A Ciência pela Arte (1): o álbum “Quanta”

Gilberto Gil em seu Show na UFBA

Em 2006, ano em que entrei na universidade, o cantor Gilberto Gil foi convidado para realizar uma aula-show em um evento organizado pela universidade para os calouros conhecerem melhor a instituição e outros cursos, Gil, além de cantar suas músicas, também contaria um pouco de como foi a sua própria experiência como estudante de graduação na Universidade Federal da Bahia. De lá para cá, esse tipo de convite foi um costume da UFBA, que em sua apresentação para os calouros já contou com nomes como Tom Zé e Morais Moreira, além de outros não tão famosos fora da Bahia.

Gosto muito de Gil, ele é um artista que consegue ser flexível no seu som, indo do funk ao reggae, do samba ao rock. Poucos artistas conseguem manter a qualidade de seu som por tantos anos a fio. E após ouvir suas histórias, deu vontade de ter estudado com ele, por sua participação política na universidade e por descobrir que algumas de suas músicas haviam sido compostas ali mesmo onde eu estava, entre uma aula e outra na Escola de Administração e uma visitinha verde na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.

Mas e o que Gilberto Gil tem a ver com um blog de ciência?

Apesar de estar sempre se relacionando com o misticismo e a religiosidade católica e afro-brasileira, Gil – conseguindo caminhar bem por diversas esferas temáticas para compor suas músicas – resolveu falar de ciência. E assim, em 1997, ele lançou um álbum duplo chamado Quanta, completamente se referindo ao tema principal do blog. Aparentemente, a tentativa de Gil era informar pela música, trazer a ciência – ou pelo menos um pouco do pensamento científico – para além dos cientistas, mas também para aqueles que não o são, o povo em geral. Que belo trabalho de divulgação científica é trazer a ciência pela arte. Se conseguiu fazer com que as pessoas passassem a admirar mais a ciência não sei, mas tentou e muito bem.

Quanta 1997

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Após uma pequena apresentação do álbum e sua proposta, na música homônima a ele e cantada em parceria com Milton Nascimento, Gil faz uma homenagem aos cientistas brasileiros, falando inclusive de César Lattes, nosso quase-Nobel, e hoje, plataforma científica. Finalizando com a frase “Pois merecem muito mais”, algo que qualquer um que trabalha com ciência por aqui irá concordar. Em Quanta é possível encontrar músicas que também não abordam diretamente a ciência, mas sim trazem uma representação de algum ponto do universo, ou da tecnologia, fazendo o que tentamos aqui no Prisma o tempo todo: mostrar como a ciência, além de diversificada, está em todos os lugares. Destas músicas que não abordam diretamente a ciência, temos duas das mais famosas do álbum, Estrela e Pela Internet, a primeira sendo uma das músicas mais românticas e bonitas de Gil, e a segunda, uma paródia do primeiro samba gravado na história (“Pelo Telefone”), mas agora utilizando a internet como tema principal. Você provavelmente conhece as duas e já as ouviu muito.

Shiva rebolando para entregar a dissertação no prazo

Além de sempre abordar a ciência como empreendimento grandioso, em Quanta é trazido sempre um aparente misticismo – presente na maioria dos trabalhos de Gil – mas que se interpretado com cuidado, acaba se tratando de homenagens à ciência em si. O melhor exemplo, acredito estar na canção Dança de Shiva, música que vem após Estrela, que aparentemente falando de um deus hindu, na verdade aborda uma das características mais bonitas do saber científico: a renovação. Shiva é um deus da destruição, mas uma destruição necessária, que permite o ciclo eterno da vida e da morte, logo, que gere a renovação a partir do ruir daquilo que já está cristalizado e extremamente sólido. A “dança de Shiva” para o hinduísmo é uma forma de expressar que a destruição (Shiva) é também bela (em sua dança), sendo um fator fundamental para o crescimento. É nessa destruição bela que reside toda a graça de fazer ciência, de teorias e dogmas que são destruídos a todo momento para que estejamos mais próximos da realidade.

Parece que Gil brinca com a ciência, provoca, sempre trazendo algum teor religioso e crendice para construir o seu álbum, e este nada mais é do que um retrato da realidade, pois essa mistura é feita o tempo todo pelas pessoas, como feita em Opachorô Água Benta, às vezes colocando o cientista como um novo alquimista aos olhos dos que não compreendem bem aquilo que ele faz.

Outras músicas que são notáveis no álbum são Pílula de Alho (falando de medicamento, mas será que também está falando do efeito placebo?), Graça Divina (“Graça divina no dom que a aspirina tem de aspirar a dor”), Guerra Santa (outro lado científico, a crítica ao dogmatismo das religiões) e Pop Wu Wei (falando de física e filosofia de vida).

A ciência em si é talvez a minha favorita do álbum. Linda. Escrita com Arnaldo Antunes e com o trecho “A ciência não se ensina/ A ciência insemina a ciência em si”, que me lembra não só a proposta deste blog, como o de vários parceiros, professores e colegas que possuem a mesma vontade de divulgar conhecimento, porque esse desejo faz parte de ser cientista, faz parte da busca interminável pelo conhecimento, da dança de Shiva.

Quanta talvez nem possa ser considerado um disco conceitual sobre ciência, mas sim um disco conceitual sobre o senso comum da ciência, você escolhe. Ainda assim, é uma obra de arte que apreende a percepção do que é a ciência em si com uma qualidade musical inconfundível, assinada por um grande artista e premiada, pois sua versão ao vivo, chamada Quanta gente veio ver foi premiada com o Grammy de melhor “World Music”. Álbum extremamente recomendado, pois se ciência já é boa, fica ainda melhor em lá menor.

No futuro, pretendo apresentar outras obras artísticas – sejam álbuns, filmes ou livros – que abordem de alguma forma a ciência, mostrando que nosso trabalho que gostamos tanto, está também presente na arte, pois não há motivo algum que justifique a separação destas duas construções tão bonitas.

“(os cientistas brasileiros) merecem muito mais”

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