Entrevista: Palhaços de Plantão

Conhece os Palhaços de Plantão?

Esse grupo tem como objetivo “levar a arte do palhaço ao ambiente hospitalar”, semelhante ao grupo Doutores da Alegria. Porém, quem realiza as atividades são alunos dos cursos da área de saúde de uma instituição de ensino superior aqui de São Paulo.

Em uma conversa rápida o Mauro Fantini, coordenador do projeto, saberemos um pouco mais sobre o projeto e veremos o que esse grupo tem a ver com ciência.

Prisma Científico: Doutor Mauro, você poderia falar um pouco sobre sua trajetória acadêmia e profissional?
Mauro Fantini: Na parte considerada “séria”, eu sou biomédico, formado pela Universidade Federal de São Paulo e Doutor em Ciências, com foco em Imunolgia, pela mesma instituição. Finalizei o doutorado em 2009. Desde 2008, sou docente do Centro Universitário São Camilo, para os cursos de Biomedicina e Medicina.
Na parte considerada “não tão séria” (mas seríssima), sou palhaço. Palhaço, de verdade. Com nariz, figurino e maquiagem. Não planejei nada disso, nunca tive o desejo ser ator, ou algo parecido. Não sei bem por qual motivo, mas comecei a estudar essa linguagem em 2006. Fiz um curso, gostei. Fiz outro, outro e ainda faço vários cursos de palhaço, não para nunca. Desde 2008 faço parte da ONG Operação Arco-Íris, de palhaços voluntários em hospitais e, desde 2010, coordeno um projeto de extensão no Centro Universitário São Camilo chamado Palhaços de Plantão. O projeto se propõe a treinar os graduandos em cursos da saúde (fisioterapia, nutrição, medicina, biomedicina, etc.) na linguagem do palhaço, para que depois eles a apliquem realizando visitas como palhaços em hospitais.
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PC: Por quê os “Palhaços de Plantão”?
MF: Essa inserção do palhaço no meio acadêmico, especificamente o da área da saúde, já existe em várias universidades do Brasil. Em São Paulo (capital e interior), Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco… muitos grupos como o nosso foram formados recentemente. Isso me parece refletir uma necessidade no meio acadêmico. Uma necessidade de inclusão da arte e da comunicação dentro dos estudos na área da saúde.

Não sei por quê, mas a universidade, de maneira geral, se tornou um ambiente “acultural”. Grupos de teatro, de música, de esporte, todos penam para sobreviver e muitos são extintos por falta de incentivo. Acho estranho que essas atividades sejam vistas como iniciativas “menores” dentro da área da saúde.
Assim, a formação de grupos de palhaços dentro de universidades da área da saúde, como é o caso dos Palhaços de Plantão, significa a busca por um respiro dentro de um ambiente técnico-científico que esqueceu que contar uma boa história ou dar uma gargalhada também é saúde.
 

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PC: Existe alguma referência científica para esse projeto?
MF: Vou responder a essa pergunta por dois pontos de vista diferentes.
Há algumas referências científicas sobre o impacto da ação do palhaço sobre o paciente, ou sobre os profissionais de saúde. A psicóloga Morgana Masetti, que acompanha os Doutores da Alegria há muitos anos, mostra que a equipe do hospital se mostra mais próxima ao paciente após a visita dos palhaços e que os pacientes se tornam mais interativos e solícitos com a equipe de enfermagem (1).
Outro exemplo é um grupo italiano que pesquisou as possíveis alterações fisiológicas causadas pela visita de palhaços em crianças internadas no hospital, devido a patologias respiratórias. As crianças que receberam a visita dos palhaços tiveram menos febre do que aquelas que não receberam. Ainda, tanto do ponto de vista das próprias crianças, como da equipe de enfermagem, os pacientes que interagiram com os palhaços apresentavam mais bom humor, do que os que não interagiram (2).
Agora, quando se fala do impacto do contato com a arte do palhaço para o aluno da área da saúde, há poucos dados científicos. Há percepções subjetivas de mudanças, mas ainda falta um corpo de dados convincente. Nós iniciamos uma pesquisa nesse sentido, buscando entender se há alguma relevância desse tipo de atividade no ambiente de ensino superior da área da saúde. Obtivemos resultados interessantes que foram parcialmente apresentados no último Congresso Brasileiro de Educação Médica e estão em processo de publicação em revistas científicas da área da educação médica.
 

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PC: Como isso modificou a sua vida?
MF: Essa é uma das percepções subjetivas daquelas que comentei na resposta anterior. Percepções que são compartilhadas por muitos colegas meus desse mundo “palhacístico”. Entrar em contato com a linguagem do palhaço realmente mudou minha vida. O palhaço ensina a se relacionar com as pessoas, a realmente perceber como elas estão, o que estão dizendo. Ensina a trabalhar em grupo, a aceitar as propostas alheias, mesmo que você discorde delas. Hoje lido com mais facilidade com as várias relações sociais que tenho: amigo-amigo, filho-mãe, marido-mulher, professor-aluno, etc.
Sou bem mais feliz depois que encontrei o nariz vermelho.
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PC: Como modifica a vida de quem faz parte do projeto? 
MF: É isso que estamos tentando descobrir no momento. Já temos alguns dados preliminares, que mostram que os alunos têm melhoria na relação com os pais em casa, ou com os colegas na faculdade. Há alunos que relatam melhoras em apresentações de trabalhos na faculdade. Um dos depoimentos que coletamos foi o seguinte: “Antes eu apresentava olhando para a parede. Hoje, já encaro o público com mais facilidade. Não sei, mas acho que isso me rende alguns pontos extra com os professores, no quesito apresentação individual.”
Houve um aluno de medicina que relatou que durante os estágios no hospital, percebeu que estava mais solícito e atento durante a anamnese com o paciente.
Em geral os alunos que passaram pelo treinamento de palhaço não consideram que “ser engraçado” é algo que eles aprenderam, o que pode parecer surpreendente. Na verdade os conceitos que eles relatam como relevantes após o treinamento foram os de olhar nos olhos das pessoas e de realmente escutar o que os outros dizem.
Eu espero que essas percepções possam ser duradouras e sejam inseridas na vida desses futuros profissionais, mas não temos dados a esse respeito.
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PC: Tendo uma educação científica, acha que vê esse projeto com outros olhos?
MF: Muitas pessoas vêem o projeto apenas como uma “atitude boazinha”, com o cunho de ajudar quem passa por dificuldades em um hospital. Eu vejo além. Vejo como um acréscimo à educação superior, como uma iniciativa de interdisciplinaridade, como uma extensão curricular mesmo. Eu realmente acredito que o palhaço muda pessoas, para melhor.
Agora, não sei se essa visão é por causa de uma educação científica, ou artística. Tudo se juntou de tal maneira na minha vida, que não sei mais separar as duas.

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PC: O sr acredita que há falta de comunicação entre a academia e a sociedade?
MF: Acho que sim. A maioria das palestras científicas a que assisto são cheeeias de gráficos, tabelas e siglas, que demandam um trabalho enorme da plateia para que haja algum tipo de entendimento. “Que mensagem esse palestrante quer passar, exatamente?”, eu me pergunto muitas vezes. E isso é em uma palestra de um cientista para outro. Imagina para pessoas não cientistas.
Eu gostaria muito de ver disciplinas como comunicação e gestão de pessoas muito mais prestigiadas no currículo acadêmico de um médico, biomédico, fisioterapeuta, etc. Ter muito conhecimento técnico, mas não saber passá-lo ao próximo é um potencial desperdiçado. Existem algumas iniciativas do uso de artes na educação em saúde, que considero ótimas ideias. Não sei se terão resultado, mas acredito na proposta (3).
A própria proposta deste blog, sobre comunicação e ciência “descomplicada”, escrito por jovens inquietos, eu já acho louvável.
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PC: Quais os planos futuros para os “Palhaços de Plantão”?
MF: Formar mais alunos-palhaços para atuar em hospitais. Mas não formar de qualquer jeito. Formar bem, com embasamento artístico sólido, para que a arte seja inserida de modo efetivo e não apenas como um passatempo.
Entender melhor qual é o impacto de tudo isso que estamos fazendo na vida do estudante da área da saúde.
E, como gostamos de dizer, dominar o mundo!
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Gostaria de agradecer mais uma vez ao Mauro Fantini pela entrevista. Também acho que há um grande abismo entre a academia e a sociedade.

Resolvi fazer um post um pouco diferente dos rotineiros aqui no blog. Escreva nos comentários suas ideias e se gostaríam de ver mais entrevistas por aqui.

Referências:

1. Masetti M. Soluções de Palhaços – Transformando a Realidade Hospitalar. Ed Palas Athena, 2002

2. Bertini M, Isola E, Paolone G, Curcio G. Clowns benefit children hospitalized
for respiratory pathologies. Evid Based Complement Alternat Med. 2011;2011:879125.

3. Case GA, Brauner DJ. Perspective: The doctor as performer: a proposal for change based on a performance studies paradigm. Acad Med. 2010 Jan;85(1):159-63.

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4 respostas em “Entrevista: Palhaços de Plantão

  1. Essas idéias e propostas têm tudo a ver com a Humanização em Saúde. Tanto que a Política Nacional de Humanização propõe mudanças no âmbito da assistência, da formação e da gestão.

  2. Pingback: Entrevista com os Palhaços de Plantão « Palhaços de Plantão

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