A terapia da meditação – O Mindfulness e a recaída

Apesar dos esforços para um contínuo aprofundamento do conhecimento humano a respeito dele mesmo e das doenças e distúrbios que o afligem, muitos desses problemas ainda se encontram longe de uma terapia com 100% de eficácia.  Em alguns casos, a eficácia perfeita não consiste necessariamente na remissão total do “agente nocivo”, como por exemplo, um tumor ou um distúrbio mental, mas sim numa estabilidade minimamente harmoniosa entre este agente e organismo de forma que o indivíduo em questão consiga viver uma vida saudável. Um bom exemplo dessa situação é a dependência de drogas.

Já virou rotina ouvir histórias de pessoas famosas que, após fazerem uso abusivo de alguma droga são internadas em uma clínica de reabilitação e mesmo após todo o tratamento voltam a usar a droga na primeira oportunidade que lhes aparece. Uma coisa é garantida: essa situação não ocorre só com as celebridades, mas também com a maioria esmagadora daqueles que usaram drogas com um padrão abusivo e buscaram ou foram encaminhados para tratamento. O grande desafio na luta contra a dependência não consiste necessariamente na interrupção do uso das mesmas, mas sim na manutenção do organismo na sua ausência, a chamada abstinência.

O obstáculo muitas vezes encontrado na vida daquela pessoa que procura manter-se abstinente se chama recaída. A recaída é caracterizada como a retomada do uso problemático de drogas ou como um processo de mudança de comportamento após o tratamento.

Ainda hoje, é possível ouvir pessoas dizendo que essa incapacidade de manter-se abstinente não passa de uma falha no caráter ou de uma moral ausente na vida do sujeito. Uma visão totalmente errônea que foi alimentada durante muito tempo pela mídia e pela política. Pesquisas biomédicas e psicológicas na área da dependência já identificaram que esse processo é deflagrado por um desequilíbrio fisiológico e psicológico vivido pelo dependente durante a abstinência. Isso acontece porque as drogas geram mudanças no nosso organismo que fazem com que ele se adapte elas e entenda que essas substâncias se tornaram essenciais para o seu bom funcionamento. Dessa maneira, na sua ausência, o organismo não consegue o equilíbrio para manter-se funcional e, como consequência, diversas reações pouco agradáveis são vivenciadas, que conjugadas são chamadas de síndrome de abstinência.

Dentre os sintomas vivenciados durante a crise de abstinência, aquele que mais tem sido investigado como principal motivador para a recaída é a fissura ou craving. Apesar de ainda não possuir uma definição que abranja toda sua natureza, a fissura pode ser definida como uma experiência subjetiva de um desejo súbito de consumir a droga que invade o pensamento do indivíduo incapacitando-o de focar em outra coisa. As raízes da fissura podem ser atribuídas a fatores biológicos, como atividade de neurotransmissores, tais como dopamina e acetilcolina, em regiões específicas do cérebro; fatores emocionais, que consideram a fissura como uma emoção gerada por outras emoções negativas e estressantes; e a fatores cognitivos que relacionam a fissura aos processamentos mais complexos como memória e expectativa. Todas essas abordagens serviram de embasamento para a criação de terapias que visam prolongar a abstinência da pessoa em tratamento.

Há alguns anos atrás, uma nova abordagem entrou em cena trazendo consigo novos conceitos a cerca de uma temática que apesar de bem estabelecida e aceita há séculos ainda é questionada pela medicina convencional, a meditação. Para ser mais preciso, essa meditação é chamada de mindfulness (atenção plena).

O mindfulness já foi descrito como “a atenção plena que emerge a partir do processo de prestar atenção no propósito, no presente momento e sem julgamentos do desdobrar da experiência”. Oriunda do Budismo, essa técnica visa lidar com a fissura a partir de um prisma diferente. Para os budistas, a fissura é ao mesmo tempo o cerne da existência humana e a raiz dos seus problemas. Por essa perspectiva, a dependência é vista como uma maneira de evitar esse sofrimento seja por estímulos positivos (curtir uma “onda boa”) ou por estímulos negativos (evitar um sentimento ruim).

Uma das intenções da prática do mindfulness consiste no aumento da aceitação do indivíduo de sua condição, auxiliando-o a entender que determinado estado físico ou mental é efêmero. Dessa maneira, ao perceber que estados emocionais são momentâneos, ele também percebe que todo esforço para agarrá-los ou mantê-los é, além de fútil, gerador de sofrimento.

Baseando-se nesses preceitos, pesquisadores da Universidade de Washington em Seattle desenvolveram um programa chamado de Mindfulness-Based Relapse Prevention (Prevenção de Recaída Baseada em Mindfulness) (MBRP). O programa inclui práticas formais de mindfulness assim como exercícios e técnicas para que o aprendizado seja posto em prática. O foco no início do tratamento consiste no aumento da atenção dos pacientes/clientes em gatilhos ambientais de fissura e nas consequências físicas, psicológicas e emocionais desencadeadas por eles, focando na progressão desse processo. Os pacientes/clientes passam por exercícios indutores de fissura sendo sempre estimulados a não se exacerbar, sucumbir ou lutar contra os sentimentos que surgem, mas sim a explorar os diversos componentes dessa experiência. Ao longo do programa, os pacientes/clientes se aproximam das reações internas geradas pelos gatilhos externos a fim de se conhecerem melhor. Além disso, o programa também busca aumentar a tolerância ao desconforto gerado por esses gatilhos e pela fissura em si. Os pacientes/clientes começam a aprender a lidar com esse desconforto sem reagir a ele de uma maneira que alivie o estresse momentaneamente, mas que leva a desdobramentos problemáticos a longo prazo.

Alguns estudos com essa nova técnica já foram realizados e resultados positivos foram obtidos. Os pesquisadores identificaram que os indivíduos que passaram pelo MBRP apresentam menores relatos de fissura durante e após o tratamento do que pacientes que receberam o tratamento convencional, sendo que quanto mais tempo de prática de mindfulness, menos relatos eram observados. Além disso, eles identificaram que os processos de aceitação, atenção aumentada e não-julgamento são essenciais para a eficácia do MBRP na redução da fissura.

Em suporte a esses achados, uma pesquisa identificou que determinadas regiões cerebrais, que são bastante ativadas quando um indivíduo é exposto a imagens que induzem a fissura, se encontram menos responsivas quandos estas mesmas imagens são apresentadas após a prática de mindfulness.

Apesar de ser uma técnica nova, o mindfulness conta com um embasamento teórico muito forte para sustentá-lo e podemos esperar resultados muito interessantes dessa terapia. Para conhecer melhor sobre essa técnica, o Prisma entrevistou a Dra. Sarah Bowen, pesquisadora líder do grupo da Universidade de Washington que desenvolveu o MBRP. A entrevista completa será mostrada no próximo post dessa série.

Até lá!

Bibliografia

Baker T et al. 1986 The motivation to use drugs: A psychobiological analysis of urges. Nebraska Symposium on Motivation

Tiffany ST 1999 Cognitive concepts of craving. Alcohol Research & Health

Volkow ND et al. 2006 Cocaine cues and dopamine in dorsal striatum: Mechanism of craving in cocaine addiction. Journal of Neuroscience

Westbrook C et al. 2011 Mindful attention reduced neural  and self-reported cue-induced craving in smokers. Social Cognitive and Affective Neuroscience

Witkiewitz K et al 2013 Mindfulness-based relapse prevention for substance craving. Addictive Behaviors

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Uma resposta em “A terapia da meditação – O Mindfulness e a recaída

  1. Não existiria uma relação, ao meu ver, quase direta, com a famosa exposição com prevenção de respostas? Eu acho massa que algumas coisas da cultura oriental sejam utilizadas, mas em relação a algumas técnicas eu não vejo diferença direta entre mindfullness X EPR. Existe uma diferença que eu assumo é a beleza com que o mindfullness traz, é muito mais bonito falar que você vai fazer uma coisa que veio do oriente que “Terapia com prevenção de respostas”

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