Seu trabalho não será aceito pela Nature

Rejeitado

É isso mesmo, seu trabalho não será aceito pela Nature. “Ah, mas eu não quero publicar na Nature mesmo, eu quero a Science”. Tampouco a Science aceitará ele. “Mas esses dois não são os únicos com índice de impacto alto, eu mando meu trabalho pra Neuron”. Não! Nem Neuron, Cell, Lancet ou JAMA, nenhum deles aceitará seu trabalho, sabe por quê? Seu trabalho não é tão bom assim.

Aposto que na sua cabeça o mimimi já começou: ”Eu já ganhei vários prêmios com meu trabalho em congressos nacionais, tá bom?!” ou “Desde quando esse moleque ai sabe alguma coisa sobre publicação” e até mesmo “Eu sempre fui o melhor da minha sala no colégio/faculdade, eu sou esperto”. Pense o que quiser, mas isso não muda o fato de que você não irá publicar em uma revista de alto impacto.

Analise de onde saíram os últimos trabalhos publicados nessas revistas. Apesar do domínio norte americano, países como Inglaterra, Holanda, França e Japão também contribuem fortemente para o avanço da ciência. E você, aqui no Brasil, onde os equipamentos não são da melhor qualidade, o incentivo à pesquisa é uma piada maior do que a do português e o papagaio e a visibilidade internacional ainda está muito longe de ser significativa. Você ainda quer argumentar que seu trabalho vai pra Nature? Poupe-se do esforço.

Criança gênioAh, mas eu me esqueci de que você é especial! Você sempre foi o melhor da sua turma. Não tinha pra ninguém quando se tratava de pintar usando o dedo no jardim de infância e quem dirá na resolução de cálculos estequiométricos ou interpretação das teorias lacanianas na faculdade. Se você acha que é a última batata do pacote, sugiro que dê uma olhada no currículo dos atuais premiados com uma bolsa de auxílio para desenvolverem sua pesquisa tanto em Harvard quanto em Stanford. Pois é amigão, o buraco é muito mais embaixo.

Tudo bem, tudo bem, você não trabalha no melhor laboratório e nem é “o(a) cara” da sua área, mas sua pesquisa é muito boa, certo? Errado. A TWAS, uma instituição internacional com o objetivo de promover o desenvolvimento e capacitação científica de países em desenvolvimento premia anualmente os melhores trabalhos, inclusive alguns brasileiros já foram premiados. O seu já foi?

Se sentindo mal depois de ler isso tudo? Se sua resposta foi sim fico feliz, não fui o único.

Uma das piores partes da vida científica pra mim é quando tento me atualizar com as novas descobertas na minha área. Percebo que existe um abismo enorme entre o que eu faço e o que os grandes pesquisadores fazem. Às vezes na minha cabeça tento criar asas imaginárias que me transportariam facilmente para onde eles estão. Tento convencer a mim mesmo que sou melhor do que penso ou de que um professor importante um dia olhará para o meu trabalho e decidirá me chamar pra trabalhar com ele. Isso pode até aliviar, mas não é o que decide se chegarei lá ou não.

Abismo

Entre o lugar que estamos e aquele que almejamos existe apenas uma ponte. Essa ponte é frágil e pode cair a qualquer momento, e sabe qual o segredo de atravessar ela? Resiliência.

Resiliência é uma palavra derivada do latim que significa “pular para trás” ou “voltar a seu estado natural”. Na Física essa palavra é utilizada para designar uma propriedade natural a objetos elásticos de retornar a sua forma original após sofrer algum tipo de tensão. Nas ciências humanas, ser resiliente significa ser capaz de retornar a seu equilíbrio emocional após a vivência de situações estressantes. Não é difícil encontrar situações do nosso cotidiano que geram estresse, sejam eles grandes ou pequenos: bater de carro, perder uma reunião importante, ser demitido ou perder um ente querido. Nossas ações diante desses eventos é o que definirá o caminho que seguiremos, seja superar o problema e seguir em frente ou ficar remoendo a situação e não ser capaz de enxergar uma saída.

Um estudo analisou a diferença entre pessoas resilientes e não-resilientes. Pessoas que pertencem ao grupo dos resilientes conseguem encarar com mais naturalidade tanto os eventos positivos quanto os negativos do seu dia a dia, enquanto que os não-resilientes supervalorizam as negativas. Pessoas resilientes encaram esses eventos como parte da vida delas, além disso, fazem uso da experiência adquirida tanto nos momentos ruins quanto bons para superar os estresses que possam futuramente aparecer.

Quem vive a vida acadêmica sabe o quão difícil ela é. Somos postos a situações estressantes constantemente (rejeição de um trabalho, dificuldades técnicas nos experimentos, falta de reconhecimento, insatisfação monetária entre outros) e isso desencadeia reações que variam entre as pessoas. Alguns desistem e seguem por novos, e não menos recompensadores, caminhos. Outros, mesmo passando por situações altamente estressantes ainda se mantêm firmes e continuam na batalha. Um exemplo muito claro do que conheço como “seleção natural da ciência”.

Cientista sem estímulo

Nesse contexto, é comum ouvir pessoas dizendo que não são capazes de enfrentar essas situações estressantes porque não tem coragem, frieza ou então não foram feitas pra isso. Apesar de algumas pessoas nascerem com características que as fazem mais resistes ou menos susceptíveis a estresses, a resiliência não é um tipo de aptidão natural, na verdade ela é uma característica adquirida ao longo do tempo como se fosse uma habilidade. Sendo assim, ela pode ser treinada, aprendida e melhorada. As estratégias para desenvolvê-las são simples, aqui vai algumas delas:

Nutrir novas e antigas relações com familiares, amigos ou outras pessoas importantes. Ter o apoio e a opinião de pessoas de confiança ajuda bastante a fortalecer sua autoestima e dar forças para seguir em frente. Já foi provado que crianças que passam por estresses precocemente e não contam com apoio familiar tendem a se tornar adultos mais desamparados e suscetíveis estresses diários.

Evitar encarar os eventos estressantes como situações sem fim. Não podemos controlar tudo a nossa volta, por isso não podemos evitar que problemas ocorram. O que podemos, e devemos fazer, é aceitar que da mesma maneira que os problemas chegam, eles também se vão. (Se fazer isso é difícil pra você, dê uma olhada nesse infográfico pra ter a noção do que o seu dia de hoje representa na linha do tempo da nossa vida).Infográfico

Procure por oportunidades para se conhecer melhor. Muitas vezes não paramos para olhar pra dentro de nós mesmos e observar o quanto mudamos. Um momento de introspecção no meio de uma crise pode ser o suficiente para ver que tudo que precisamos já está dentro de nós. “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta” Carl Jung.

Cuide de si mesmo. Não esqueça de que uma mente sã não funciona com um corpo fraco, e vice-versa. Faça atividades que te fazem relaxar e sentir-se recompensado. Corpo e mente aliados conseguem encarar melhor os problemas.

Então, quando alguém falar pra você que seu trabalho não é bom, seja resiliente. Quando alguém falar que seu laboratório e seu país não são avançados o suficiente pra fazer boa pesquisa, seja resiliente. Quando os problemas se acumularem e você se vir desesperado, seja resiliente.

Lide com o problema, adapte-se, aprenda, evolua e supere-o.

Quem sabe um dia você publica na Nature.

 


Este texto foi inspirado em dois textos anteriores do Prisma:

A vida no limbo
A procura da felicidade vs A procura do propósito de Viktor Frankl

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Bibliografia e referências:

American Psychological Association (APA)

Perrin EC et al. 2013 Promoting the well-being of children whose parents are gay or lesbian Pediatics

Wu G et al. 2013 Understanding resilience Front Behav Neurosci.

Ong AD et al. 2006 Psychological resilience, positive emotions, and successful adaptations to stress in later life J Pers Soc Psychol.

Dweck C 2006 Mindset: The new psychology of success Random House Publishing 

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12 respostas em “Seu trabalho não será aceito pela Nature

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  3. Estimado João, adorei seu post. Mas vale a pena lembrar-se da famosa frase de Oliver Wendell Holmes “Man’s mind, once stretched by a new idea, never regains its original dimensions”. Essas palavras têm um significado especial porque refletem a importância das experiências vividas. Por esse motivo, não deixe sua mente “voltar ao estado normal”.

    • Fala Sergio, achei muito legal essa sua abordagem cara, mas acho que teve apenas uma pequena confusão com o que eu disse, vou tentar esclarecer.

      Voltar ao estado normal quer dizer voltar a um estado de equilíbrio emocional mais sadio que o indivíduo estava antes da situação estressante ocorrer. Ou seja, após a vivência de situações negativas devemos tentar sempre retornar a um estado emocional mais harmônico. No entanto, esta situação vivida não deve ser esquecida nem ignorada, ela deve ser guardada como um aprendizado obtido e que futuramente poderá servir como suporte para que novos obstáculos sejam superados.

      Tomando como base a frase que você utilizou, este aprendizado obtido através da resiliência seria a ideia que que expandiu a mente humana, tornando-a maior e mais abrangente.

  4. O engraçado é que qualquer parte do mundo as pessoas que estão dentro da ciência se sentem do mesmo jeito, com os mesmos tipos de pressão e com as mesmas fraquezas. Sua dica de resiliência vale para toda a comunidade científica. A falta de dinheiro, equipamentos e etc é substituida por outras pressões…

  5. Pingback: Prisma Entrevista: Pesquisadores no exterior | Prisma Científico

  6. O Dotô curtiu muito esse post…ele não acha que um dia vai publicar na Nature, mas tenta ser resiliente! Excelentes colocações! Estamos sempre em busca do auto-conhecimento e parar às vezes para refletir é necessário pra podermos seguir em frente no mundo científico! E em homenagem pra esse clima, dedico uma música: “Take Up Thy Stethoscope And Walk”…não só pras pessoas que lidam com pacientes, mas para todos os profissionais de saúde, que sempre tenham esse discernimento de analisar o papel do seu trabalho para a sociedade! Viajei um pouco agora mas acho uma discussão interessantíssima!

    Saudações, Natália

    • Muito obrigado Juliana.. Temos que estar com a resiliência afiada! Não dá pra saber quando vamos precisar dela de novo.

  7. Eu me pergunto se, de fato, a resiliência existe como qualidade que caracteriza o ser humano. Não seria simplesmente orgulho ou covardia em desistir ou falta de capacidade para enxergar outras opções?

    Será que existe mesmo a opção: “…ficar remoendo a situação e não ser capaz de enxergar uma saída.”? Seria a depressão?
    Por mais que leve tempo, parece-me que a única opção é seguir em frente seja pelo caminho já percorrido ou por outro caminho.

    Então, a resiliência não seria uma medida da maturidade do indivíduo em lidar com as adversidades?

    • Fala Marcio, gostei muito do seu questionamento cara, me fez pensar bastante.

      Em um sentido mais profundo, a resiliência consiste em um conjunto de processos dinâmicos normativos para adaptação às situações de estresse e adversidade. Levando em consideração a variabilidade pessoal e psicológica das pessoas, podemos dizer que o orgulho ou a covardia estejam envolvidos sim, mas possivelmente não são fatores determinantes do comportamento final. Questões como motivação, otimismo e suporte social também podem ter um papel importante na decisão do indivíduo.

      Concordo com você que a única opção é seguir em frente, mas existe uma grande diferença se levamos conosco a negatividade gerada pelo evento ou o aprendizado obtido. Por mais que sigam com suas vidas, pessoas não resilientes superestimam os eventos negativos e tendem a acumular os estresses do dia a dia caso eles ocorram em sequência. Ou seja, eles andam pra frente, mas sempre levando consigo uma âncora que os impede de ir mais longe e de superar problemas futuros.

      Como eu disse, a resiliência é similar a uma habilidade, que se treinada tende a melhorar. Quando pensamos em amadurecimento temos a ideia de uma pessoa que já vivenciou situações favoráveis ou não ao longo de sua vida, no entanto isso por si só não determina como esses eventos foram encarados. Se maturidade for sinônimo de vivência por si só então não é sinônimo de resiliência. No entanto, se maturidade corresponder a aprendizado positivo obtido a partir de eventos ruins ou bons, ai sim podemos associá-la à resiliência.

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