Eu saí do país e pretendo sair novamente! O vai e vem dos cientistas!

Vou contar uma experiência pessoal com o intuito de tentar ajudar quem, logo mais ou logo menos, vai acabar pensando na possibilidade de sair do Brasil para aprender como se faz ciência em um outro país. No meu caso, um mix de boas indicações, muito trabalho árduo e pitadas substanciais de sorte transformaram meus estágios no exterior em algo mais frutífero do que muitos momentos da minha vida acadêmica no Brasil. Claro que nem sempre é assim, mas talvez o primeiro passo rumo ao sucesso é fazer as escolhas certas.

Downtown, Winston Salem, NC, USA

Eu saí em 2010 para fazer um doutorado sanduíche de um ano de duração nos Estados Unidos. Fui para uma pequena cidade da Carolina do Norte chamada Winston Salem, estudar e trabalhar na Wake Forest University. Desde que me matriculei no doutorado (em 2008), já havia planejado um projeto que incorporava esse ano fora do país para aprender uma técnica de eletrofisiologia chamada Patch Clamp (minha paixão e que guia, até hoje, meus experimentos, ideias e carreira). E aí vai a primeira dica: planeje a saída do Brasil o quanto antes para que você consiga cumprir com prazos.

Naquela época eu não sabia exatamente o que queria (não que eu realmente saiba agora, mas estou melhorando!). Escolhi um laboratório por alguns motivos básicos e fundamentais: 1) o professor de lá tinha muito bem estabelecida a técnica que eu queria aprender; 2) eu tinha indicações que esse professor seria um bom mentor e não um ditador científico; 3) o laboratório ficava em uma cidade relativamente barata de se viver, afinal ninguém quer sair do próprio país para “passar perrengue” internacional; e 4) o inglês. Na época não sabia o quão importante seriam esses 4 itens na procura do meu estágio no exterior. Hoje, tenho certeza que fizeram parte do sucesso que obtive.

Não que eu ache essencial a saída do Brasil para que a formação de um pós-graduando seja completa. No entanto, acredito que a oportunidade de conviver com uma cultura científica bem diferente da nossa pode dar a um doutorando ou a um postdoc a oportunidade de saltar para patamares de destaque na comunidade científica internacional mais rapidamente. Meu exemplo: eu não teria desenvolvido os resultados e não teria alcançado uma publicação importante de maneira tão rápida, eu também não teria desenvolvido uma colaboração científica com laboratórios internacionais. Atualmente, eu não teria a oportunidade de retornar ao laboratório desses pesquisadores para realizar experimentos do meu postdoc, eu não teria as cartas de recomendação que, hoje, estão me levando a conseguir posições importantes de postdoc no exterior, e por aí vai!

Vocês podem ter notado no parágrafo anterior que eu ressalto a saída do país para doutorandos e postdocs. Queria deixar registrado aqui que não sou a favor da saída indiscriminada de alunos de graduação e até de mestrandos que as agências de fomento brasileiras vem suportando. A maturidade pessoal e profissional são fundamentais para o bom aproveitamento do estágio no exterior. Além disso, um estágio completo não se faz em menos de 6 meses. Ao meu ver, 1 ano é realmente a melhor escolha. Também não concordo com os valores das bolsas dos estágios no exterior, mas isso é assunto para um outro post.

Saudade do Brasil!Confesso que não é fácil sair do próprio país. Mesmo tendo experiências profissionais e pessoais excelentes, convivi com uma grande dificuldade de me distanciar de amigos e família. E esse medo da saudade ainda existe. Por outro lado, é fenomenal ter a oportunidade de criar uma nova rede de amigos, muitos dos quais passam a ser sua família internacional. No âmbito pessoal, são dois lados que se compensam. A minha dica em relacão a isso é ser aberto a diferentes tipos de relacionamentos. As pessoas de lá têm uma cultura bem diferente. Não vá pensando que os estilos de amizade e relações serão as mesmas que você tem aqui no Brasil, você não estará no Brasil. Abra a mente para novas experiências de relações interpessoais também.

Escolha os motivos certos que te levem a sair do Brasil. Em dezembro de 2012, a revista Nature Biotechnology publicou um artigo a respeito de pesquisadores estrangeiros nos 16 países que dominam o maior número de publicações (o que inclui o Brasil) em 4 áreas de conhecimento: ciências biológica, química, de materiais e da Terra/ambiente. Os cientistas estrangeiros de cada país foram questionados a respeito de 14 diferentes razões que os levaram a trabalhar no país que estavam trabalhando. Como se pode ver no gráfico abaixo, as três principais razões que levaram esses cientistas a sair dos seus países de origem foram: oportunidade de melhorar a prospecção futura da carreira, oportunidade de trabalhar com grupos de pesquisa de alto reconhecimento e o prestígio que o país nativo desses pesquisadores dá a instituições estrangeiras. Confesso que eu me enquadro bem nessas escolhas e digo mais, talvez esses sejam motivos reais e fortes o suficiente para fazer com que você procure uma instituição no exterior. Na minha opinião, buscar um motivo muito diferente desses pode aumentar as chances de frustrações.

Factors influencing emigration for postdoc, employment or academic job.

Não quero me alongar mais sobre o tema mas, para você que se interessou, deixe comentários ou dúvidas que podemos continuar uma discussão neste tópico. Para quem se encantou, é só começar a arrumar as malas.

REFERÊNCIA:

Franzoni C, Scellato G, Stephan P. Foreign-born scientists: mobility patterns for 16 countries. Nature Biotechnology. 2012; 30(12): 1250-1253.

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7 respostas em “Eu saí do país e pretendo sair novamente! O vai e vem dos cientistas!

  1. Pingback: Quais fatores predizem o sucesso na carreira científica? | Prisma Científico

  2. Nossa… sou geóloga e estou aqui no Japão fazendo um estágio e concordo plenamente com o que a Paola Guimarães citou… esse problema de “RH” é f…! É incrível… eu posso dizer que em um mês fiz mais do que em um ano de mestrado inteiro. Não porque eu sou preguiçosa, mas por falta de orientação e de cobrança. Tentava falar com meu orientador e meus colegas mas todos eram “muito ocupados”, não tinha como coletar mais amostras e etc. Enfim… é uma pena, pois as universidades brasileiras (ao menos em geologia) têm tudo mas não vão pra frente…

    • Obrigada pelo comentário. Parece que os problemas de organização, orientação são em todas as áreas mesmo. Quem sabe quando nós mesmas, por exemplo, assumirmos a liderança de laboratórios no Brasil, mudaremos isso… 🙂

  3. Pingback: Prisma Entrevista: Pesquisadores no exterior | Prisma Científico

  4. Ótimo post, adorei! Isso mesmo ; )
    Ainda gostaria de salientar que, no meu caso q estou em Berlin há quase 1 mês (pouco, eu sei, mas já trabalhando horrores!), o laboratório em q estou no Brasil não perde em quase nada, exceto por “RH” basicamente: falta de organização, responsabilidade e sinceridade de muitas pessoas, além de procrastinação em excesso. Sem falar na demora em chegar reagentes, fato q se torna um grande gargalo.
    Então, aproveitem também a oportunidade de trabalhar aí mesmo no Brasil, somos MUITO bons na bancada, incrível isso rs!
    Beijos!!!!

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