Brilho eterno de um neurônio sem lembrança

Onde as memórias são armazenadas? Será possível apagá-las?

No filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Joel Barish (Jim Carrey) decide esquecer sua ex-namorada, Clementine Kruczynski (Kate Winslet). Ele contrata a empresa Lacuna, Inc. que deleta certas memórias do seu relacionamento, em um processo que busca episódios vividos entre os dois e os “deleta”, resultando em um esquecimento gradativo da ex-namorada. Para quem nunca assistiu esse filme, vale a pena. Você pode até mudar de opinião sobre a capacidade interpretativa do Jim Carrey.

Saindo da ficção, seria possível então localizar certas memórias e apagá-las? Esta pergunta vem sendo feita por cientistas há um bom tempo.karl-lashley-2

Talvez o caso mais famoso pela busca do engrama da memória (grupo de neurônios responsável por uma memória) foi do psicólogo e cientista americano Karl Lashley, em seu estudo “Em busca do engrama” (In search for the engram, 1950). Lashley tentava descobrir onde as memórias estavam armazenadas, realizando lesões em diferentes regiões do córtex cerebral de animais e os submetendo a uma tarefa de labirinto. Quase ao final da sua vida, Lashley afirmou simplesmente que a memória não está localizada em nenhuma parte, e sim distribuída por todo o córtex cerebral. Além disso, afirmou que era simplesmente impossível descobrir o engrama da memória.

No decorrer dos anos, diversos acontecimentos contribuíram para o estudo da memória; com o paciente H.M., que sofria graves crises epilépticas e foi submetido a cirurgia para retirada do lobo temporal medial, foi possível identificar determinadas áreas cerebrais responsáveis pela formação de novas memórias. Além disso, a evolução de técnicas de biologia molecular permitiram encontrar quais neurônios se modificam durante os processos de aprendizagem, pelo processo de plasticidade.

Como então provar que é possível apagar memórias específicas? Partindo do princípio de que os neurônios são os responsáveis pela codificação da aprendizagem, como é possível provar essa teoria?

Uma das maneiras encontradas para realizar isso, foi procurar quais neurônios de fato participariam de uma memória, também chamado de traço de memória. Para isso, cientistas dos EUA e do Canadá realizaram manipulações na amígdala, um região relacionada com memória emocional. Alguns neurônios da amígdala ficaram “turbinados”, a partir do aumento da expressão de uma proteína chamada CREB, que facilitaria a formação do traço de memória nestes neurônios. Dessa maneira, estes neurônios turbinados têm uma maior chance de serem recrutados para participar de uma tarefa de memória emocional.

Mas eles não pararam por aí. Como provar que os neurônios turbinados com a proteína CREB estariam participando da tarefa de memória?. Um caminho seria encontrar algo que diferenciasse esses neurônios dos demais. Para tal, foi utilizada a proteína GFP, que sob certas condições de luz, fica verde. Dessa forma, os neurônios turbinados ficaram verdes, e foi visto uma maior correlação entre os neurônios turbinadaos verdes e um marcador relacionado com a plasticidade neuronal.

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Agora vem a mágica. O que aconteceria se esses neurônios turbinados, responsáveis pela codificação da memória, deixassem de existir? Os cientistas então eliminaram seletivamente somente esses neurônios que haviam sido previamente selecionados para a formação dessa memória emocional. Sensacional! Com isso, a memória da tarefa que havia aprendida, desaparece. Com isso, foi demonstrado então que grupos de neurônios são os responsáveis pela formação do engrama da memória. Se esses neurônios morrem, o traço dessa memória, desaparece!

Claro que ainda há um longo caminho a se percorrer, mas as aplicações dessa técnica são muito importantes para algumas implicações clínicas, como Transtorno de Estresse Pós-traumático, abuso de drogas e por que não pensar em transtornos obsessivos-compulsivos, a se fazer esquecer certos comportamentos?

 

Referências:

http://www.rottentomatoes.com/m/eternal_sunshine_of_the_spotless_mind/

http://psych.stanford.edu/~jlm/pdfs/Lashley50Engram.pdf

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17446403

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3 respostas em “Brilho eterno de um neurônio sem lembrança

  1. É isso aí Felipe, precisamos olhar por um outro ponto de vista. Há um tempo é pensado que a unidade funcional do cérebro não é somente um neurônio, mas um grupo (ensemble) de neurônios. Obrigado pelo comentário. Continue a refratar conosco.

  2. Odeio esses paradigmas mecanicistas…….acho que precisamos olhar para as interações da rede ao invés de neuronios pontuais. talvez o engrama esteja em um nivel diferente daquilo que a gente pensa, uma coisa assim mais sistemica, mas holistica, sei lá.
    Ótimo texto!

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