Vaidade Acadêmica

Ao contrário de outros posts, o intuito deste texto não é ser científico no sentido estrito, mas sim uma reflexão sobre o cotidiano dentro da universidade, particularmente no âmbito da pesquisa e no que chamamos de fazer ciência no Brasil.

Certeza é que todos gostamos (e muitas vezes necessitamos) de atenção e reconhecimento. Nada de mal há nisso.  Qual pessoa ao ter um trabalho finalizado após tanto esforço não gostaria de receber felicitações e elogios pela atividade executada. Isso nos motiva a continuar trabalhando perante as inúmeras dificuldades do dia a dia.

Mas, por outro lado, às vezes esta necessidade de atenção e reconhecimento beira tal ponto de excesso que acabamos nos cegando em uma disputa cada vez mais acirrada em busca deste tipo de retorno.

As cobranças que acompanham o funcionamento social atualmente são claramente refletidas na academia. Produza sempre. Quanto mais, melhor, quanto mais rápido, melhor. E claro, quanto maior o fator de impacto do periódico, melhor. Até então, nenhuma novidade.

A questão aqui é que tais cobranças, somadas à necessidade exagerada de reconhecimento e atenção do pesquisador (entenda qualquer aluno ou professor) por vezes culmina em uma disputa de egos. Uma vaidade1 acadêmica, que com certeza não é tão rara assim, e acaba por criar um ambiente tóxico de disputa e muito pouco produtivo para a troca de experiências.

Na prática, isto dificulta que colaborações ocorram e que críticas possam ser utilizadas como fator de crescimento e aprimoramento. Isto porque ao focar exageradamente no eu muitas vezes nos ensurdecemos para o outro.

Umas das oportunidades mais ricas intra e intergrupos de pesquisa é a troca entre as diferentes pessoas que o compõem. Pessoas muitas vezes de diferentes áreas e com diferentes experiências muito podem contribuir desde que almejem também o crescimento e melhora do trabalho. Isso está em completo acordo com o esforço da ciência em unir áreas de conhecimento, ampliando sua compreensão dos fatos.

Um artigo de Georg Franck2 publicado na revista Science em 1999 trata também desta temática, discutindo publicações, citações, e como a busca de um cientista por reconhecimento pode distorcer seu papel na ciência e produção de conhecimento.

Esse vídeo de Steven Johnson, um escritor norte americano, fala de onde vêm as boas ideias, tema de um livro de sua autoria. Uma das partes abordadas neste vídeo trata exatamente da troca entre as pessoas. Esta socialização e compartilhamento de ideias proporciona um ambiente muito mais rico, permitindo que ideias que sejam boas, ou nem tão boas assim, possam evoluir até se tornarem uma grande ideia. Em resumo, a troca interpessoal é fator fundamental para que as ideias evoluam.

Enfim, pobre daquele que durante sua trajetória acadêmica nunca conseguiu discutir alguma temática e ampliar suas ideias, inspirações e um aprendizado.

1 – Entende-se aqui vaidade como proposto por Stephen LaMarche: Vaidade é a crença excessiva em sua própria capacidade ou atratividade em relação aos outros

2 – Franck, G. (1999). Scientific Communication: A Vanity Fair? Science, 286(5437), p 53.

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