Meu Eu Secreto

O título deste post refere-se a um documentário chamado “My Secret Self” exibido no programa 20/20 da rede americana ABC, em abril de 2007. Devido a sua abordagem especial, decidi compartilha-lo aqui no blog com a intenção de produzir alguma reflexão particular em cada um dos leitores, com todo o respeito e livre de qualquer preconceito sobre o tema.

Em “My Secret Self”, conhecemos a história de três famílias americanas que declaram ter crianças transgêneros, no caso, a mais nova tem 6 anos e o mais velho 17 anos. Ao longo da reportagem especial, é possível acompanhar o cotidiano dessas famílias, mostrar a realidade das pessoas que se descobrem transgêneros ainda quando crianças e, assim, disseminar um discurso de respeito com as diversidades sexuais.

O transtorno de identidade de gênero ocorre quando o indivíduo não se identifica com o sexo que lhe foi atribuído à nascença. É fundamental ter em mente que a identidade sexual é diferente de identidade de gênero. A primeira é estritamente biológica, ou seja, é determinada pela genética e está ligada a anatomia e a fisiologia da reprodução. Enquanto, a segunda está ligada a construção física e psicológica do ser homem e ser mulher. Até o momento, acredita-se que a identidade de gênero seja formada, simultaneamente, por fatores biológicos, psicológicos e socioculturais logo no início da vida.

Filme "Tomboy"

Filme “Tomboy”

Por se tratar de um tabu, a discussão sobre esse assunto costuma ser evitada de maneira geral. No caso dos meios de comunicação, em especial o cinema, um clássico sobre o tema é o filme “Boys Don´t Cry” (1999) – traduzido como “Meninos não choram” – dirigido por Kimberly Peirce e com roteiro baseado na história real de Brandon Teena. Outro filme mais recente que trata sobre o assunto é “Tomboy” (2011), cujo enredo é baseado na história de uma menina de 10 anos (Laure) que se veste, age e se apresenta a todos como menino (Mikael). Recomendo fortemente ambos os filmes, pois são muito bons!!

No meio acadêmico, os estudos sobre identidade de gênero e suas nuances em crianças e adolescentes começaram há cerca de 45 anos com um pequeno número de pesquisadores. Ao longo dos anos, foram realizados importantes estudos que contribuíram para o avanço da área, entre eles, destaco aqueles que mostraram a aceitação e apoio da família como um fator de proteção fundamental para crianças transgêneros. 

Em 2012, o conselho diretor da Associação Americana de Psiquiatria (APA) aprovou, na última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-5), a substituição do termo “Transtorno de identidade de gênero” por “Disforia de gênero” para identificar o indivíduo que se identifica com oposto do seu sexo biológico original. O objetivo dessa mudança, segundo os especialistas, seria para que o tratamento hormonal, a psicoterapia e a cirurgia de redesignação sexual possam ser oferecidos sem estigmatizar os pacientes como tendo um transtorno mental.

Essa mudança provocou uma série de discussões sobre o assunto, pois muitos grupos defendem a despatologização, ou seja, a retirada total da identificação de gênero cruzada, tanto do DSM quanto do CID, por acreditarem, que ela não é uma doença mental, mas somente uma variação fenotípica entre os indivíduos, assim como existem destros e canhotos. Deste ponto de vista, as mudanças ocorridas não parecem ter sido efetivas no combate aos estigmas baseados em estereótipos sobre a identidade de gênero.

Pessoalmente, acredito que a compreensão do outro em suas particularidades (empatia), seja o caminho para uma sociedade mais esclarecida e livre de preconceitos. Por fim, recomendo o documentário a todos que desejarem refletir sobre o assunto. Segue abaixo os 3 vídeos com o documentário completo legendado em português.

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Papers relacionados com o texto:

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2 respostas em “Meu Eu Secreto

  1. Intriga pensar em quais seriam os substratos fisiológicos e de desenvolvimento que podem estar envolvidos na determinação dessa variabilidade e também no impacto evolutivo e ecológico da ocorrência dessa variabilidade. Será que é recente? desde quando será que está presenta na nossa espécie? Será que existe em outros animais? Acho que para papéis transgêneros em outras espécies até tem evidências, mas sobre identidade deve ser mais complicado testar. E qual o rumo que poderá levar? É perpetuável?

    • Deixando de lado toda a questão social e buscando uma origem biológica/ evolutiva para essa questão, é muito impreciso abordar a origem desse comportamentos. Em animais, além de ser muito mais difícil identificar aspectos psicológicos (considerando animais que não tem nenhuma possibilidade de transgenia, coisa que ocorre em alguns peixes e muitos invertebrados), existem poucos estudos sobre o tema.

      Existem grupos com estudo de comportamentos homossexuais que ocorrem em uma gigantesca variedade de animais, de diferentes formas, mas em sua maioria com funções sociais, sendo assim algo tremendamente raro em animais solitários. Contudo, eu particularmente nunca encontrei estudos com animais relacionados à transgenia, excluindo a transgenia natural, com influência hormonal típica da espécie, onde pode ocorrer alterações de caracteres sexuais como tamanho, cor, apêndices e inclusive desenvolvimento de gônadas. Mas isso não nos interessa tanto, pois é uma característica evolutiva destas espécies.

      Existem algumas teorias, como a apresentada resumidamente na primeira parte do documentário, que tentam explicar o que leva ao Transtorno de Identidade de Gênero, contudo, ainda são teorias. Ainda existem muitos poucos dados para dizer o que realmente causa isso, mas existem registros disso em diferentes culturas de diferentes povos, embora sempre tenha sido algo bem incomum. Sendo assim, não é recente, mas só temos como “dicas” características culturais, como formas de se vestir e posicionamento quanto à funções típicas de cada gênero em cada cultura. Sendo assim, não temos como traçar um rastro mais primitivo.

      O rumo que isso poderá levar é 100% especulativo, hehehe. Eu acho que essa característica não é algo que afetaria a sociedade, mesmo com essas pessoas conseguindo se reproduzir, independente de seu posicionamento sexual (mesmo que com a ajuda de inseminação artificial ou se sujeitar, temporariamente, à uma gravidez, mesmo não sendo o que gostaria, ainda é possível). Talvez, isso possa influenciar no sentido de aumentar a consciência das pessoas quanto à saber respeitar as diferenças e a identidade de cada um, mas não teria um “peso” biológico/ evolutivo. Diabéticos e míopes se reproduzirem tem uma influência evolutiva evolutiva muitíssimo mais marcante, hehehe.

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