Falácias de mesa de bar

A primeira cerveja gelada desce na mesa de um bar onde você e seus amigos resolveram se desligar um pouco das batalhas diárias que travam em suas vidas atribuladas. Todos estão tranquilos. Futebol, literatura e outros tipos de entretenimento estão sendo discutidos. Rola um elogio ao novo volante vindo das divisões de base, uma brincadeira com o jeito alegre de jogar do time adversário e um comentário pertinente sobre a escrita de tal autor. Até a quarta cerveja, já fria, o assunto vai fluindo, outros tópicos entram em discussão, como o novo álbum de um cantor de MPB que não ficou tão bom assim, aquele livro com piadas inteligentes que todo mundo deveria ter lido ou os supostamente belos filmes daquele diretor dinamarquês com um significado muito mais profundo do que apenas mutilação de genitálias e planetas se chocando. Aí lá para a sétima ou décima quinta cerveja, já nem tão geladas assim, o papo passa a ser menos criterioso, seja você estudante, profissional ou professor, as maiores besteiras vão escapar da sua boca. Você sabe do que estou falando, você já esteve nessa situação. E daqui para frente a discussão vai ficar ainda mais espinhosa.

collegesenior

“Hum, a discussão está tão leve e descontraída… É hora de animar as coisas.”

E é lá na vigésima cerveja que, do nada, o teor da conversa muda. Algum gatilho inesperado acaba por disparar – no momento etílico menos propício – discussões acaloradas sobre os temas mais polêmicos! O futebol traz à tona o assunto sobre homofobia, o filme western do diretor pop acaba trazendo o debate sobre as cotas, aquele outro filme traz a discussão sobre a veracidade e complexidade de um transtorno mental, já o seriado do assassino o tema da pena de morte e por aí vai. Política, religião, filosofia e outros tantos temas delicados são intercalados sob a análise fervorosa, mas pouco cuidadosa de intelectuais ébrios. E como não poderia deixar de ser, nessas discussões surgem inúmeras falácias.

"Eu gosto muito! Tchu tchu tchu pá!"

“Eu gosto muito! Tchu tchu tchu pá!” (Ctrl+botão esquerdo do mouse para ampliar)

Falácias são argumentos inconsistentes baseados em erros lógicos, que normalmente são usados para persuadir alguém. Comumente tendem a parecer bem críveis, mas quando a sua lógica escusa é confrontada diretamente, tendem a ruir como a frágil linha de raciocínio que são. Mesmo automaticamente, possuímos uma grande tendência a acreditar em falácias, nada anormal, mesmo quando estas são produzidas por nós mesmos, inconscientemente, algo que podemos chamar de “vieses cognitivos”. Em um nível pessoal as falácias tendem a ser deletérias – apesar de evolutivamente necessárias – já em um debate, são apenas fogos de artifício usados para atordoar e confundir os que estão discutindo e/ou apreciando o debate.

Quando um argumento falacioso surge, nem sempre pedir por evidências ou pontuar a falácia faz com que seus efeitos desapareçam da discussão, por isso, outras estratégias podem ser tomadas. Aqui neste texto vou abordar as falácias mais comuns, e, talvez, em um próximo possamos discutir falácias mais difíceis de notar.

Os exemplos são fictícios.

1)    Argumento Ad hominem

Uma das falácias mais comuns na mesa de bar, nos comentários da internet e, inclusive, no mundo acadêmico! Também chamada de “Ataque pessoal”, consiste basicamente em atacar diretamente a pessoa que apresentou um argumento – não confrontando as premissas trazidas no argumento em si – com a intenção de desfavorecer o argumento.

Existem três tipos de ataque ad hominem, o primeiro é o abusivo, quando o ataque é direto à pessoa que fez o argumento. O segundo é o circunstancial, onde o autor da falácia acusa as circunstâncias em que o argumento foi feito, é o famoso “veneno”. O terceiro se chama tu quoque (“E você também!” em latim) e, basicamente, é um argumento que visa fazer com que o outro pareça um hipócrita, questionando e acusando a partir de ações passadas ou atuais que possam contradizer o argumento.

Vale notar que apenas xingar alguém durante uma discussão não é necessariamente uma falácia ad hominem, pois não desmerece o argumento da pessoa ao fazê-lo, então tá liberado (não, brincadeira, não tá).

 Estrutura da falácia:

1. Pessoa A traz o argumento X.

2. Pessoa B ataca diretamente a pessoa A.

3. Sendo assim, o argumento X é falso.

Exemplos:

“Você critica essa teoria não-científica, mas isso se deve ao fato de sua cabeça ser muito fechada.” (abusivo)

“Você pode argumentar até em favor dos experimentos utilizando esse método, mas é óbvio que apenas o faz porque trabalha com isso!” (circunstancial)

“Se você acha o ensino nas escolas brasileiras ruim, por que não larga a universidade particular em que está dando aula e vai ensinar em colégio público?” (tu quoque)

Como lidar com ela:

A saída é identificar o ataque e mostrar que ele é apenas uma tentativa furada de desmerecer o argumento e que as premissas apresentadas não são desfeitas apenas por ataques diretos ou mesmo indiretos, mas sim por outros argumentos, contanto que estes sejam consistentes.

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2)    Argumento da autoridade

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É comprovado cientificamente que este argumento é bastante usado no mundo inteiro, não só em discussões no fechar das portas dos bares, mas como também na publicidade, nas salas de aula, na política etc. Eu sei, eu fiz a pesquisa para verificar.

Sendo assim, nove entre cada dez dentistas sugerem que você não o use, pois o argumento da autoridade acrescenta muito pouco a um argumento, sendo apenas uma tentativa de impor as suas premissas “na tora!” (i.e.: à força, em baianês).

Bom, essa introdução é por si só, um exemplo…

Estrutura da falácia:

  1. Pessoa A é (ou acredita-se ser) uma autoridade em um assunto Z.
  2. Pessoa A argumenta X sobre o assunto Z.
  3. Logo, X é verdade.

Exemplo:

“O autor X em 1990, antes de morrer, escreveu um artigo indo de encontro a isso e ele é um dos maiores nomes desta outra linha teórica da psicologia (1 hit!), além disso, veja bem, nosso orientador também defende essa ideia (2 hits!!). Sem falar que você é biólogo, eu que sou psicólogo posso te garantir que ela tá certa (3 hits!!!)…”

Como lidar com ela:

Primeiro, como sempre, é necessário identificar a falácia. Pedir evidências é ótimo, mas… Estamos na mesa do bar, não é? Logo, o jeito é sempre se perguntar se há consenso entre os especialistas e, claro, apresentar que há a necessidade de um argumento bem estruturado para que ele possa ser considerado verdadeiro e não apenas nomes importantes. Só porque uma autoridade faz uma assunção, não significa dizer que ela esta certa. Só porque o seu orientador gosta de tal análise estatística e a faz há anos (tradição também é autoridade), não significa que é a melhor. Só porque um famoso teórico disse há anos que algo está errado em um campo concorrente de sua teoria, não significa dizer que ele realmente estaria preparado para argumentar com propriedade sobre o assunto.  (C-C-C-C-COMBO BREAKER!!!)

3)    Evidência anedótica

É o velho “aconteceu com um amigo de um amigo meu…”. A evidência anedótica é a generalização exacerbada a partir de “contos informais”. É o testemunho.

A evidência anedótica limita uma discussão, quanto maior a tendência para a generalização de um certo caso, mais difícil de argumentar contra ele. Na evidência anedótica há a tendência a “escolher as cerejas”, ou seja, apresentar os casos (normalmente apresenta-se poucos casos) que satisfaçam a argumentação proposta, tudo isso, com uma pitada imensa de tendência para a confirmação, um viés cognitivo que é uma tendência natural a se relevar apenas o que positivamente confirma as próprias crenças.

Estrutura:

  1. A amostra N, enviesada, é tirada da população P.
  2. A conclusão C sobre P é tirada a partir de pequenas observações de N.

Exemplo:

“É óbvio que tratamento não-científico X funciona, minha avó mesmo viveu até os 87 anos só com esse tipo de tratamento.”

“Eu acho tal política de inclusão ruim, teve um aluno em minha faculdade que entrou por causa dela e tinha dificuldades em acompanhar os outros.”

Como lidar com ela:

A evidência anedótica é difícil de confrontar, pois a própria existência dela se baseia em uma generalização e forte crença da pessoa que a utiliza, logo, dificilmente maleável. Todavia, é sempre bom lembrar para o outro que não é porque um aluno não conseguiu acompanhar uma turma que uma política de inclusão inteira não funcione (afinal, ele não é o único representante da política e, provavelmente, não é o único com dificuldades em toda a turma), não é porque a análise ou terapia X funcione com uma pessoa que realmente seja válida, real e mereça continuar sendo utilizada e por aí vai. O argumento contra a evidência anedótica é até simples, “falta observação, falta N”.

"A psicanálise funcionou com o Brian e... Ah, sim, ele é um cachorro falante, mas isso importa?."

“Meu cachorro fala, seu argumento é inválido.”

Sei que quando você estiver na mesa de bar, após uma grade (ou engradado? Sei lá) de cervejas, dificilmente vai se lembrar desse texto (eu mesmo sempre esqueço os argumentos básicos contra as falácias e acabo mandando o velho “Ah, colé! Cê vai mandar essa? Para!”) mas vale a tentativa. Caso gostem, outros textos com mais falácias surgirão no futuro. E, lembrando, o mais importante de tudo nem é saber desmascarar as falácias dos argumentos de outras pessoas, mas sim aprender a prestar atenção no próprio argumento e avaliá-lo de forma criteriosa a fim de não utilizar lógicas falaciosas, pois além de pouco honestas, quando bem desmascaradas, tendem a ser um belo tiro no pé.

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3 respostas em “Falácias de mesa de bar

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