A vontade de viajar e o gene da migração

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Se você é uma daquelas pessoas que não param quietas, que aproveitam qualquer feriado para colocar a mochila nas costas e pegar a estrada, ou que adoram e buscam sempre conhecer lugares novos, provavelmente escolheria a primeira opção, não é mesmo?

Alguns estudos mostram que essa vontade de explorar o novo, de se arriscar e abraçar mudanças podem estar relacionadas com uma variante do gene D4DR, que codifica o receptor D4 da dopamina.

A dopamina, um dos neurotransmissores mais importantes do nosso sistema nervoso, está associada a diversas funções como prazer, motivação, humor, aprendizagem entre outras. As técnicas modernas de biologia molecular permitiram conhecer, até o presente momento, cinco tipos de receptores dopaminérgicos: D1, D2, D3, D4 e D5.

Comparado aos outros receptores de dopamina, os genes que codificam para o receptor D4 são aqueles que apresentam um maior número de polimorfismos, ou seja, uma variação fenotípica que pode ser separada em classes distintas e bem definidas como, por exemplo, ser destro ou canhoto. As implicações comportamentais resultantes dessas variações ainda não são bem conhecidas. No entanto, existem evidências de que o polimorfismo do DRD4 esteja associado a patologias como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e comportamentos de tomada de risco. Além disso, existe uma associação de determinados agonistas dopaminérgicos com aumento do comportamento exploratório em roedores.

Os mecanismos envolvidos com a variante DRD4 ainda não são totalmente conhecidos, mas acredita-se que o polimorfismo esteja associado à produção de receptores de diferentes tamanhos, o que faz com que moléculas estruturalmente semelhantes à dopamina se liguem a eles.

Uma das coisas que mais chamam a atenção para essa variante especificamente, é a sua prevalência entre populações. Enquanto, as populações mais sedentárias que permanecem próximas as suas origens como alguns grupos do leste asiáticos apresentam baixa prevalência deste polimorfismo, as populações que migraram pra longe de suas origens como povos ameríndios possuem alta prevalência. Além disso, também foi observado que populações nômades possuem alta prevalência deste polimorfismo.

A baixa prevalência deste polimorfismo no continente africano levou diversos pesquisadores a acreditar que os primeiros grupos migratórios que saíram da África para povoar os outros continentes podem ter carregado esse polimorfismo em seus genomas. E por isso, o gene DRD4 começou a ser conhecido como o gene da migração.

Mapa da Migração Humana

Mapa da Migração Humana

Embora, esses dados mostrem haver uma forte associação entre o gene DRD4 e sua prevalência em grupos nômades, a relação causal entre os dois ainda não está bem esclarecida. Ou seja, uma das causas de ancestrais dos grupos migratórios pode ter sido essas pessoas migraram por causa de sua personalidade e outras consequências comportamentais da variante do gene DRD4. Obviamente, os fatores ambientais devem ter exercido uma pressão muito maior para que os seres humanos saíssem de seu lugar origem, mas mesmo assim, o impacto comportamental associado ao gene em questão também não deve ser descartado.

Acredita-se que cerca de 20% da população mundial tenha esse polimorfismo. Diante de tudo que foi discutido, é possível que as pessoas com esse polimorfismo sejam mais inquietas e propensas a abraçar aventuras, ideias e novas culturas com maior facilidade. O que poderia explicar porque essas pessoas e Amyr Klink gostam tanto de viajar!

- Amyr Klink

Amyr Klink

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”. (Amyr Klink)

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Referências:

Chen C. et al. Population migration and the variation of dopamine D4 receptor (DRD4) allele frequencies around the globe. Evolution and Human Behavior 20: 309–324 (1999).

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4 respostas em “A vontade de viajar e o gene da migração

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