Eu, eu mesmo e o Facebook

Há muitos anos que o homem aprendeu a conviver em sociedade, por exemplo, para que possa promover a sua segurança e subsistência. De acordo com a teoria do desenvolvimento de Piaget, as crianças nascem eminentemente egocêntricas, e com o tempo começam a se adaptar ao convívio com o outro. Entretanto, em uma meta análise de 2008 observou-se um maior traço de personalidade narcisista entre mais de 16 mil jovens [1]. Nesse tipo de personalidade é observado um extremo foco em si, com uma sensação de grandiosidade exagerada e necessidade de atenção.

Até determinado limite, chamado não patológico, essa necessidade de ter atenção e carinho do outro é comum e saudável. Através do convívio social muitas vezes aferimos ou supomos o quão reconhecido somos. Ao recebermos um elogio, por exemplo, devido um bom trabalho bem desempenhado nos sentimos felizes e percebidos uma vez que nosso esforço fora notado.

Por sua vez, o suporte social durante o início da vida adulta já foi associado a um melhor bem estar psicológico (menos sintomas de depressão, raiva e maior auto-estima) [2]. Além disso, indivíduos que percebem maior suporte social da família, amigos ou outras pessoas importantes sentem-se menos solitárias [3]. Enfim, estamos em uma constante troca através de nossas relações sociais, afetando e sendo afetados por ela.

Com a evolução tecnológica das últimas décadas, as formas pelas quais o convívio social se dá foram sofrendo mudanças. Redes sociais como o Orkut, Twitter e Facebook tornaram-se parte ativa do dia-a-dia das pessoas. Ao mesmo tempo, as demandas por atenção e reconhecimento mantiveram-se vivas. Naturalmente a forma como recebemos esses tipos de retornos do outro acabaram se modificando nestes contextos. Curtidas, número de amigos, número de depoimentos e compartilhamentos se tornaram maneiras de se medir a popularidade das pessoas. Assim, consequentemente, é comum atualmente uma inundação de exposições do cotidiano das pessoas nas redes sociais. Algumas exageradas e minimamente questionáveis sobre suas intenções.

andre bedendo

Em um estudo muito interessante sobre a relação de estudantes universitários com o Facebook, Manago e colaboradores avaliaram questões como a relação entre a rede de amigos e a alto estima e percepção de suporte social.

Os autores observaram que o Facebook facilita a formação de redes sociais, entretanto estas relações são mais superficiais. Participantes que apresentavam uma maior rede de amigos relatavam ser mais satisfeitos com a vida e perceber maior suporte social. Entretanto, a grande maioria destes amigos são “superficiais”, ou seja, classificados como conhecidos, não parentes, namorados ou amigos próximos. Ainda nesse sentido, quanto mais os participantes sentiam que recebiam atenção por suas postagens (sendo a grande maioria de conteúdo emocional, ponto chave de acordo com eles nas relações mais íntimas), mais percebiam o Facebook como uma ferramenta útil para se conquistar recursos sociais. De acordo com os autores, o Facebook se tornou uma ferramenta que transforma tanto conhecidos próximos quanto desconhecidos em audiência para sua auto exibição.

Mesmo não explorado neste trabalho, cabe ressaltar a dinâmica geral em que a sociedade se enquadra, o capitalismo. Muitas das nossas atitudes são focadas nas premissas desse sistema econômico. O foco no “ter” favorece cada vez mais essa exibição social (auto exibição como os autores do artigo colocam). O “ter” muitas vezes não faz sentido se não conseguimos plateia para admirá-lo. De que vale ter um Camaro amarelo se ninguém vê que eu tenho ele? Do que vale uma postagem no Facebook se não curtem ou fazem comentários sobre ela.

A questão fundamental é ponderar até onde somos controladores ou controlados por essa necessidade de exibição e até que ponto isso não se torna prejudicial para nossas vidas ou daqueles que nos cercam.

Referências:

[1] http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18507710
[2] http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16569173
[3] http://psycnet.apa.org/psycinfo/2000-08725-006

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