A terapia da meditação – Entrevista com a Dra. Sarah Bowen

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Como vimos no post anterior desta série, um dos grandes problemas enfrentados por aqueles indivíduos que lutam contra algum tipo de dependência de drogas é a recaída. Na maioria dos casos esse processo tem início após algum episódio de fissura, ou seja, uma vontade muito grande de consumir a droga. Diversas terapias já estão sendo usadas para o tratamento desse problema baseando-se em conceitos psicológicos e fisiológicos da dependência, no entanto uma nova abordagem está surgindo apoiando-se em conceitos da meditação budista, o mindfulness.

No começo deste mês (05/08), foi publicada na revista PNAS, uma revista científica de alto impacto, o sucesso do uso de uma terapia que se baseava em mindfulness na redução de aproximadamente 60% do consumo de cigarros dos pacientes envolvidos.

Esses achados em conjunto com outros já publicados reforçam ainda mais a ideia de que terapias baseadas em mindfulness podem significar um grande passo na luta contra a dependência de drogas. Umas dessas terapias é o Mindfulness-Based Relapse Prevention (Prevenção de Recaída Baseada em Mindfulness) (MBRP).

A melhor maneira de conhecer algo novo é conversando com aqueles que são expert nesse assunto, por isso o Prisma Científico entrou em contato com a Dra. Sarah Bowen, líder do grupo que desenvolveu o MBRP. Sarah é professora do Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade de Washington em Seattle. Vamos à entrevista!

Prisma Científico – Você poderia explicar pra nós o que é o MBRP e de onde ele veio?

Sarah Bowen – MBRP foi projetado como um programa de cuidado ao paciente que já passou por uma fase inicial de tratamento de algum tipo de comportamento viciante. Normalmente abuso de substâncias mas também já foi usado para dependência de jogo ou comida, essas coisas. Ele foi projetado para integrar a terapia cognitivo-comportamental tradicional, a terapia de prevenção de recaída tradicional – que contam com boas evidências por trás – com práticas de mindfulness, e ele originou exatamente disso. Ele vem do laboratório do Alan Marllat, na Universidade de Washington em Seattle onde ele já fazia pesquisa há muitos anos em prevenção cognitvo-comportamental de recaída. Em paralelo, eu fazia pesquisa em meditação, mas nós não havíamos nos unido ainda. Esse programa foi projetado para integrar essas técnicas e capitalizar nos efeitos benéficos de ambas as abordagens.

PC – Quando você começou a trabalhar com MBRP?

SB – Bom, vamos ver… Nós começamos a desenvolver esse programa em particular em, eu acho que, por volta de 2005 ou 2006. Antes disso eu fazia pesquisa com meditação, mas nós não havíamos montado o programa ainda.

PC – Como o MBRP se diferencia dos outros tratamentos convencionais?

SB – (Risos) Em diversas maneiras. Eu acho que a diferença mais óbvia é que usa o mindfulness e a prática de meditação formal como seus fundamentos. As coisas são construídas ao redor disso, ao invés de fazer uma terapia tradicional e adicionar algumas práticas de mindfulness, o que as pessoas normalmente fazem. O fundamento é realmente meditação e mindfulness e nós pegamos emprestadas coisas de outras abordagens cognitivo-comportamentais. Eu acho que, funcionalmente, a principal diferença é que nós realmente focamos em, ao invés de evitar situações de risco ou tentar não sentir a fissura, nós focamos em como você pode estar atento a quando essas coisas acontecerem e aprender a lidar com o desconforto sem reagir. Na verdade é um treinamento em atenção e técnicas de controle emocional através da meditação.

PC – Um grande problema ao lidar com a dependência se dá pela grande variabilidade entre os dependentes, tais como comorbidades. Como o MBRP lida com essa situação?

SB – Eu acho que essa é uma das coisas maravilhosas dessa abordagem, nós estamos realmente lidando com qualquer tipo de desconforto. Para algumas pessoas, elas podem sentir sintomas de depressão e isso pode ser um gatilho para elas usarem substâncias para aliviar essa depressão. Para outras, pode ser que elas estejam sofrendo de fissura fisiológica e elas usam substâncias para aliviar esse desconforto físico. Nesse tipo de abordagem, não é tão importante qual é o desconforto comórbido, caso ele seja um trauma, uma depressão ou desconforto físico. A abordagem é ensinar as pessoas a como lidar com qualquer tipo de desconforto sem reagir de uma maneira, ou se agarrar em algo que vá consertar isso imediatamente. Dessa maneira, eu penso, e vejo nas sessões clínicas que fazemos, que realmente fala com uma gama muito ampla de pessoas que não tem só um diagnóstico diferente de comorbidade, mas também um diagnóstico primário diferente. Por exemplo, algumas pessoas estão lá porque tem problemas com raiva ou violência, outras por problemas de ansiedade ou desordens alimentares. Realmente é um tipo de prática que pode ser útil pra qualquer um que esteja lutando contra algum tipo de comportamento que não está funcionando bem em suas vidas.

PC – Você acha que o MBRP pode ser usado na saúde pública ou só é possível de ser feito em um contexto privado, devido a aspectos metodológicos?

SB – É uma boa pergunta. Nós não temos muitas pesquisas em contextos diferentes. Nós já trabalhamos em tanto contexto público, que no nosso caso são agências municipais, basicamente agências públicas, como também em clínicas privadas, e sem dúvida funcionou em ambos. Para mim, parece que a chave do problema é: os clientes ou pacientes estão interessados em fazer esse tipo de abordagem? Foi desafiador, por exemplo, quando tivemos clientes que foram mandados para o tratamento pelo sistema penal. Eles são presos por algum delito relacionado a drogas e são mandados para o tratamento só que eles não têm interesse nenhum por meditação. Para essas pessoas, eu não tenho certeza, eu não sei. Nós não temos dados disso, mas para mim parece que não é uma boa ideia. Mas, caso seja um contexto público ou privado, as pessoas pagam ou não por isso, eu acho que se tem o interesse e se tem o terapeuta que saiba como aplicar esse tratamento, então é absolutamente benéfico, e não vejo razões para que não seja.

PC – O MBRP é uma terapia nova e eficaz, mas será que é factível?  Qualquer profissional de saúde é apto a aplicar esse tipo de tratamento ou é necessário um treinamento prévio?

SB – Ótima pergunta. Mais uma vez, nós não temos dados sobre isso ainda, mas é o pensamento de todas as pessoas que começaram a trabalhar com abordagens baseadas em mindfulness como Jon Kabat-Zinn com o MBSR (Mindfulness-based Stress Reduction, Redução de Estresse Baseada em Mindfullnes), Zindel Segal com o MBCT (Mindfulness-based Cognitive Therapy, Terapia Cognitivo-Comportamental Baseada em Mindfulness) e nós com o MBRP de que os terapeutas tenham suas próprias práticas para que eles entendam o que estão ensinando. Não faria sentido ensinar alguém a nadar se você nunca esteve em uma piscina (risos) ou como tocar um instrumento se você nunca tocou. Mas, por alguma razão as pessoas acham que com meditação você não precisa praticar para ensinar. Eu já vi, em nossos estudos, terapeutas que eram ótimos terapeutas, mas que não estavam praticando aquelas técnicas, então o ensino deles era muito, muito diferente. Então, para que possa ensinar do jeito que é pretendido, os terapeutas precisam de treinamento e precisam da sua prática pessoal. Como eu disse, essa é minha opinião, nós não temos dados em relação a isso ainda, mas eu adoraria ver um estudo que realmente se atentasse a isso. Acho que isso vem por ai.

PC – Na sua opinião, quais são os próximos passos do MBRP?

SB – Eu acho que uma coisa que ajudaria a gente a responder as perguntas que você está fazendo, que são perguntas que nós nos questionamos também, seria como disseminar isso? Como treinar os terapeutas e quem são eles? Em que contexto isso vai funcionar? Em outras palavras, nós fizemos esses estudos na nossa pequena faculdade sob um controle estrito. Nós temos dados promissores, mas agora está na hora de jogar isso no mundo e ver o que acontece. O que é importante incluir nos treinamentos? Quem são os terapeutas ou os clientes que podem fazer esse tipo de trabalho? Essas perguntas. Se me dessem vários recursos e “rédea solta” seria isso que eu estudaria (risos). Outra pessoa poderia fazer isso, não precisa ser eu. Eu adoraria ver isso.

PC – Muito obrigado pela conversa Sarah. Fico muito feliz por você ter aceitado o convite pra falar um pouco mais sobre o seu trabalho.

SB – Foi um grande prazer e caso alguma questão nova apareça, fico feliz em respondê-la.

Para conhecer melhor o trabalho da Sarah e de seu grupo na Universidade de Washington visite o site deles: http://www.mindfulrp.com/default.html.

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2 respostas em “A terapia da meditação – Entrevista com a Dra. Sarah Bowen

  1. Excelente entrevista! Acho que essa técnica pode ser extremamente promissora para todos os tipos de vícios. Seria muito interessante que as pessoas da área da saúde soubessem, ao menos, de sua existência. Parabéns!

    • Realmente Angela, essa técnica pode representar uma grande avanço no tratamento de diversas dependências. Acredito que assim como o MBRP, muitas outras técnicas novas estão surgindo dentro dos mais diversos contextos que nós acabamos não tendo notícia. Essa falta de informação dificulda muita a aceitação das pessoas que continuam praticando técnicas antiquadas ao invés de se abrirem para uma nova experiência que talvez possa ser mais benéfica.

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