Comédia da vida privada (de sono)

Meu pai vivia me dizendo: Tá perdendo noite de sono né muleque? Depois vai reclamar!

Hoje entendo o que ele dizia!

Há algum tempo fiquei 60 horas acordado participando como voluntário de um experimento. E, como bom curioso resolvi unir essa nova experiência a um post do Prisma.

cranky-early-morning

Essas 60 horas nem chegam nem perto do recorde mundial registrado: Onze dias, cerca de 260 horas, e sem nenhum uso de medicamento. Na época, 1965, ele foi conseguido por um jovem de 17 anos que resolveu se manter acordado pelo maior tempo possível. Ao saber disso, William Demmet, pesquisador referência no estudo do sono, acompanhou o caso. Na realidade, este talvez nem seja mais o recorde, pois o Guinness deixou de avaliar este tipo de tentativa por conta de ser uma prática bastante perigosa (pode levar à morte). Quem se interessar esse é o link para o artigo.

Mas vamos ao que vivi. Meu período de privação começou às 11 horas da manhã de um sábado e durou até as 21 horas de uma segunda-feira.

Durante o primeiro dia foi tudo foi normal, pois havia dormido bem na noite anterior, mas por volta da meia noite o sono chegou. Essa vontade de dormir perdurou até por volta das duas da manhã, e foi quando o sono sumiu. Durante a madrugada passei basicamente conversando com outras pessoas e comendo alguns lanchinhos e isso me manteve inteiramente desperto. Por volta das 4:30 da manhã percebi que minha sensação de sono era muito menor do que há uma hora atrás. Quando o sol nasceu tudo ficou ainda mais tranquilo. Mas nem tudo seria tão fácil como nessa primeira madrugada.

Após 24 horas acordado, mesmo não tendo tanta sensação de sono, bastava um momento sozinho sentado para o sono começar a chegar. A cabeça parecia estar “leve”, como se não raciocinasse direito e fazia as coisas mais automaticamente (muita gente sabe do que estou falando, afinal, quem nunca teve de trabalhar após uma noite agitada, trabalhando, claro, hahaha). Mas o pior estava por vir depois do almoço. Aquele sagrado momento após a refeição em que o sono chega. Nesta hora eu precisava sempre estar fazendo uma atividade (jogar baralho, computador, ver tv, andar, escovar o dente, qualquer coisa que exigia atenção mínima servia). O problema é que rapidamente essas atividades começavam a ficar sem graça e precisava trocar para algo mais dinâmico.

sleeping-in-the-showerSe você aí estranhou o escovar os dentes saiba que era um santo remédio pra me manter acordado. Tomar um banho também ajudava, mas se o bendito estivesse quentinho, tornava-se aconchegante. Aí as coisas poderiam piorar, então, o mais gelado possível era a melhor opção – o que um pesquisador/voluntário não faz pelo bem da ciência, não é?

Passadas 36 horas, após o jantar é que as coisas começariam a ficar interessantes. O mais eufemista que consigo é chamando de agonia. O sono só aumentava, independente do que fazia. Nada me distraia mais para ficar acordado. A partir das 4 da manhã as coisas beiravam o insuportável (pior momento para mim). Isso não pelo cansaço físico, mas sim o desgaste psicológico de saber que não poderia dormir, mesmo com tanto sono. Tinha também sensação que ainda não tinha experimentado, uma leve náusea. Foi aí que a pesquisadora me perguntou o motivo de estar quieto e de cara feia. Respondi com toda delicadeza que uma privação de 41 horas de sono me permitia: To com raiva de tudo que não me deixa dormir! A coitada ainda perguntou: Até eu? E a resposta foi: TUDO! (Agora acho isso cômico, mas na hora não tinha graça, hahaha).

Por volta das 6 horas da manhã do último dia preencher um questionário foi crítico. Demorava uma eternidade para ler e responder questões de múltipla escolha (muitas perguntas simples que qualquer criança preenche no Facebook com menos de um minuto). Faltava atenção, compreensão e ânimo. A cada questão dava uma mini cochilada, e ao final, o questionário possuía vários rabiscos das inúmeras vezes que dava a famosa “pescada”.

here-comes-the-sun-homepageAs coisas se tornaram menos desagradáveis após um banho, que quase me deixou nele por sinal. Mas ao abrir a janela do quarto, ver o sol de verdade, o céu azul e o movimento nas ruas senti como se uma tonelada de melatonina fosse degradada (hormônio associado ao ciclo de dormir e ficar acordado). Neste momento consegui ficar menos incomodado com a sensação de sono e cansaço, mas nada funcionava bem cognitivamente (memória, atenção, funções executivas, etc.).

Durante o resto do dia foi tudo assim, cabeça “leve”, lentificação do raciocínio, sensação de cansaço físico e mental. No entanto o sono havia aparentemente sumido. O que mais incomodava era o corpo cansado, uma sensação como se fosse uma gripe leve. Consegui inclusive me manter acordado na frente do computador, pensar sobre alguns trabalhos e escrever um relatório (minha orientadora corrigiu e disse que estava bom, hahaha).

Após 59 horas de privação não sentia nem um pouco de sono. Mas depois de um banho e me arrumar para ir dormir (fazer a montagem da polissonografia) foi muito fácil. Me deitei e foi quase que instantâneo. Um sono praticamente ininterrupto até as 6:20 do dia seguinte, quando fui acordado (dormiria mais com certeza!).

Após a noite de sono o dia foi bem tranquilo, praticamente como um dia normal. Devido esta privação de sono total ocorre o que chamamos de rebote de sono REM (Rapid Eye Movement) e de ondas lentas (estes são alguns estágios do sono os quais são responsáveis pelo nosso descanso). Assim, o tempo que essas fases ocupam no ciclo total do sono é maior do que em um sono normal sem privação prévia.

The_Simpson__s_Family_by_Simpsonix

Todos esses sintomas que acabei sentindo são característicos da privação de sono. Inúmeros outros também poderiam surgir como alucinações, crises de ansiedade, paranoia e até surtos psicóticos (mas ainda bem que não). Outro participante chegou a relatar algumas alucinações (ele via todo mundo amarelo e dizia que era igual aos Simpsons e o vaso sanitário estava com a mesma textura da van do Scooby Doo, vai entender, hahaha).

E assim foi minha maratona de 60 horas sem dormir, um tanto quanto curiosa e única. Mas a principal lição que levei comigo disso tudo foi: Tá com sono, vai dormir, porque ficar sem esse sono é bem desagradável!

Gostaria de agradecer a assessoria do Gabriel Pires para assuntos sobre sono!

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