A inteligência coletiva e as manifestações pelo Brasil

O mês de junho de 2013 foi marcado pelas manifestações que ocorreram por todo o país e mobilizaram milhares de pessoas que foram para rua, inicialmente para protestar contra o aumento das tarifas de transporte público, e posteriormente, em uma nova onda de protestos por reivindicações abrangendo uma série de causas.

Ainda é cedo para saber se foi apenas um espasmo ou esse movimento foi forte o suficiente para se incorporar na vida do brasileiro. Mesmo assim, é indiscutível o fato de estarmos vivendo um momento ímpar na história deste país.

 

Na minha opinião, a característica que mais marcou esse período de manifestações foi a ausência de líderes e consequente descentralização dos protestos. As tentativas de lideranças foram atropeladas pelos manifestantes, fossem elas autoridades, partidos políticos ou intelectuais.

Muitos poderiam considerar a descentralização como algo que enfraqueceria o movimento, uma vez que a falta de um líder ou um grupo de pessoas dizendo o que todos deveriam fazer, poderia levar a desorganização e a falta de foco dos protestos. No entanto, ao longo deste post vou mostrar como essa descentralização pode ser uma característica positiva a fim de cumprir com seu objetivo de forma organizada e eficiente.

Uma das maneiras para se entender a descentralização do movimento é entender como a internet funciona. Todos os computadores estão conectados formando pontos dentro de uma rede. A transmissão de informações é fortemente descentralizada, organizando-se em camadas ou mesmo sistemas paralelos, nos quais um ponto não tem valor acima ou abaixo de outro ponto, todos apresentam o mesmo valor. A centralização da internet funciona como forma de controle em lugares que o governo tem o poder de bloquear o acesso de todos, nesse caso, a rede se torna uma ferramenta extremamente frágil.

A rede

Outra coisa que chama a atenção é que cada vez mais observamos movimentos importantes contemporâneos surgindo da internet ou mesmo utilizando-a como uma ferramenta complementar. As redes sociais, por exemplo, exerceram um papel fundamental tanto aqui no Brasil durante as manifestações como nas revoltas atuais da Líbia e Egito. Uma das possíveis formas para entender melhor como essa interação entre as pessoas funciona dentro da internet, é compreender os comportamentos de grupos de animais como os próprios cardumes.

A vida em grupo é também uma proteção para cada indivíduo, da qual se beneficiam os antílopes africanos, as aves migratórias, os gafanhotos e os peixes de cardumes. Por isso, os porcos-do-mato percorrem a floresta em bandos, com cerca de cem indivíduos, com o intuito de procurar frutos, legumes e talos suculentos para se alimentar. Ninguém os enfrenta, pois são bravos e combativos quando em grupos. Como pode esses indivíduos se organizam e trabalham em cooperação, a fim de realizar tarefas complexas? Essa pergunta é extremamente instigante e tem despertado nos pesquisadores as tentativas de explicar o fenômeno denominado Swarm Intelligence.

A palavra “swarm” refere-se a enxame, cardume, ou qualquer grande agrupamento de indivíduos em movimento. Dessa forma, o termo “Swarm Intelligence” pode ser traduzido como inteligência de enxame ou mesmo inteligência coletiva.

Na robótica, dentro da área da Inteligência Artificial, o termo “Swarm Intelligence” refere-se ao conjunto de metodologias e técnicas inspiradas na “inteligência coletiva” observada em algumas espécies que apresentam uma organização descentralizada como: os insetos sociais (formigas, cupins, abelhas, vespas, etc.), os bandos de pássaros e os cardumes.

De uma forma bem simplificada, essas técnicas são compostas por uma série de algoritmos que tem o objetivo de solucionar problemas de planejamento e otimização de tarefas com base em simulações computacionais. Grande parte do conhecimento adquirido nessa linha é alcançada por meio de modelos matemáticos que podem ser aplicados a diversas áreas do conhecimento como a computação, a biologia, entre outras.

Para entender como isso ocorre na natureza vamos observar o comportamento de busca por alimentos das formigas. Apesar de existir uma hierarquia dentro da colônia, a organização de um formigueiro, por exemplo, ocorre de maneira descentralizada, uma vez que não parece haver evidência de relação de obediência entre os indivíduos que o compõe. As relações ocorrem organicamente, por meio de milhões de interações entre cada indivíduo que exerce determinada função na colônia e exibe uma série de comportamentos relativamente simples, quase que inconscientemente.

Inicialmente, as formigas procuram por alimento de forma randômica, quando encontram o alimento, retornam para colônia deixando uma trilha de feromônios. Se outras formigas encontrarem a trilha, elas deixarão de procurar aleatoriamente e passarão a seguir a trilha, reforçando o caminho caso também encontrem o alimento.

Quando a fonte de alimento é distante do formigueiro, o feromônio do caminho começa a evaporar ao longo do tempo, reduzindo a atração por aquele caminho, ou seja, quanto maior o tempo que a formiga leva para ir até o alimento e retornar a colônia, maior é a probabilidade de o feromônio evaporar nesse meio tempo. Por outro lado, quando o alimento que está a uma distância mais próxima da colônia a trilha de feromônios tem mais chance de ser reforçada por outras formigas.

A inteligência coletiva em formigas

A inteligência coletiva em formigas

Assim como as formigas, os algoritmos simulam a dinâmica de populações de pequenos indivíduos que se comunicam de alguma forma, desenvolvendo uma inteligência coletiva que os permite solucionar problemas com sofisticado grau de complexidade, de forma extremamente eficiente.

Entre os insetos, no entanto, apenas a vida em sociedade pode resolver problemas de planejamento e otimização de tarefas, ao passo que, o valor individual do ser humano é muito maior em virtude do seu potencial de aprender, inventar e se transformar o contexto social em que vive. Enquanto o potencial funcionamento de um formigueiro é relativamente fixo, por causa da limitação individual de cada formiga, a inteligência coletiva humana, resultado de milhões de interações entre os indivíduos que a compõem, pode ter seu potencial variável.

A inteligência coletiva

A inteligência coletiva em humanos

A emergência de uma inteligência com base no coletivo vem se tornando um fenômeno cada vez mais evidente com as tecnologias atuais de comunição, principalmente se tratando da internet. O fato de estarmos conectados em forma de rede, o tempo todo, permite a reverberação das informações em uma velocidade que há 20 anos seria inimaginável.

A inteligência coletiva e otimização de tarefas podem ser observadas na internet a todo o momento. As ferramentas de busca que elencam os conteúdos mais acessados, a categorização de conteúdo usando etiquetas (tags) a fim de organizar a informação, os sistemas de recomendação de sites de compra com base na análise de conteúdo, avaliações de usuários e muitas outras informações, ou mesmo no recrutamento das pessoas para as manifestações mobilizadas pelas redes sociais, são algumas das formas que encontramos para nos organizar para agir em conjunto e assim aperfeiçoar o sistema, tudo isso de maneira descentralizada.

Diante disso tudo podemos entender como a descentralização, presente nas manifestações, funciona e como ela pode ser um tipo de organização eficiente sob diversas perspectivas. E ainda como a ciência pode utilizar esse tipo de organização, observada em diversas situações, no desenvolvimento de sistemas computacionais e aplicação de tecnologias..

Curiosidade: No filme “Guerra Mundial Z” (2013), o diretor suíço-alemão Marc Forster fugiu da caracterização habitual dos filmes de mortos-vivos e apostou no realismo, usando a biologia como fonte para criar zumbis sem feições sangrentas. Ao longo do filme, os zumbis agem como colônias, sempre em bando, como numa inteligência coletiva, comportamento inspirado nas formigas e semelhante ao apresentado neste post. Pra quem gosta do gênero, vale a pena assistir!!

Deixe seus comentários!!

Referências:

The biological principles of swarm intelligence

Foundations of swarm intellingence: from principles to practice

 

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7 respostas em “A inteligência coletiva e as manifestações pelo Brasil

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  5. Suas ligações das manifestações com a internet tem uma lógica muito interessante. Pierre Levy escreveu um livro sobre como o virtual e o real interagem e coexistem, “O que é Virtual?”, pode ajudar no seu raciocínio, além do clássico “Cibercultura”.

    O que mais me chamou a atenção no seu texto foi este trecho:

    “Enquanto o potencial funcionamento de um formigueiro é relativamente fixo, por causa da limitação individual de cada formiga, a inteligência coletiva humana, resultado de milhões de interações entre os indivíduos que a compõem, pode ter seu potencial variável.”

    Pensando nas possíveis variações, e num formigueiro humano, não temos aí uma massa mais facilmente manipulável pelos extremos (seja o de cá ou de lá)? Algumas revelações sobre o Prism me deixaram com uma pulga gigante atrás da orelha sobre a liberdade virtual. Não só pelo fato da espionagem, mas o que um bom estudo sobre os dados coletados poderia dizer sobre como conduzir uma massa para cá ou para lá. Sei lá, não quero viver numa sociedade organizada como um formigueiro.

    • Olá AntimidiaBlog,

      Obrigada por seus comentários!!

      Eu também acho que no momento em que se entende como ocorre o comportamento de grupo até o ponto em que é possível prever suas ações, essa massa pode se tornar facilmente manipulável e isto já foi visto em vários momentos da História.

      Abraços

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