Um artigo científico em sua boca

Você já passou dias com uma sensação estranha na boca, uma coceira não dolorida, que trocava de local várias vezes por dia? Jonathan Allen já.

E essa coceira, que se assemelhava a quando você morde uma batata frita e a ponta machuca o céu de sua boca, deixava um rastro em sua boca, como o de uma serpente na areia? Na de Jonathan Allen sim.

Você já sentiu a sensação de alguma coisa movendo em sua boca e a cada vez que a sua língua desliza por ela, ela se move insistentemente na direção contrária? Hum… Aposto que demorou um pouco para responder essa, mas enfim, Jonathan Allen sentiu.

E quando você descobriu que ali poderia estar um organismo vivo, você imediatamente mandou um e-mail para os seus colaboradores para que todos pudessem estudar esse possível ser que flanava por suas bochechas? Bom, a resposta você já deve ter imaginado.

O que você vê nessa imagem?

Você vê um co-autor nessa imagem?

Jonathan Allen fez tudo isso, sentiu tudo isso e a primeira coisa que fez quando imaginou que havia um parasita em sua boca foi mandar um e-mail para seus colegas de profissão com o título “A paper in my mouth”, que traduzindo seria algo mais ou menos como “tem um tipo de vida rastejando em minha boca, espero que eu não morra disso, mas olha só, a gente pode ganhar umas citações e até, quem sabe, um Ignobel… Opa, se moveu de novo… Eu dei um nome para ele, mas não precisa ser oficial, vamos pensar em um nome juntos…”.

Jonathan Allen descobriu que em sua boca havia um bichinho de estimação um pouco diferente. Mas Allen não é uma pessoa qualquer, e sim um especialista em Biologia de Invertebrados e professor assistente da universidade William & Mary, nos EUA. Enfim, um cientista.

E como um bom cientista, não pensou duas vezes. “Curioso! Quero estudar!”.

Jonathan tirou fotos do rastro que o verme fez em sua boca, logo após isso, fez uma procura na internet a fim de descobrir qual deveria ser aquele bicho e lá estava o Gonglyonema pulchrum, um verme parasita que normalmente se aloca na boca de animais de fazenda, como vacas e ovelhas e em raros casos fora encontrado na boca de humanos. Foi amor à primeira vista, Allen sabia que aquele era o seu bichinho, tipo o sexto sentido de mãe, sabe? E só após tudo isso, ele resolveu ligar para o seu médico, que não acreditou em nada daquilo e o mandou de volta para casa. Nem todo mundo possui a curiosidade de um cientista… O médico com certeza perdeu a chance de ser inspiração para um episódio de House (se House não tivesse acabado há um tempo).

Chateado com a decisão do médico, Allen não teve dúvidas e quando acordou de madrugada com a dança do verme em sua boca, pegou um alicate e arrancou sozinho o bicho, como se este fosse um cara bêbado e inconveniente no fim de uma festa em que nem mesmo havia sido convidado.

O verme tinha um pouco menos de dois centímetros e estava um pouco nervoso de ter sido retirado de um local tão agradável para este mundo cruel. Se rebatendo, reclamando o direito à inércia, o livre-arbítrio, foi colocado em uma solução de álcool pelo Prof. Allen para ser preservado. Todo mundo adora álcool. Segue uma foto tirada pelo Prof. Allen do seu antigo companheiro no momento de sua imersão na solução:

"Oi, eu me chamo Buddy e já não estou sóbrio..."

“Oi, eu me chamo Gonglyonema pulchrum e já não estou sóbrio…”

O professor Allen, ainda de madrugada, dirigiu para o seu laboratório, onde mediu e fez mais um monte de coisas científicas com o verme com a sua colaboradora Aurora Esquela-Kerscher. Desde observar as suas características morfológicas até mapear o seu DNA. Pelo visto, assim como Allen, Aurora também crê que estudar este verme pode ajudar a entender como se comportam tais seres, a criar remédios mais efetivos contra eles e mais um monte de coisa, e por isso se debruçou a analisar de forma metódica o pequeno intruso. Mas ainda acredito que o papel mais importante dela foi dar um nome para o parasita: Buddy. Acho lindo esse desprendimento.

Buddy, O parasita em sua boca.

Buddy, O amigão.

Barney e Buddy, a nova dupla das suas tardes dominicais.

Barney e Buddy, a nova dupla das suas tardes dominicais.

É até possível que primos e irmãos de Buddy estejam ainda no corpo de Allen, pois esse tipo de verme apenas se dirige para a boca dos animais quando está totalmente maduro e pronto para acasalar. Quando perguntado sobre o que seria ainda ter estes animais no corpo do colega, Aurora respondeu “Seria ótimo, ainda precisamos de mais material”, tranquilo, Allen afirmou que não tomou remédios vermicidas, imbuído de curiosidade científica:

“Arruinaria o nosso experimento”.

Um dupla que é puro amor para humanos e vermes.

Um dupla que é puro amor para humanos e vermes. (p.s.: A foto é uma simulação e na boca de Allen apenas vemos um chiclete… Buddy era muito mais vívido que isso).

Como aquele rapaz simpático entrou no corpo deste outro rapaz simpático ainda é um mistério, justamente por essa espécie ser pouco estudada. Provavelmente foi alguma coisa que ele comeu. Sabe… Coisas de fazenda, que comemos todos os dias…

Então lembre-se, quando você se sentir só, às vezes não está tão só assim e… Não, não! Não se lembre disso, é nojento.

Vou tentar terminar o texto de outra forma. Vamos lá:

Dois pontos são importantes aqui. O primeiro, é que às vezes esquecemos de observar tudo com um olhar curioso e científico. A vida está aí cheia de perguntas, basta observá-la com com cuidado e interesse que teremos uma oportunidade de fazer algo diferente, legal e publicável. O segundo é que às vezes não nos interessamos em alguns artigos pelo seu título ou aparente conteúdo, apenas olhamos o resumo e deixamos para lá (um exemplo é esse estudo de caso de Allen, que possui o nada atraente título Gongylonema pulchrum Infection in a Resident of Williamsburg, Virginia, Verified by Genetic Analysis), mas cada artigo possui uma história (bem ou mal contada), e se observarmos bem, uma boa história pode nos cativar.

Boa, apesar de nojenta.

Para ler o artigo de Allen e Aurora contando a sua história: Allen & Esquela-Kerscher, 2013.

4 respostas em “Um artigo científico em sua boca

  1. Pingback: Seis parasitas que poderiam protagonizar o seu próprio filme de terror | Prisma Científico

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