Além do behaviorismo – Parte 2

Caso não tenha lido, leia a primeira parte aqui. Veremos agora duas outras descobertas que batem de frente ao behaviorismo radical proposto por Skinner.

Neurônios Espelho

Na década de 70, dois cientistas endossaram a teoria do mapa espacial criada por Tolman. John O’Keefe e Lynn Nadel mostraram que alguns neurônios respondiam (exibiam alta taxa de disparo) a lugares específicos no espaço. Esses neurônios, localizados no hipocampo receberam o nome de “Place Cells”.

As Place Cells disparam em lugares específicos de um ambiente, como por exemplo um labirinto. Se temos um ambiente, somente algumas células disparam quando o animal está próximo do Norte; outras disparam quando o animal está próximo do Sul. Dessa maneira, uma mapa cognitivo é formada de acordo com as taxas de disparos de determinados neurônios em determinadas regiões. Observem o vídeo abaixo (cada “POP” representa um disparo neuronal):

Cada neurônio faz uma representação de um “pedaço” do ambiente. E isso pode ocorrer sem que haja necessariamente uma aprendizagem do tipo S-R-C. Ponto para Tolman.

Saindo da área do mapas espaciais, um experimento clássico que sempre me intrigou na psicologia é o de Bandura.

Segundo o behaviorismo radical, uma recompensa ou reforço é necessário para modular um comportamento. Como descrito no vídeo, as crianças demostravam comportamento semelhante à jovem quando expostas ao João Bobo, mesmo sem recompensas ou consequências.

Na década de 90, cientistas italianos identificaram um outro grupo de neurônios que estavam ativos tanto quando um ato motor era executado ou quando um ato motor era observado. Esses neurônios podem “imitar” o comportamento motor de outra pessoa, e receberam o nome de Neurônios Espelho (“Mirror Neurons”). Após a observação, os mesmos neurônios poderiam emular a ação. Dessa maneira, uma habilidade motora pode ser aprendida pela observação de outra pessoa executando uma ação motora. Sem que haja obrigatoriamente uma recompensa ou um reforço! Existe uma teoria de que os neurônios espelhos sejam os principais responsáveis pela sociedade como ela é hoje e de que são os grandes responsáveis pela empatia humana. Veja esse vídeo do TED e entenda.

Antes de mais nada, eu não sou contra o Skinner. Tenho grande respeito por ele. Sou contra ser apegado a uma ideia de tal forma que o impeça de ver uma refratação diferente.

Críticas, comentários ou sugestões, deixem nos comentários!

Referências:

O’Keefe, John, Nadel, Lynn (1978). The Hippocampus as a Cognitive Map. Oxford University Press.

Giacomo Rizzolatti et al. (1996) Premotor cortex and the recognition of motor actions, Cognitive Brain Research 3 131-141

Rizzolatti G, Fabbri-Destro M (2010). “Mirror neurons: from discovery to autism”. Exp Brain Res 200 (3–4): 223–37.

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4 respostas em “Além do behaviorismo – Parte 2

  1. Bruno,

    “Cada neurônio faz uma representação de um ‘pedaço’ do ambiente. E isso pode ocorrer sem que haja necessariamente uma aprendizagem do tipo S-R-C. Ponto para Tolman.”

    Eu prefiro pensar, e Bennett e Hacker (2003) concordariam, que cada neurônio RESPONDE a certos “pedaços” do ambiente. Mapas geográficos e palavras representam lugares e coisas, e são sistemas socialmente construídos. Neurônios, como diversas células do corpo, têm sua estrutura modificada (resposta) à medida que entram em contato com certos estímulos, e isto não é, a rigor, representar alguma coisa.

    Bom, de fato diversas respostas neurais independem da tríplice contingência, tal como acontece com as células dos olhos, da língua e do nariz. Contudo, a origem de respostas neurais mais complexas tende a requerer emparelhamentos de estímulos, a partir dos quais podem emergir os condicionamentos clássico e operante.

    “Segundo o behaviorismo radical, uma recompensa ou reforço é necessário para modular um comportamento. Como descrito no vídeo, as crianças demostravam comportamento semelhante à jovem quando expostas ao João Bobo, mesmo sem recompensas ou consequências.”

    Até o momento, sou cético quanto à responsividade funcional dos chamados “neurônios espelho” a estímulos de diferentes classes sem emparelhamento prévio, bem como à necessidade de atribuir a “especialidade espelhar” a esses neurônios. O que eu imagino que acontece é que, uma vez que se estabeleceram certos condicionamentos simples (visão do próprio braço-sensação do próprio braço, p. ex.), imaginar o próprio braço ou visualizar o braço de outrem passa a ser o suficiente para eliciar respostas sensitivas relacionadas ao próprio braço. Quando você ouve alguém dizer “abacaxi” e consegue ver um abacaxi e até sentir seu sabor privadamente, em sua “mente”, você está respondendo automaticamente, sem esforço, e o faz em razão de, no passado, aqueles estímulos terem sido sistematicamente emparelhados (visão de um abacaxi, sabor de um abacaxi e o som da palavra “abacaxi”). Da mesma maneira, como, desde a tenra infância, diversas sensações músculo-esqueléticas foram naturalmente emparelhadas à visão dos movimentos do próprio braço, a simples visualização de um abraço fazendo um movimento será o bastante para fazer com que sintamos esse movimento.

    Como concluí na parte 1, não vejo como esses estudos estão além do — ou ameacem o — behaviorismo radical (embora sejam necessários alguns estudos para comprovar as hipóteses que, com base em minhas impressões e conhecimentos, eu levantei).

    Um abraço!

  2. Essa questão de neurônios espelhos não invalida a análise do comportamento e sim amplia seu potencial de análise, pois, explica a lacuna entre estímulo e resposta. Skinner fala de 3 tipos de comportamento. Os reflexos, os padrões fixos de ação (instintivos) são mais flexíveis e podem entrar em controle operante e, finalmente os operantes! E tem inúmeras páginas explicando o comportamento imitativo, ou, aprendizagem vicariante!

    • Sim, amplia a análise do comportamento, mas quais as bases neurais para isso? Na aprendizagem vicariante, você não precisa de fato executar uma ação para aprender. Onde a teoria operante se encaixa nesse contexto? De novo, não sou contrário ao Skinner, só resolvi colocar um outro ponto de vista, que eu particularmente acho mais fácil explicar as ações e comportamentos, ao invés de tentar explicar tudo por uma abordagem behaviorista.

      • A base neural é estudada pelas neurociências:
        O fisiólogo do futuro nos dirá tudo quanto pode ser conhecido acerca do que está ocorrendo no interior do organismo em ação. Sua descrição constituirá um progresso importante em relação a uma análise comportamental, porque esta é necessariamente “histórica” – quer dizer, está limitada às relações funcionais que revelam lacunas temporais (SKINNER, 1974, p. 183).
        Onde a teoria operante se encaixa nesse contexto? Se o comportamento imitativo não for reforçado ele muito provavelmente não ocorrerá. A manutenção de certos comportamentos se deve a lei do efeito! Lembrando, os operantes possuem uma base neurofisiológica que foi selecionada pela filogenia, ou seja, a lei do efeito foi selecionada. Pelo que percebi vc prefere um recorte de análise estrutural. Eu e outros comportamentais preferimos uma análise funcional.

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