O “Macaco Azul” e a (não) escrita nossa de cada dia

Escrever é difícil. Colocar no papel suas ideias de forma compreensível é um trabalho complexo e exaustivo e, a depender do veículo em qual essa sua escrita será publicada, pode até ser metódico, como é comumente a produção de um artigo científico.

A vida de um cientista está totalmente relacionada com a escrita e dificilmente ao seguir esta carreira será possível se desvencilhar dessa ação. Livros, artigos, resumos, pôsteres, relatórios, provas, aulas e uma infinidade de pequenos textos deverão ser produzidos nos anos que se seguirão aos seus primeiros passos por este caminho.

A escrita tende a ser um exercício de dúvidas e autocrítica, algo cansativo, mas que não precisaria ser tão exasperador assim. Como? Eu só conheço uma forma de facilitar e tornar uma prática mais efetiva: treino.

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“O quê?!”

Poucas pessoas possuem a prática da escrita. E a isso se soma uma tendência comum a ficar esperando a criatividade bater em suas portas para que a produção aconteça, perdendo umas boas possíveis páginas.

Aluísio Azevedo uma vez escreveu um conto sobre uma entidade que surge quando uma personagem tenta escrever, uma espécie de representação para a esterilidade da escrita. Segue um trecho (lá nas referências tem um link com o conto completo):

“- Macaco azul? O que é macaco azul…?

– Pergunta a quem não lhe sabe responder ao certo. Imagine um grande símio azul ferrete, com as pernas e os braços bem compridos, os olhos pequeninos, os dentes muito brancos, e aí tem o senhor o que é o macaco azul.

– Mas que há de comum entre esse mono e a poesia?…

– Tudo, visto que, enquanto o senhor estiver com a idéia no macaco azul, não pode compor um verso!

– Mas eu nunca pensei em semelhante bicho!…

– Parece-lhe; é que às vezes a gente está com ele na cabeça e não dá por isso.”

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“Tou vendo essa zoeira aí, viu”

O macaco azul pode assumir várias formas, Twitter, Facebook, Cartola FC… Representando essa nossa tendência a não produzir, uma espécie de inércia procrastinadora. É ‘o branco’ ao se sentar em frente ao computador com o Word aberto, é o cigarro no meio da escrita, a incapacidade de negar o convite para a cerveja quando você acabou de ligar o notebook e ‘a ideia não veio’. É a reprise de todas as temporadas de Lost ao se abrir a ‘to do list’. O macaco azul é o seu inferno, meu querido escritor. Um inferno de preguiça, acordar tarde, água de coco e… Na verdade, um inferno bem confortável e desejável, vamos admitir.

O problema é quando essa inércia afeta os seus planos, atrasa a sua vida e lhe causa desconfortos piores. Segue um exemplo (irônico, ok?):

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Não sou nenhum diretor como o Shamalalalalayan (do Sexto Sentido), mas vamos fingir que a camisa azul foi planejada para ter uma relação com o texto [Clique para aumentar]

Pois é, o macaco azul também é a ideia de fazer uma imagem para um texto do Prisma quando você está tentando escrever a sua dissertação! É o que te desvia do seu objetivo acadêmico (ou literário) principal.

Agora que já descobrimos o inimigo, voltemos ao combate ao terrível símio. A escrita necessita de treino, de prática. Escrever um texto para um blog como o Prisma difere da escrita de um artigo, por exemplo, este mais objetivo – mais simples nesse ponto – como uma receita de bolo a ser seguida, mas com maior avaliação desta produção, com consequências profissionais mais complexas a partir do que foi escrito e dito – muito, muito mais complicado neste outro. Logo, a prática em textos literários – vamos dizer, uma poesia – não te auxiliará plenamente a escrever um pedido de auxílio financeiro para a instituição fomentadora do seu estado. Então já que a simples prática não funciona para estas produções de forma semelhante, o que fazer?

No meu primeiro texto no Prisma já havia dado a resposta. Sou destes que acredita que a leitura é a solução. É uma prática fundamental.

Pessoalmente, acredito que só escreve bem quem lê. Ler é fundamental. Quer escrever um livro? Quer escrever artigo? Quer escrever para um blog? Leia livros, artigos e blogs. Mas leia tudo, porque ler apenas um tipo de produção é limitador (algo comum para quem está no meio da escrita de uma tese, pois há o foco na produção científica de um tópico específico e com isso se perde em outros tópicos), por isso ler de tudo é importante, essa flexibilidade cognitiva que permite que o pensamento se torne fluido e resulte em uma boa produção.

A leitura é fundamental para a escrita, e é o primeiro passo para afastar o macaco azul das cabeças ávidas pela produção, mas vencer a procrastinação que surge durante a escrita é algo tão complicado quanto iniciar uma produção (sim, você não achou que o macaco azul se renderia tão facilmente, não é?). Juro que explicarei como vencer essa outra faceta em um texto futuro, agora, um pedido: Manda vida para mim no Candy Crush?

Referências:

Aluízio Azevedo, “O Macaco Azul”.

Brennan e cols. (2012) Reading Acquisition Reorganizes the Phonological Awareness Network Only in Alphabetic Writing Systems. Human Brain Mapping, 34.

Ford e cols. (1984) Selective attention and rehearsal in the auditory short-term memory task performance of poor and normal readers. J of Abnormal Child Psychol, 12 (1):127-41.

Senkevitch e cols. (2011) Improving Scientific Research and Writing Skills through Peer Review and Empirical Group Learning. J Microbiol Biol Educ, 12 (2): 157-165.

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3 respostas em “O “Macaco Azul” e a (não) escrita nossa de cada dia

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