É a procura da felicidade que frustra a felicidade em si!

“Um homem vai ao psiquiatra. Diz que está depressivo. Diz que a vida é dura e cruel. Diz que se sente sozinho em um mundo ameaçador. O doutor diz, ‘o tratamento é simples. O palhaço Pagliacci está na cidade. Vá vê-lo. Isso vai te alegrar’. O homem inflama em prantos e diz, ‘mas doutor… Eu sou Pagliacci’… Boa Piada. Todo mundo ri. Os tambores tocam. Cortinas”

-Rorschach, Watchmen

Quando se pergunta para as pessoas qual o objetivo mais fundamental da vida, a grande maioria dirá que é a Felicidade, como diz o jargão, “o importante é ser feliz”. Estudos muito bem estruturados (experimentais, observacionais, tranversais, longitudinais e por amostragem) mostram muito claramente os benefícios de um estado de felicidade. Pessoas felizes constroem amizades mais fortes e íntimas, são mais satisfeitas em suas vidas românticas, dormem melhor, são mais criativas, têm maior sucesso no trabalho, são mais generosas e altruístas… Parece bom, não? De fato, as pessoas organizam suas vidas em torno do objetivo de ser feliz.

Pagliacci EditedOrganizam de tal modo, que a expectativa pela busca da felicidade se torna até obsessiva. Em muitos países (EUA e Brasil fazem parte disso) há até uma pressão cultural para ser feliz. Se formos na Amazon.com e digitarmos “happiness”, mais de 100 mil livros aparecem com a palavra no título. Nos EUA, há até cursos superiores de “happiness coaching” (‘treinador de felicidade’). No Brasil… hã, no Brasil “o importante é ser feliz”, não importa a desgraça acontecendo ao redor. Me anestesio de felicidade e está tudo ok!

Baseado nessa cultura tão presente, o grupo de pesquisa da Prof Nicole Savino, da University of Denver, realizou alguns estudos experimentais que tentaram mostrar os efeitos comportamentais e psicológicos dessa pressão por felicidade. Em um deles, mulheres respondiam uma série de questões sobre a valorização da felicidade, e o quão importante é alcançá-la. Através desses questionários, as mulheres foram divididas em dois grupos: Altas e baixas ‘valorizadoras’ da felicidade. E foi observado que, para pessoas sob baixo nível de estresse, quanto maior a valorização da felicidade, menor eram as pontuações nos questionários que mediam equilíbrio hedônico, bem-estar psicológico, satisfação com a vida, e maior eram os sintomas depressivos. Sugerindo que a maior valorização da felicidade não necessariamente está ligada com mais felicidade, ou mesmo com sua obtenção.

No segundo estudo, mulheres eram apresentadas a uma notícia de jornal ‘falsa’ sobre os benefícios da felicidade, para induzir uma valorização desta; ou eram apresentadas à mesma notícia, mas com as menções à felicidade trocadas por “fazer um julgamento preciso”. Esses dois grupos de mulheres foram então apresentados a um vídeo que provocava emoções positivas ou negativas. Os pesquisadores observaram que as mulheres que foram induzidas a ‘valorizar a felicidade’ e foram apresentadas ao vídeo positivo, relataram menor defrutamento ou divertimento com o vídeo. Ou seja, quando induzidas a valorizar a felicidade se tornaram menos capazes de gozar de eventos positivos.

Além desses estudos experimentais, um estudo clínico de 2010 sobre veteranos de guerra com transtorno de estresse pós-traumático mostrou que veteranos que são mais centrados na importância e tentativa (e expectativa) de recuperação emocional, independente de ter desenvolvido o transtorno, relatam menor bem-estar e menor auto-estima.

Essas evidências remontam ao chamado Paradoxo do Hedonismo, conceituado pelo utilitarista Henry Sidgwick no século XVIII. Em seu livro  “The Method of Ethics”, ele diz que a felicidade é um fenômeno que não obedece princípios normais. Ela não pode ser adquirida diretamente, apenas indiretamente. Muitos filósofos, artistas e cientistas escreveram sobre o Paradoxo do hedonismo. Um deles, autor da frase “É a própria procura da felicidade que frustra a felicidade em si”, título deste post, foi o renomado psiquiatra e neurologista judeu Viktor Frankl.

Não sei se esses estudos os fizeram pensar sobre o que é a felicidade e como consegui-la. Não paro de pensar sobre isso em minha vida. Com certeza há várias interpretações para o que seria felicidade ou o que leva à ela. De qualquer forma, espero poder escrever mais sobre ela futuramente.

“Não há um caminho para a felicidade. A felicidade é um caminho”

-Sidarta Gautama

Referências

Mauss, I. B., Tamir, M., Anderson, C. L., & Savino, N. S. (in press). Can seeking happiness make people unhappy? Paradoxical effects of valuing happiness. Emotion

Kashdan, T.B., Breen, W.E., & Julian, T. (2010). Everyday strivings in combat veterans with posttraumatic stress disorder: Problems arise when avoidance and emotion regulation dominate.Behavior Therapy, 41, 350-363.

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Publicado em Ciência, Cultura, Emoção por Cesar A O Coelho. Marque Link Permanente.

Sobre Cesar A O Coelho

Bacharel em Biologia pela UNESP, Botucatu (a gloriosa!), e mestrando em Psicobiologia pela UNIFESP, São Paulo. Apaixonado por neurociências desde o colégio, venceu sua aversão à maior cidade do Brasil para trilhar seu sonhado caminho. Iniciado nas neurociências com o estudo do comportamento animal, hoje estuda memória emocional e sistemas de memória. Sonha em investigar seu objeto de estudo com a maior quantidade de perspectivas possível, cercá-lo por todos os lados. E tenta se cercar dessas ferramentas (perspectivas) ou pessoas que as possuem. “Doido”, como é chamado pelos amigos, é portador de expressões…peculiares (p****ta véio!), muita empolgação e uma mania de tentar ver tudo em seu significado mais abragente (é até chato às vezes). De um jogo de RPG a uma balada, de uma dança de forró a uma discussão científica, de uma reunião científica a uma manifestação política, admira a reunião de pessoas em prol de um mesmo objetivo.

11 respostas em “É a procura da felicidade que frustra a felicidade em si!

  1. Pingback: A procura da felicidade versus A procura do propósito de Viktor Frankl | Instituto Geist

  2. Pingback: A procura da felicidade vs A procura do propósito de Viktor Frankl | Prisma Científico

  3. A felicidade, assim como qualquer outro sentimento, é uma coisa passageira. Basear sua vida em algo tão fugaz o torna muito mais frágil a pequenas derrotas e sem motivação para buscar novos caminhos.
    O próprio Frankl dizia que o importante na vida é ter um objetivo, algo a ser realizado, um significado (“meaning”). Essa busca, diferentemente da felicidade, é algo duradouro que une tanto o passado, o presente e o futuro.

    Segue o link para um texto (em inglês) muito interessante que fala tanto sobre a experiência vivida pelo Viktor Frankl em um campo de concentração nazista que o inspirou a escrever seu livro “Man’s Search for Meaning” (A procura do homem por sentido) quanto trabalhos recentes sobre esse mesmo tema

    http://www.theatlantic.com/health/archive/2013/01/theres-more-to-life-than-being-happy/266805/#.UO4mTDMmBSU.facebook

    “It is a characteristic of the American culture that, again and again, one is commanded and ordered to ‘be happy.’ But happiness cannot be pursued; it must ensue. One must have a reason to ‘be happy.'”

    • João,

      O texto sobre o Viktor Frankl é uma boa continuação (e expensão) deste texto. Já havia lido e me baseado no livro do Viktor Frankl para escrever uma segunda parte dele.

      Abraço,

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