A vida no Limbo

Todos aqueles que um dia optaram por seguir o fluxo normal da pós-graduação (Mestrado, Doutorado, Pós-Doutorado, etc.) provavelmente sabem dos momentos críticos que cada fase possui. No entanto, uma coisa inerente a todas elas são as famosas fases do limbo. Uma menção ao limbo da Igreja Católica, e que se refere ao lugar em que estão as almas de crianças que não se purificaram do pecado original (não batizadas), ou almas de pecadores que aguardam permissão divina para entrar no céu.Image

Essa é uma boa analogia para a fase da pós-graduação que corresponde ao momento de transição entre uma etapa e outra, na qual você não é, por exemplo, mais mestrando, mas também não é um doutorando.

Alguns conseguem passar por essa fase mais tranquilamente, pois seu novo projeto de pesquisa é basicamente uma ampliação ou aprofundamento da pesquisa anterior. Nesse caso, as coisas foram formadas com calma, pensadas ao longo da execução de seu antigo trabalho. Entretanto, algumas pessoas optam por trocar de orientador, mudar sua linha de pesquisa ou modificar completamente seu projeto.  Este caminho é um pouco mais pedregoso que o anterior e também um pouco mais complexo de ser percorrido.

Como todo momento de mudança, nesta fase de transição há muita incerteza, questionamento, medo, ansiedade, pensamentos de desistência. O que vou fazer? Minha bolsa acabou? Volto para minha casa? Continuo na pós-graduação ou vou ganhar dinheiro? Será que é isto que quero pra minha vida?

Todos esses e muitos outros questionamentos surgem. Mas, quando bem enfrentado, provavelmente se conseguirá um bom projeto de pesquisa que forneça motivação suficiente para se trabalhar mais alguns anos.

Na realidade, a grande maioria das vezes as melhores perguntas de pesquisas são encubadas ao longo dos anos, sendo alimentadas aos poucos. Isso os aprimora até que exista maturidade, tempo e condições de ele ser executado. E qual pesquisador que nunca elucubrou sobre algo que deseja explorar? Quem nunca passou tempos e tempos pensando sobre algo que se interessa e quem sabe um dia pesquisar este tema? Além disso, que pesquisador que já cessou toda sua curiosidade e pesquisou tudo que gostaria e já sabe tudo sobre o que ele tem interesse? Provavelmente este pesquisador ou está morto ou no trabalho errado.

Há pouco tempo li um texto intitulado “How to choose a good scientific problem” de Uri Alon e publicado no periódico Mollecular Cell em 20091. O autor comenta que não devemos nos comprometer com um problema científico antes de 3 meses. E ele postulou isso como uma regra em seu laboratório. Esse momento serviria exatamente para podermos maturar, estudar e conhecer melhor o problema que estamos nos dispondo a estudar por vários anos.

Neste texto o autor também plota os problemas científicos em um gráfico em que o eixo x corresponde à dificuldade de se executar o projeto e o eixo y o ganho de conhecimento para a comunidade científica que o trabalho traz. Para aqueles que estão no começo de sua carreira científica como pesquisador, seu primeiro problema deve ser facilmente praticável, mas também tem provavelmente produzirá pouco ganho no conhecimento científico. No caso de um pós-doutorado, fácil de ser executado, devido ao tempo reduzido para isso, mas com grande ganho no conhecimento científico.

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Enfim, por mais difícil que seja se viver este momento de incertezas, o que resta é ter paciência suficiente para poder não surtar durante essa fase (o que é muito fácil por sinal). Portanto, vá viver essa fase, conversar, discutir, refletir, mas também vá tocar um violão, ver um filme, ler um livro, ouvir uma música nova, fazer ciência em um bar e de maneira informal. Até porque o caminho para se definir um novo projeto nunca segue uma linha reta como o próprio Alon comenta em seu texto, mas sim uma rota cheia de voltas e passando por um momento “nublado”, mas que é perfeitamente superável.

 

 

1 – Alon, U. How To Choose a Good Scientific Problem.  Molecular Cell, Volume 35, Issue 6, 726-728, 24 September 2009.

http://download.cell.com/molecular-cell/pdf/PIIS1097276509006418.pdf?intermediate=true

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3 respostas em “A vida no Limbo

  1. Pingback: Seu trabalho não será aceito pela Nature | Prisma Científico

  2. Inacreditável!!!!!!!!!!!!! Parece que esse texto foi escrito para mim!!! Estou há muito tempo no limbo… É extremamente difícil… Espero conseguir sair disso… Enfim… Pelo menos, agora eu tomei consciência de que não sou a única.

    • É uma fase complicada mesmo Angela, e com certeza você não é a única (eu também estou)…Mas, mais cedo ou mais tarde, acabamos saindo dela!

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