De onde vem sua opinião?

Quem já leu meus post Fatos e falácias sobre o crack percebeu uma crítica em relação à mídia, especificamente na forma pela qual ela utiliza as informações que transmite.

Somos atualmente cercados pela mídia em suas mais diversas formas. As mídias televisivas, de rádio, escrita e uma das principais atualmente, a internet. É inegável a utilidade e importância da mídia na vida cotidiana das pessoas. Há algumas décadas, informações do outro lado do mundo demoravam semanas para chegar ao Brasil. Atualmente, recebemos e interagimos com a informação de maneira praticamente instantânea.

Mídia

O que me motivou a escrever este post foi em particular a abordagem da mídia em algumas notícias que tem sido veiculadas recentemente. Não que seja algo recente, mas somente agora resolvi me manifestar aqui. De maneira geral percebi uma tomada de posição e tendenciosidade pela mídia direcionando para uma única faceta dos fatos, ao invés de expor uma notícia e esperar que a própria audiência tenha suas próprias críticas. Isso acontece especialmente através do foco exagerado em certos pontos que não necessariamente refletem o contexto geral.

A chamada hipótese da agenda-setting postula que as ações da mídia em suas diversas formas pautam a maneira como o público enfatiza, se atenta e observa os diversos cenários da vida pública. É importante dizer que esta hipótese não sustenta a ideia de que a mídia tenta persuadir o público, mas sim apresenta uma lista de fatos os quais podem ser discutidos. Para ler mais sobre este tema sugiro o livro Teorias das Comunicações de Massa de Mauro Wolf.

Um exemplo seria a mídia focar em determinada notícia sobre corrupção envolvendo um partido, enquanto que outro caso, tão escandaloso quanto o primeiro, é basicamente negligenciado. Isso favorece com que a audiência foque mais um determinado tema do que outro.

Na verdade aqui deixo minha opinião de que a mídia sim, por interesses diversos, políticos por exemplo, muitas vezes busca vender ideias espúrias. O sensacionalismo e a busca de lucro muitas vezes pautam a escolha e a forma como as informações chegam até nós. Por isso, há um crescente interesse por diversos públicos nas ditas mídias alternativas, que são aquelas que se contrapõem a uma determinada hegemonia.

Além disso, um estudo avaliando a mudança de opinião das pessoas observou que em relação a crenças raciais, saber a opinião do outro modifica a opinião do próprio indivíduo. Neste trabalho os participantes se tornavam mais positivos em relação a suas atitudes sobre afro-americanos ao saberem que outros estudantes possuíam estereótipos mais favoráveis. Da mesma forma, os participantes se tornavam mais negativos quando eram apresentados a uma opinião de terceiros com estereótipos menos favoráveis a afro-americanos[1].

opinion

Em ambos os casos, da mídia e da mudança de opinião individual, uma questão fundamental é que para grande parte da população, uma única fonte de notícia é o que pauta a sua opinião. Não existe questionamento, busca por meios alternativos de informação ou verificação da veracidade da mesma. Isso promove a reprodução de ideias possivelmente equivocadas e favorece a propagação de inverdades e conceitos distorcidos ou manipulados.

Em relação à ciência, outro texto do Prisma destacou exatamente o fato de que o argumento: “A ciência disse” basta para este fato ser considerado confiável. Isto é um enorme erro.

Primeiramente, um dos requisitos da ciência é a descrição de sua metodologia, especialmente para que o estudo possa ser replicado em outros momentos e contextos. Assim, um estudo pode ser retestado para saber se realmente seus resultados procedem. Além disso, tenho uma sensação de que praticamente toda e qualquer ideia na escrita científica pode ser endossada por estudos científicos prévios. Isso pois existe uma enormidade de trabalhos publicados e basicamente você consegue achar fundamento científico para qualquer opinião que tenha encontrado em seu estudo. O problema é que nem todo embasamento científico que se utiliza é necessariamente de qualidade e nem mesmo se pode assumir que todo escritor de artigo agiu com ética suficiente ao redigir seu trabalho.

Assim, é minimamente um descuidado e imprudência reproduzir uma opinião sem avaliá-la criticamente e de maneira cuidadosa. E afinal, de que serve a capacidade crítica do ser humano se não utilizada? Fica então aqui um convite a repensar sobre tudo que você lê ou vê escrito por aí.

[1] http://psycnet.apa.org/index.cfm?fa=search.displayRecord&uid=2001-00876-009

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6 respostas em “De onde vem sua opinião?

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