A “cristalização” de conceitos e o erro de Lamarck

Durante toda nossa vida de aprendizado, nos deparamos com determinadas situações que tem o objetivo de explicar determinados conceitos.  Exemplos clássicos referem-se aqueles exemplos, que geralmente melhor representam um determinado conceito dentro de uma teoria. Livros didáticos sejam eles de física, química ou biologia, são recheados de tais exemplos.

Os conceitos que são apresentados a fim de explicar teorias, principalmente aqueles mais antigos, podem não ser atualizados ao longo do tempo e com isso corremos o risco de perder a perspectiva histórica e os achados de investigações posteriores na área de estudo.

Ao abordar teorias da evolução das espécies, os livros didáticos sempre trazem a “lei do uso e desuso”  elaborada por Lamarck, com a explicação para o tamanho do pescoço das girafas como contraponto à teoria da evolução Darwinista.

lamarck_giraffes1Na teoria Lamarckista, os ancestrais das girafas tinham o pescoço curto. Nos períodos onde havia escassez de alimentos, os animais deveriam esticar o pescoço para alcançar o alimento no alto das arvores. Esse esforço fazia com que o pescoço ficasse maior ao longo do tempo e essa característica era passada de geração em geração.

Os mesmos livros apresentam por outro ângulo, a teoria darwinista, cuja proposta era a de que os ancestrais das girafas nasceriam com tamanhos de pescoços ligeiramente diferentes. Aqueles com pescoços maiores teriam uma vantagem adaptativa que seria determinante para sua sobrevivência em períodos de escassez de alimentos.

A teoria de Lamarck contem falhas e por isso foi derrubada, isso é um fato. Minha intenção aqui não é defender a teoria de Lamarck, mas chamar a atenção sobre alguns aspectos que não são colocados nos livros didáticos e que poderiam influenciar nossa opinião. Assim, qual é o problema especificamente com esse exemplo clássico?

Primeiro pense que qualquer pessoa que ouvir esse exemplo pela 1ª vez, vai aderir imediatamente a visão Darwinista da evolução, pois hoje em dia temos elementos suficientes para inferir que a “Lei do uso e desuso” é inviável. A minha crítica é que o exemplo do pescoço da girafa tendencia o leitor a ponto de levar a um momento de reflexão e, além disso, ridiculariza Lamarck, que foi um importante evolucionista e que fez contribuições na área, assim a memória do cientista deve ser preservada.

Nos livros didáticos, a perspectiva histórica na qual a lei do uso e desuso foi elaborada é completamente ignorada assim como os 200 anos seguintes de pesquisa na área. Essa Lei foi “cristalizada”, de modo que apenas aqueles que se aprofundam na área ficam sabendo de estudos posteriores nos quais foi observado que a questão do tamanho do pescoço entre os machos estava muito mais relacionada como arma de dominação e preferência pelas fêmeas do que com a escassez de alimento no inverno. Além disso, girafas com pescoços maiores enxergam mais longe o que poderia ser determinante na sobrevivência em caso de aproximação de predadores.

Em outra perspectiva, Lamarck jamais deu ao exemplo do pescoço da girafa o destaque que tem recebido há 200 anos. No livro Philosophie Zoologique de Lamarck, o parágrafo sobre as girafas está dentro de um capítulo junto com outros exemplos  que Lamarck atribuiu maior importância.

Todos os conceitos apresentados nos livros didáticos e principalmente aqueles que não são bem estabelecidos devem ser sempre atualizados. A cristalização de teorias deve ser na medida do possível evitada, para que a ciência não corra o risco de parecer algo fechado e imutável. E para que isso aconteça, a visão crítica do leitor nesse processo é sempre fundamental.

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6 respostas em “A “cristalização” de conceitos e o erro de Lamarck

  1. Apesar de apreciar o posicionamento da autora (e dos comentaristas) em favor da contextualização histórica na apresentação das ideias Transformistas de Lamarck, de modo a evitar caricaturas e mal entendidos, gostaria de fazer algumas correções. O primeiro ponto é que as ideia de herança de caracteres adquiridos pelo uso e desuso – que, atualmente, é o que se entende por Lamarckismo – não são originais do naturalista francês e nem eram as ideias principais que caracterizaram seu modelo de evolução. O uso e o desuso e herança de caracteres adquiridos são ideias bem mais antigas e que eram praticamente o senso comum da época em relação a hereditariedade. Por isso, mesmo Darwin, as aceitava e até propôs um modelo de herança chamado de pangênese que explicaria como caracteres adquiridos pelo uso e desuso poderiam ser transmitidos às gerações subsequentes.

    Os pontos centrais do modelo transformista de Lamarck eram a direcionalidade da mudança transgeracional (da menor para a maior complexidade) e a origem de novos órgãos e sistemas por meio de um impulso, intrínseco aos organismos, de natureza quase-intencional que guiaria este processo. A atual visão do ‘Lamarckismo’ como sinônimo exclusivo de herança de caracteres adquiridos pelo uso e desuso, e sua contraposição ao Darwinismo, deve ter surgido, entre o final do século XIX e começo do século XX (no período pré-sintese da biologia evolutiva), tendo sua origem na oposição entre a escola neo-darwinista (derivada de Alfred Russell Wallace e August Weismann), que é a versão da teoria da seleção natural livre da herança de caracteres adquiridos, e a chamada escola neo-lamarckista americana que flertava abertamente com o modelo direcional Lamarckiano e com a de herança de caracteres adquiridos.

    Escrevi mais sobre isso no tumblr ‘Pergunte ao evolucionismo’ [http://pergunte.evolucionismo.org/post/46635192363] e também sobre a questão dos mecanismos epigenéticos e seu suposto papel na evolução [http://pergunte.evolucionismo.org/post/38290547827] e [http://pergunte.evolucionismo.org/post/30258864700] [http://pergunte.evolucionismo.org/post/7372455592].
    ———————————
    Rodrigues, Rodolfo Fernandes da Cunha; Silva, Edson Pereira da. ‘Lamarck: Fatos e boatos.’Ciência Hoje, São Paulo, n. 285, p.68-70, 26 set. 2011. Disponível em: . Acesso em: 16 jan. 2012.
    Vieira, Eli e Tidon, Rosana A bicentenária filosofia zoológica de Lamarck. Ciência Hoje , p. 70, nº 265.
    Ghiselin, Michael T. ‘The Imaginary Lamarck: A Look at Bogus “History”’ in Schoolbooks The Textbook Letter, September-October, 1994.

    Grande abraço e parabéns pela iniciativa,

    Rodrigo Véras

  2. Um assunto pelo qual sou fascinado, então aqui vai minha primeira participação neste blog.
    Quase tudo que aprendemos sobre Lamarck ilustra demais e informa de menos.
    Primeiro, as carreiras de Darwin e Lamarck não foram contemporâneas. Lamarck viveu e publicou mais no século 18, Darwin no século 19.
    Segundo, Lamarck foi, provavelmente, mais importante para o naturalismo do que Darwin, ao fornecer a primeira teoria da evolução por fatores naturais, ou seja, descendentes mais adaptados do que ancestrais por mecanismos de adaptação naturais, e não por ação divina. Imagine isso no século 18. Muita gente foi queimada viva por muito menos.
    Terceiro, Darwin nunca discordou de Lamarck. Nunca. Na verdade, a teoria proposta por Darwin para explicar hereditariedade (não no ” A Origem das Espécies”, mas num tratado posterior) era bastante “lamarckista”. Talvez porquê Darwin não conhecia o trabalho de Mendel, contemporâneo de Darwin. Irônicamente, Darwin demorou a aceitar suas próprias observações por serem contrárias à igreja, enquanto ao mesmo tempo Mendel, um frade num monastério, trabalhava em experimentos que fundaram a genética moderna e serviram de alicerce para explicar, no futuro, “A Origem das Espécies”, de Darwin.
    Quarto, Lamarck não estava errado. Claro que o caso da girafa é errado, mas ao mesmo tempo absurdo. Como destacado pela Vanessa, ele nunca disse isso. Diversas evidências sugerem que características adquiridas podem sim ser transmitidas para os descendentes. Os mecanismos ainda não são totalmente conhecidos, mas podem estar relacionados à regulação epigenética.

    Legal o assunto e o texto!
    Parabéns pelo blog,
    Dani

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