogeneizar uma medida para homens e mulheres. E tem sentido? A dilatação da pupila indica uma ativação do Sistema Nervoso Autônomo e está relacionada com estudos que trabalham com automatismos, como reação implícita ou esforço cognitivo (6). A pupila já se mostrou eficiente para medir diversos fatores de excitação.

Até a ideia de que existe uma relação entre a excitação encontrada com a ajuda de dados pupilométricos e a orientação sexual não é nova: Entre os anos de 1950 e 1970 o governo do Canadá usou respostas pupilares como medida objetiva de orientação sexual, apesar da metodologia empregada neste caso ter sido contestável e as motivações da pesquisa ainda mais, pois tinha o objetivo escuso de detectar indivíduos homossexuais a fim de privá-los de alguns direitos humanos, pois eram considerados pelo governo como um risco nacional.

As notícias e manchetes espalhafatosas tem o intuito de chamar a atenção das pessoas e garantir visitas para os sites, isso nós sabemos. Mas cabe a nós, leitores, irmos procurar a fundo o que de verdade pode ser tirado destes trabalhos a partir de uma análise criteriosa antes da mera divulgação e reprodução. Com tudo que foi dito aqui, pensemos, será mesmo que é possível indicar a orientação sexual de uma pessoa apenas a partir de alguns dados biológicos?

Acredito que ainda não. Principalmente, por entender que excitação e orientação sexual são duas coisas diferentes, como foi dito no início do texto. Esse estudo tão difundido pelas redes sociais pode ser um primeiro passo para a formação de algumas boas teorias sobre a sexualidade geral e a orientação sexual, mas está longe de ser algo definitivo. Enquanto o bruto da sexualidade é o quinhão que pode ser apreendido destes dados, a sexualidade em si parece ir muito além.

Referências:

1 – Baumeister, R. (2000). Gender differences in erotic plasticity: The female sex drive as socially flexible and responsive. Psychological Bulletin, Vol 126(3), 347-374.

2 – Peplau LA (2003) Human sexuality: How do men and women differ? Current Directions in Psychological Science, 12, 37-40.

3 – Chivers ML; Rieger G; Latty EM; & Bailey JM (2004) A sex difference in the specificity of sexual arousal. Psychological Science, 15, 736–744.

4 – Hess EH; Seltzer AL; & Shlien JM (1965) Pupil response of hetero- and homosexual males to pictures of men and women: A pilot study. Journal of Abnormal Psychology, 70, 165–168.

5 – Bradley MM; Miccoli L; Escrig MA; & Lang PJ (2008) The pupil as a measure of emotional arousal and autonomic activation. Psychophysiology, 45, 602–607.

6 – Beatty J; & Lucero-Wagoner, B (2000) The pupillary system. In: Cacioppo JT, Tassinary LG, Berntson GG (Ed.). Handbook of psychophysiology (2nd ed). New York: Cambridge University Press, pp. 142–162.

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2 respostas em “Um arco-íris nos teus olhos? Um pouco sobre dilatação da pupila e orientação sexual

  1. Muito bom Marcus!
    Faltou mencionar que em homens a excitação psicológica e genital estão fortemente associados, enquanto em mulheres a excitação genital é um tanto inespecífica (respondendo inclusive a estímulos de primatas fazendo sexo) embora a psicológica seja mais seletiva. E também os relacionando homossexualidade e homofobia que causaram bastante polêmica (tipo este http://psycnet.apa.org/journals/psp/102/4/815/).

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