Álcool: se te faz alegre, por que se preocupar? (parte 2)

O uso de qualquer droga de abuso se inicia com a vontade do indivíduo em buscar uma nova alternativa de prazer ou se sentir melhor: seja pelos efeitos da droga em si, seja para socializar com a grupo a qual pertence. Na verdade a experimentação de qualquer atividade da vida vem carregada da vontade em se buscar algo prazeroso ou que traga saciedade. Quando nos deparamos com algum estímulo aversivo, o nosso cérebro é reprogramado para evitar este estímulo (acontece uma diminuição da liberação de dopamina na circuitaria de recompensa cerebral – gráfico em azul da figura abaixo). Por outro lado, quando nos deparamos com um estímulo prazeroso, nosso cérebro lança um sinal (aumento de dopamina no núcleo accumbens, região cerebral relacionada ao sistema de recompensa e importante para os efeitos das drogas de abuso – gráfico em vermelho da figura abaixo) para que futuras ações levem à busca deste mesmo estímulo. O problema é que o sinal dopaminérgico causado pelas drogas de abuso ocorre muito mais rápido e é muito mais intenso. Isso pode desencadear ações repetidas de uso da droga. O álcool se encaixa perfeitamente neste paradigma (aumenta a liberação de dopamina no accumbens).

Bromberg-Martin et al., 2010

Ninguém fica dependente de uma droga de abuso na primeira vez que a utiliza, nem na segunda. Por muitas e muitas ocasiões nós consumimos álcool para nos sentirmos mais estimulados, para socializar e interagir melhor com as outras pessoas e para nos divertir. Então, pensem: se consumir álcool faz com que as pessoas se sintam bem, qual seria o problema? Bom, o consumo de álcool pode passar de uma atividade prazerosa para uma menos prazerosa, ou até mesmo, passar para uma atividade extremamente necessária para que o indivíduo se sinta simplesmente normal. Existe uma linha tênue entre o que é um consumo controlado e descontrolado de álcool. É importante pontuar que não se controla racionalmente essa passagem. O indivíduo passa a fazer o uso exagerado a despeito de algumas consequências negativas deste ato. Isto desencadeia um aumento da importância do álcool para este indivíduo fazendo com que a vontade e o desejo de consumir a droga sejam incontroláveis. Imaginem-se em um bar com uma fissura para buscar aquela cerveja gelada (tenho certeza que, mesmo aqueles que não preenchem critérios para a dependência de álcool, já sentiram uma vontade incontrolável de buscar uma bebida alcoólica em determinadas ocasiões: quem já? Confesso, eu já!).

Eu tenho outra pergunta para vocês! Por que de todas as pessoas que experimentam e usam bebidas alcoólicas constantemente, somente algumas se tornam dependentes? Já tinham parado para pensar nisso? Pois é, existe uma infinidade de fatores que podem contribuir ou proteger da vulnerabilidade para o desenvolvimento de dependência de drogas. Veja o quadro abaixo retirado de um texto publicado no site do NIAAA (National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism):

O uso e abuso de álcool é um comportamento complexo que ocorre a partir do entrosamento de aspectos genéticos e ambientais.

Diversos são os fatores que contribuem para o desenvolvimento da dependência de álcool. Fatores genéticos, comportamentais (personalidade, desordem de temperamento), ambientais (estresse, disponibilidade da droga), fisiológicos (metabolização, fissura, recompensa, tolerância, abstinência) e fatores relacionados ao desenvolvimento e competência social/emocional, maturação cerebral, puberdade etc. É muito importante ter em mente que nenhum desses fatores constitui sozinho a causa do desenvolvimento da dependência de álcool. No entanto, a somatória de dois ou mais pode tornar o indivíduo mais vulnerável caso ele consuma exageradamente bebidas alcoólicas.

A decisão inicial de beber um drink ou uma cerveja é individual, mas quando a droga passa a ser um estímulo exageradamente importante, o indivíduo perde o auto-controle. Isso acontece porque o consumo prologado de drogas altera a atividade cerebral, ou seja, altera a maneira que o cérebro funciona. A dependência de álcool e outras drogas deve ser vista como uma doença cerebral, assim como o infarto é uma doença do coração. Existem alguns estudos que mostram que, em indivíduos dependentes, ocorre um prejuízo acentuado na atividade de áreas cerebrais relacionadas ao julgamento, tomada de decisão, controle comportamental e de impulsividade, além de prejuízos de memória e aprendizagem. É interessante entender que se o indivíduo dependente de álcool tem dificuldade de aprendizagem (e, provavelmente, de esquecimento também), talvez ele tenha dificuldade de se livrar e desfocar da droga e dos estímulos ambientais associados à ela. Além disso, os dependentes podem ter dificuldade de aprender e de formar novas associações, o que os deixam presos e focados no uso da droga. Vou abordar esse tópico no próximo post. Vamos ver como o álcool afeta a memória e a plasticidade cerebral, ou seja, a capacidade do nosso cérebro de se adaptar a novos ambientes e situações.

REFERÊNCIAS:

http://pubs.niaaa.nih.gov/publications/arh283/133-142.htm

Bromberg-Martin ES, Matsumoto M, Hikosaka O. Dopamine in motivational control: rewarding, aversive, and alerting. Neuron. 2010; 68 (5): 815-34.

http://www.drugabuse.gov/publications/science-addiction

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11 respostas em “Álcool: se te faz alegre, por que se preocupar? (parte 2)

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    • Oi Carol!
      Não conheço nenhum trabalho científico que compare o nível de estimulação dopaminérgica entre álcool e chocolate. Vou pesquisar!
      No entanto, o chocolate pode sim aumentar a dopamina do núcleo accumbens e, por isso, no induz a consumir chocolate repetidamente. =)

    • Oi Carol,
      Pesquisei mais e achei um trabalho bem antigo (L Hernandez, BG Hoebel Food reward and cocaine increase extracellular dopamine in the nucleus accumbens as measured by microdialysis. Life Sci, 42 (1988), pp. 1705–1712). Na realidade a cocaína, por exemplo, aumenta a dopamina muito mais (5x mais) que uma comida rica em calorias que os ratinhos gostam. De qualquer jeito existem ainda muitas discussões a respeito de como o aumento de dopamina induzido por comidas gostosas podem ajudar no desenvolvimento de dependência de comida e da obesidade.

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