Os Miseráveis

Quando recebi a notícia de que o espetáculo “Os Miseráveis” (Les Miserábles), adaptação musical do romance de Victor Hugo, estaria ganhando uma versão cinematográfica, logo quis escrever um texto com essa referência por gostar muito do livro e do musical. O filme apenas será lançado em 2013 no Brasil, mas a expectativa é grande, apesar de termos de ouvir Russell Crowe cantando…

As primeiras páginas do romance “Os Miseráveis” contam com a personagem Jean Valjean pedindo de albergue em albergue por um quarto e uma refeição, só para ser escorraçado em todas as suas tentativas, por ser um recém-liberto – em condicional – de sua pena de prisão de dezenove anos, cinco por roubar um pão para tentar alimentar a sua família e mais quatorze por tentativas recorrentes de fuga. Para mim, na academia, a comparação mais óbvia dessa jornada arredia e incerta, com diversas dúvidas sobre o futuro – com muitas possibilidades, boas e ruins – seria a dos “miseráveis” da hierarquia acadêmica, os estagiários da ciência, aquele que seria o primeiro degrau do futuro cientista: o estudante de Iniciação Científica.

Cosette acadêmica Les miserables

A Iniciação é o primeiro passo para qualquer um que deseja fazer ciência, isso não significa que alguém que não tenha feito iniciação não conseguirá em um futuro fazer pesquisa com a mesma qualidade, mas a iniciação é como o estágio em uma empresa na área desejada para o futuro: aprende-se o linguajar, o caminho das pedras da burocracia, leva-se as porradas necessárias e mergulha-se no universo de investigações, descobertas (ou não) e publicações. Basicamente, se aprende na pele o trabalho que um cientista em sua área faz. Apesar de não ser obrigatória, uma boa vivência como IC em um ou mais grupos de pesquisa é um grande diferencial.

Apesar disso, as dificuldades para se manter em grupos de pesquisa são grandes. Assim como Valjean, muitos alunos possuem dificuldade para serem aceitos em alguns grupos e se manter neles, principalmente por uma concorrência que se manterá até a pós-graduação: o mercado de trabalho. Enquanto, a depender do curso de graduação em que o estudante está, o valor das bolsas de IC costumam ser muito mais baixo do que os valores dos auxílios dos estágios por aí, há ainda a importância dada em empresas para esta segunda experiência, ao contrário da primeira (e depois não melhora muito, mestrandos e doutorandos convivem diariamente com a dúvida do “e se eu tivesse seguido outro caminho… Um caminho com carteira de trabalho assinada…”).

Além disso, como dito anteriormente, se manter na vida de pesquisa não costuma ser fácil, após a luta para conseguir um grupo que trabalhe minimamente com o que interessa à pessoa e o desprendimento financeiro, o IC agora vai passar pela diversidade dos grupos. Quando chegam em algum grupo, alguns ICs recebem um tratamento digno da pousada do Sr. Thenardier, do início ao fim. Todavia, é essa inserção, ainda no berço da academia, que pode render frutos excelentes no futuro. Ainda mais quando o aluno busca caminhar por diversos grupos de pesquisa, em áreas diferentes, aprendendo métodos, análises e técnicas variadas. Convivendo com todos os tipos de orientadores e colegas de trabalho e, claro, publicando. É com esse tipo de aluno que se ganha força a mudança da lógica antiga de “centralização” do conhecimento, para a lógica de expansão e diversificação. O aluno de IC tende a ser motivado, curioso e a ser o mais propício a fazer a onda de mudanças dos paradigmas.

O ganho para a ciência é imenso quando os alunos de IC são bem motivados pelos seus grupos, mas é claro, o IC precisa ter independência, correr atrás, estudar. Lembrando que todas estas características são extremamente necessárias para o futuro na pós-graduação strictu sensu, pois subir nos ombros de gigantes dá trabalho e só pode ser feito com o próprio esforço. Parafraseando Euclides da Cunha, diria que aquele que pretende adentrar na vida acadêmica é, antes de tudo, um forte. E sendo assim, a responsabilidade não pode ser removida das costas deste, o incentivo para lutar suas próprias lutas, mesmo que possa contar com o auxílio elegante dos seus colaboradores, deve existir. E esse auxílio faz parte também da função dos grupos de pesquisa, dos mais experientes – sejam mestrandos, doutorandos ou orientadores – ajudá-los a não deixar que, assim como a personagem Fantine, a vida (acadêmica) destrua o sonho dos futuros cientistas:

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