Vai querer o que, playboy? – Sais de banho e party pills (Parte 2)

White rushComo dito no texto anterior, as legal highs podem ser classificadas em quatro categorias: similares às anfetaminas, similares aos opiáceos, canabinóides sintéticos e alucinógenos. Nesta segunda parte tratarei das drogas incluídas na primeira classificação. Falarei de duas drogas pertencentes a esse grupo, os sais de banho e as party pills.

Sais de banho

Há um tempo, um amigo meu me procurou querendo saber a respeito de uma nova droga que ele ouviu falar em uma notícia, a droga em questão era um tal de “sais de banho”. Segundo a notícia, um homem após ter consumido esta droga, atacou e comeu(!) o rosto de outro homem. O ataque só teve fim após a intervenção da polícia que resultou na morte do agressor. O homem ficou conhecido como o “zumbi de Miami”. Apesar da chocante notícia, vale resaltar que o exame toxicológico demonstrou que havia apenas maconha no organismo do agressor. No entanto, esse fato levantou a minha curiosidade a respeito dessa nova droga.

Bom, vamos conhecer melhor esses sais banho.

Em primeiro lugar, por que esse nome? Bom, a maioria dessas drogas são vendidas na forma de sais de banho ou comida para plantas com o objetivo de fugir da regulamentação, daí esse nome tão peculiar. O aviso de “Não é para consumo humano” presente na embalagem, não impede os usuários de aspirarem ou ingerirem o produto em forma de pó.Cloud 9

É muito comum, após casos assustadores que envolvem drogas desconhecidas, que veículos de mídia publiquem notícias incorretas a respeito da droga em si, e isso não foi diferente no caso do “zumbi de Miami”. Na época, foram publicadas notícias que diziam que os sais de banho eram drogas feitas a partir do crack e que um dos seus efeitos colaterais era o canibalismo. Tais notícias não são verdadeiras, e induzem a crenças errôneas na população.

Os principais compostos presentes nos sais de banho são chamados de catinonas sintéticas. A catinona natural é um composto presente nas folhas de uma planta chamada Catha edulis, popularmente conhecida como Khat. Relatos do consumo dessa planta na Etiópia, Iémen e Somália datam do século XI. A principal catinona sintética presente no sais de banho é o MDPV1, porém não é a única.

Venda de khat num mercado do leste africano

Venda de khat num mercado do leste africano

Os efeitos dessas drogas são bem similares aos do MDMA2 – o ecstasy. Usuários de sais de banho relatam um aumento da atenção e de energia, euforia, maior sociabilidade e apetite sexual. Dores de cabeça, dores no peito, vômitos, tremores e ansiedade estão entre os efeitos adversos mais relatados. Sinais como taquicardia, aumento da frequência respiratória e sudorese intensa são observados após a ingestão dessas drogas.

Acredito que existe um ponto muito interessante relacionado a essa tema que devemos olhar com mais calma e atenção. Além dos efeitos supracitados, algumas pessoas podem apresentar um quadro de agressividade aumentada, psicose, raiva, alucinações e pânico após o consumo de sais banho. Levando em consideração esse fator, não é de se espantar que um indivíduo, em determinada condição e contexto, possa apresentar um comportamento de agressividade intensa que resulte num comportamento aberrante, como por exemplo, o canibalismo. O fato importante dessa questão é de que a droga por si só não transforma o indivíduo em algo que ele não é (canibal), mas sim o conjunto de fatores que resulta nessa situação.

Esse é um dos principais tabus com que os profissionais de saúde que trabalham com drogas lidam quase que diariamente. A população em geral enxerga a droga como uma entidade capaz de transformar um pacato cidadão em um sociopata descontrolado, e acabam se esquecendo de que as pessoas apresentam predisposições naturais a comportamentos que não são bem-vistos pela sociedade e que em uma situação cotidiana são capazes de inibi-los. Contudo, após o consumo de certas drogas acabam perdendo esse controle e mostram seus “monstros interiores”.  Na concepção popular, o “monstro” deixa de ser o indivíduo e passa a ser a droga.

Em suma, droga, indivíduo e contexto formam a tríade determinante do comportamento, seja ele aceitável ou não.

Para aqueles mais interessados no assunto, estudos laboratoriais já mostraram que as catinonas apresentam capacidade de bloquear a recaptação sináptica de monoaminas e induzir a liberação de dopamina no estriado, efeitos similares aos da cocaína e anfetaminas.

Party pills

FestaPílulas de festa e ecstasy legal, esse são os nomes mais comuns dados pelos usuários dessas drogas. Assim como os sais de banho, as party pills apresentam efeitos semelhante ao MDMA, por isso seu uso é predominante entre jovens frequentadores de festas noturnas, baladas, raves ou boates.

Os principais compostos presentes  nas party pills são o BZP3 e o TFMPP4, ambos da família das piperazinas. Inicialmente, as piperazinas foram desenvolvidas para o tratamento de verminoses no trato gastrointestinal, no entanto as pessoas acharam seus efeitos estimulantes mais “legais” do que os anti-helmínticos e começaram a usá-las para outros fins, digamos, mais “interessantes” para eles.

Party pillsUsuários de party pills relatam um aumento da energia e da atenção, associados a uma diminuição da fatiga. Sinais como taquicardia, aumento da pressão sanguínea e da frequência respiratória são observados após sua ingestão. Além disso, existem relatos de casos de alucinações após o consumo de doses altas. Dentre os efeitos adversos observados e relatados, destacam-se: náuseas, vômitos, convulsões, paranoia e aumento da ansiedade.

Um estudo feito na Nova Zelândia com jovens entre 16 e 24 anos de idade apresentou dados muito interessantes. Eles viram que, para os jovens, o fato das party pills serem legais quer dizer que elas também são: seguras, apresentam controle de qualidade, apresentam efeitos menores em comparação com outras drogas e são aceitas socialmente. Isso é muito preocupante, pois demonstra que uma crença errada justifica o uso para uma população vulnerável e facilmente influenciável.

Novamente, para os nerds de plantão, BZP inibe a recaptação de serotonina e também age como agonista de receptores serotoninérgicos. Além disso, tanto o BZP quanto o TFMPP são capazes de aumentar a liberação de serotonina dos terminais sinápticos, efeito similar ao ecstasy e anfetaminas.

No próximo post falarei sobre o Kratom e krokodil.

Aguardem!

Lista de abreviações

1 Metilenodioxipirovalerona
2 Metilenodioximetanfetamina
3 Benzilpiperazina
4 1-(3-trifluorometilfenil)piperazina

Referências

Waterson LR et al (2012) Potent rewarding and reinforcing effects of the synthetic cathinone 3,4-methylenedioxypyrovalerone (MDPV)

Coppola M e Mondola R (2012) Synthetic cathinones: Chemistry, pharmacology and toxicology of a new class of designer drugs of abuse marketed as “bath salts” or “plant food”

Fass  et al (2012) Synthetic cathinones (bath salts): Legal Status and patterns of abuse

Prosser JM e Nelson LS (2012) The toxicology of bath salts: a review of synthetic cathinones

Rosenbaum CD et al (2012) Here Today, Gone Tomorrow… and Back Again? A Review of Herbal Marijuana Alternatives (K2, Spice), Synthetic Cathiones (Bath Salts), Kratom, Salvia divinorum, Methoxetamine, and Piperazines

Cohen BMZ e Butler R (2011) BZP-party pills: a review of research on benzylpiperazine as a recreational drug

Arbo MD et al (2012) Piperazine compounds as drugs of abuse

Sheridan J e Butler R (2010) “They’re legal so they’re safe, right?” What did the legal status of BZP-party pills mean to young people in New Zealand?

Anúncios

3 respostas em “Vai querer o que, playboy? – Sais de banho e party pills (Parte 2)

    • Oi Ju
      Pelo que eu pesquisei, encontrei dois remédios utilizados contra verminoses que contém piperazina: o Vermibel e o Vermilen. No entanto, esses medicamentos já não são os mais indicados e foram substituídos pelos benzimidazóis.
      Em relação à similaridade com a fluoxetina, houve algumas pesquisas nos anos 70 com as piperazinas como agentes antidepressivos. Porém, em virtude dos efeitos estimulantes do SNC, similares aos das anfetaminas, esses estudos foram abandonados.

      • Olá!
        Eu lí alguns artigos que diziam que muitos comprimidos de ecstasy são adulterados com as piperazinas e que na Europa elas não são mais usadas nem como vermífugo, pois causavam convulsões nos animais.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s