Álcool: dificuldade em parar, problema de memória à vista! (parte 3)

Alcoholism-addictionNos últimos dois posts sobre o álcool, droga de abuso lícita tão comumente usada por muitos e muitos milhões de pessoas, falei um pouco da epidemiologia e dos seus efeitos agudos (Álcool: consumir ou não, eis os seus efeitos), e também mencionei alguns dos fatores que fazem com que um indivíduo possa transitar do uso controlado de álcool para o exagerado (Álcool: se faz alegre, por que se preocupar?). Neste post gostaria de comentar um pouco das explicações científicas atuais (bem recentes meeeesmo!) para o fato de que um indivíduo, já em fase de dependência de álcool, tem grande dificuldade de se livrar do seu uso. Na minha opinião, e de outros cientistas, a dependência de drogas é um processo relacionado à formação de “memórias aberrantes” dos estímulos associados à droga (Torregrossa et al., 2011 – boa revisão!). Quê? Ficou difícil? Vamos explicar com calma!

A maioria a de convir comigo que um indivíduo dependente de álcool tem uma dificuldade enorme em desfocar da droga e de seus estímulos (por exemplo, o dependente não consegue se livrar do hábito de parar no mesmo bar todos os dias depois do trabalho para tomar uma). Além disso, esse indivíduo também perde a habilidade de interagir prazerosamente em outras atividades da vida. Muitas vezes, o dependente de droga negligencia outros prazeres que, inicialmente, eram importantes (passeio com filhos, aproveitar um cinema, fazer uma atividade física etc). De forma descontraída, a figura abaixo representa isso. Imaginem que o nosso famoso sujeito abaixo ao dar mais e mais importância ao álcool, deixa de dar importância a outros estímulos prazerosos (a, não menos famosa, rosquinha!).

transition to addiction

Isso acontece na vida do dependente de drogas. Muitos estudos começaram a mostrar que indivíduos que foram expostos cronicamente ao álcool passam a ter déficits de memória e também de plasticidadeo mecanismo sináptico que nosso cérebro utiliza para se adaptar a um ambiente que esta sempre em mudança. O dependente, portanto, forma uma memória exagerada que o impulsiona ao consumo do álcool e, também, perde a capacidade de aprender coisas novas. Muitos trabalhos demonstram que a exposição prolongada ao álcool (e a outras drogas de abuso) é capaz de causar déficits nos mecanismos de plasticidade sináptica em diversas regiões cerebrais: a área tegmental ventral, região associada com a sinalização de prazer no cérebro (Bernier et al., 2011); o núcleo accumbens, como  descrito em posts anteriores, região cerebral relacionada ao sistema de recompensa e importante para os efeitos iniciais das drogas de abuso (Abrahao et al., 2013 – uhuuu sou eu mesma; Jeanes et al., 2010; Mishra et al., 2012); o córtex pre-frontal, região responsável por organizar comportamentos complexos tais como tomada de decisão, expressão de personalidade e comportamento social (George et al., 2012); e o hipocampo, região central nos processos de formação de memória (para uma revisão geral sobre esse assunto leia o trabalho de um dos meus mentores Dr. Brian McCool de 2011). Alterações permanentes do sistema glutamatérgico (o principal sistema de estimulação do cérebro) parecem ser as mais importantes como causa do déficit de plasticidade. No entanto, não podemos descartar a ideia de que diversos outros sistemas de neurotransmissão estão associados a esse processo. De forma simplificada, o uso crônico de álcool pode alterar a capacidade do cérebro de auto-controle e prejudicar a formação de memórias ou a capacidade de esquecer.

Um recente trabalho científico, publicado na Nature Neuroscience, mostrou que existe importante neuroadaptação no córtex pre-frontal após exposição ao álcool (Holmes et al., 2012). Neste trabalho, Dr. Andrew Holmes e colaboradores mostraram que animais expostos ao álcool apresentam déficits na extinção de memórias aversivas e isto esta associado a uma diminuição da atividade de receptors glutamatérgicos do tipo NMDA. A capacidade de esquecer está prejudicada.

E como recuperar essa capacidade? Alguns pesquisadores estão tentando utilizar algumas drogas que equilibram a plasticidade, ou seja, essas drogas ajudam na recuperação da homeostasia da atividade glutamatérgica cerebral (Schmaal et al., 2012). Dentre elas, destaca-se a N-acetilcisteína. No entanto, a maioria desses estudos foca nas adaptações decorrentes da exposição crônica à cocaína. Ainda são necessários estudos que compreendam como essa droga poderia recuperar déficits associados à exposição crônica ao álcool. Fiquem atentos nas pesquisas com essa substância.

Além disso, eu acredito que os tratamentos farmacológicos podem ser potencializados pelos tratamentos psicoterápicos, ou vice-versa. A psicoterapia muitas vezes também lida com situações que o indivíduo tem uma forte ligação (ou memória) para determinados eventos da vida. Uma das maneiras de forçar a dissociação entre os estímulos associados à droga e a fissura (e uma possível recaída) é expor o indivíduo a esses estímulos repetidamente sem que ele tenha acesso à droga. Isso é feito por alguns profissionais para pessoas que tem fobias. No caso da dependência, a fissura pela droga pode vir a tona, mas, por não ter o acesso a droga, o organismo tende a se readaptar e, em alguns casos, diminuir a resposta de fissura àquela situação. Um estudo muito intrigante, publicado na Science (Xue et al., 2012), mostrou que a pre-exposição a estímulos associados à droga (em específicos intervalos de tempo relacionados à janela de reconsolidação da memória), seguida de uma re-exposição forçada para a extinção da associação entre os estímulos e a fissura pela droga, pode ajudar o indivíduo a diminuir a fissura. Os testes foram feitos em modelos animais e em humanos dependentes de heroína. Parece complicado mas não é. Os pesquisadores chineses defendem a ideia de que trazendo a fissura a tona, ficaria mais fácil de apagá-la. Essa é uma teoria já utilizada para os processos naturais de memória. Ainda não temos estudos como esse para a dependência de álcool, mas logo eles aparecerão.

Eu acredito que, em um futuro bem próximo, os cientistas se apoderarão das qualidades das duas abordagens terapêuticas: farmacológica e psicoterápica para acelerar o processo de esquecimento das memórias associadas às drogas e, também, ajudar a formação de novas memórias prazerosas que não estejam relacionadas à droga. Provavelmente isso se dará pela recuperação da capacidade do cérebro de se adaptar, expressando normalmente mecanismos de plasticidade sináptica. Essa é a minha linha de pesquisa, principalmente focando na dependência de álcool! Quem quiser conversar e saber mais a respeito desse tópico, é só escrever! Ideias sempre são bem vindas!

REFERÊNCIAS:

Abrahao KP, Ariwodola OJ, Butler TR, Rau AR, Skelly MJ, Carter E, Alexander, NP, McCool BA, Souza-Formigoni MLO, Weiner JL. Locomotor sensitization to ethanol impairs NMDA receptor-dependent synaptic plasticity in the nucleus accumbens and increases ethanol self-administration. J Neurosci. 2013; 33 (11): 4834-42.

Bernier BE, Whitaker LR, Morikawa H. Previous ethanol experience enhances synaptic plasticity of NMDA receptors in the ventral tegmental area. J Neurosci. 2011; 31 (14): 5205-12.

George O, Sanders C, Freiling J, Grigoryan E, Vu S, Allen CD, Crawford E, Mandyam CD, Koob GF. Recruitment of medial prefrontal cortex neurons during alcohol withdrawal predicts cognitive impairment and excessive alcohol drinking. Proc Natl Acad Sci USA. 2012; 109(44):18156-61

Holmes A, Fitzgerald PJ, MacPherson KP, DeBrouse L, Colacicco G, Flynn SM, Masneuf S, Pleil KE, Li C, Marcinkiewcz CA, Kash TL, Gunduz-Cinar O, Camp M. Chronic alcohol remodels prefrontal neurons and disrupts NMDAR-mediated fear extinction encoding. Nat Neurosci. 2012; 15(10):1359-61.

Jeanes ZM, Buske TR, Morrisett RA. In vivo chronic intermittent ethanol exposure reverses the polarity of synaptic plasticity in the nucleus accumbens shell. J Pharmacol Exp Ther. 2011; 336 (1):155-64.

McCool BA. Ethanol modulation of synaptic plasticity. Neuropharmacology. 2011; 61(7):1097-108.

Mishra D, Zhang X, Chergui K. Ethanol Disrupts the Mechanisms of Induction of Long-Term Potentiation in the Mouse Nucleus Accumbens. Alcohol Clin Exp Res. 2012; [Epub ahead of print]

Schmaal L, Veltman DJ, Nederveen A, van den Brink W, Goudriaan AE. N-acetylcysteine normalizes glutamate levels in cocaine-dependent patients: a randomized crossover magnetic resonance spectroscopy study. Neuropsychopharmacology. 2012; 37(9):2143-52.

Torregrossa MM, Corlett PR, Taylor JR. Aberrant learning and memory in addiction. Neurobiol Learn Mem. 2011; 96 (4): 609-23.

Xue YX, Luo YX, Wu P, Shi HS, Xue LF, Chen C, Zhu WL, Ding ZB, Bao YP, Shi J, Epstein DH, Shaham Y, Lu L. A memory retrieval-extinction procedure to prevent drug craving and relapse. Science. 2012; 336(6078):241-5.

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5 respostas em “Álcool: dificuldade em parar, problema de memória à vista! (parte 3)

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  2. Pingback: A terapia da meditação – O Mindfulness e a recaída | Prisma Científico

  3. Reblogged this on Ano Sobriáticoe comentado:
    Prejudica tb a capacidade de esquecer… Tá explicado um pouco do pânico e fobia social… Vc sai, chapado, fala com pessoas menos chpadas, que te ignoram pq vc está chapado… Vc de alguma maneira lembra disso (saca flashback da balada? meda) e depois não consegue mais esquecer… affemaria (Excelente série! Recomendo fortemente)

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