Inteligência ≠ Sucesso

Um tempo atrás li um artigo em um site que hoje em dia sou fã (UoD) que falava de como a crença de uma criança sobre sua inteligência pode influenciar negativamente seu desempenho escolar. Basicamente, o texto dizia que crianças que costumam receber elogios como “Você é inteligente” ou “Você é esperto (a)” tendem a apresentar um desempenho pior frente a novos desafios quando comparados com outras crianças que ouvem “Você é esforçado (a)” ou “Você é curioso (a)”. Maneiro, né?

“Ih alá! Post novo, mané!”

O autor desse texto se baseou na pesquisa da Dra. Carol Dweck que investigou a fundo esse efeito, principalmente porque o vivenciou quando jovem. Segundo ela, as pessoas podem ter duas teorias a respeito de sua própria inteligência: uma fixa e outra maleável.

Carol Dweck

Carol Dweck

As pessoas do grupo da teoria fixa são aquelas que acreditam que inteligência é algo que se tem ou não, fim de papo! Muitas das crianças que se acostumam a ouvir “Você é inteligente” concretizam essa ideia em suas cabeças gerando um conceito de posse de inteligência (Eu TENHO ou não TENHO). Como toda posse pode um dia ser perdida, essas mesmas crianças sentem uma pressão para não perder essa característica que lhes conferem tantos elogios.

Por outro lado, temos as pessoas do grupo da inteligência maleável. Para elas, a sua própria inteligência é algo que pode ser melhorado com esforço, ou seja, você é mais ou menos inteligente. Esse grupo se interessa mais pelo processo de resolução de um problema do que pela resposta final porque pra eles legal mesmo é aprender alguma coisa nova.

Quando apresentadas a uma tarefa nova, as pessoas do grupo fixo normalmente desistem ou simplesmente se abstém de resolver o problema com medo de errar. Já as pessoas do grupo maleável se envolvem com o novo desafio independente do resultado final, contanto que ela se torne melhor do que era antes.

Em 2007, a Dra. Carol Dweck publicou um estudo que avaliou como a teoria da inteligência influenciava o desempenho escolar de alunos que iniciavam junior high school, o equivalente ao 6º ano (antiga 5ª série). Ela dividiu os alunos novos em dois grupos: um grupo recebeu treinamento de técnicas de estudo e outro grupo recebeu o mesmo treinamento junto com um treinamento adicional de como “ser esperto” (eles diziam que o cérebro era como um músculo, e que dessa maneira ele poderia ficar mais forte com treino).  Com o passar do tempo, os alunos que recebiam o treinamento para “ser esperto” apresentavam um aumento vertiginoso de seu desempenho escolar em comparação com aqueles que não receberam. Os próprios professores, mesmo não sabendo a qual grupo cada aluno pertencia, confirmaram a mudança.

A autora do estudo inclusive fala de um menino, líder dos bagunceiros da sala, que quando apresentado essa noção de que o cérebro é maleável e que pode se tornar mais forte, perguntou a ela com lágrimas nos olhos “Isso quer dizer que eu não preciso ser burro?”.

Esse trabalho demonstra que a maneira com que uma criança encara sua inteligência pode ser benéfica ou não. Assim, a mudança da sua própria visão de aprendizado e inteligência, e não necessariamente do quanto ela sabe, pode influenciar no seu desempenho escolar.

Outra pesquisadora que vem estudando os fatores relacionados ao sucesso, tanto escolar quanto em outras situações, e que recentemente recebeu um auxílio a pesquisa da MacArthur Foundation (meu novo sonho de consumo) é a Dra. Angela Duckworth.

Angela Duckworth

Em sua pesquisa, ela descobriu que o fator que mais influenciava tanto o desempenho dos indivíduos quanto sua capacidade de completar seus objetivos era a determinação. Ela observou isso com cadetes em uma academia militar, crianças no concurso americano de soletrar, professores novatos em escolas de bairros perigosos e vendedores de uma empresa. O que todos os indivíduos bem sucedidos nesses contextos particulares tinham em comum? Altos níveis de determinação.

Segundo a Dra. Angela Duckworth, a vida deve ser encarada como uma maratona e não como uma simples corrida. O que pode predizer o sucesso de um indivíduo é o quanto ele é capaz de manter-se focado em seus objetivos, não por pouco tempo (dias ou meses), mas sim por muito tempo (anos).

As descobertas dessas duas pesquisadoras encorpam ainda mais um conceito maior de que além da inteligência outros fatores como convivência social, motivação, apoio familiar e autoestima também estão relacionados com o sucesso de um indivíduo. No entanto, fechamos nossos olhos para esse fato e acreditamos que a chave para ser bem sucedido está nas provas de português, no cursinho pré-vestibular, na faculdade ou em um emprego.

Talvez o grande estalo que deve ocorrer na mente dos responsáveis pela educação (pais, pesquisadores, professores e governantes) seja desenvolver uma abordagem que se preocupe com o indivíduo como um todo e não apenas com as notas em uma prova. Na minha opinião, reduzir uma pessoa a um simples escore é um grande desrespeito a sua história e capacidade. É muito importante motivar o aluno, e claro, o professor também, a dar o melhor de si, a acreditar que é melhor do que imagina ser e dessa maneira torná-lo agente ativo de seu próprio sucesso. Vamos levantar nossos olhos de um número em vermelho no canto direito de uma folha e olhar para a criança na nossa frente.

"Todo mundo é um gênio. Mas se você julgar um peixe por sua habilidade de escalar uma árvore, ele viverá sua vida inteira acreditando que é estúpido." - Albert Einstein

“Todo mundo é um gênio. Mas se você julgar um peixe por sua habilidade de escalar uma árvore, ele viverá sua vida inteira acreditando que é estúpido.” – Albert Einstein

Referências

Blackwell LS et al. 2007 Implicit Theories of Intelligence Predict Achievement Across an adolescent Transition: A Longitudinal Study and an Intervention. Child Development

Dweck CS et al. 1988 A social-cognitive approach to motivation and personality. Psychological Review

2 respostas em “Inteligência ≠ Sucesso

  1. Pingback: Cérebro v2.7 – Sobre consciência e inteligência artificial. (Parte 3) | Prisma Científico

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s