Snoopy e a experimentação animal

Imagine a seguinte situação: um bando de pessoas entra no seu escritório, quebra o seu computador, rouba o seu trabalho, destrói móveis e espalha coisas pelo chão. Tudo isso porque acharam que você estava fazendo seu trabalho errado. Bizarro, não?

Infelizmente não consegui escrever antes sobre o assunto. No entanto, ao longo dos últimos dias, reuní diversos links que podem nos ajudar a entender do tema, links estes que serão indicados ao longo do post. Leia o texto dos links antes de avançar neste texto do Prisma (alguns podem ser repetitivos, mas todos são de alto nível).

Mas qual a verdadeira questão?snoopy-para-pintar

Antes de mais nada, eu utilizo modelos animais em meus estudos. Não, isso não quer dizer que eu goste de utilizar animais. Quer dizer que eu tenho a pretensão de um dia compreender os mecanismos celulares de memória, podendo assim contribuir para o conhecimento científico que um dia pode ser utilizado em prol da humanidade.

Até hoje, eu nunca conheci alguém que está no ambiente científico simplesmente pelo prazer de “matar” animais. Pelo contrário, nunca conheci uma pessoa que apreciasse o ato. E “matar” entre aspas mesmo. Nós não matamos animais, realizamos eutanásia, ou seja, a morte do animal tem que ser indolor e humanitária. Eu particularmente tenho muita dificuldade em eutanaziar meus animais, toda vez é um martírio para mim. Felizmente, eu não sou o único que me sinto assim, por isso foram criados os Comitês de Éticas em Pesquisa e órgãos reguladores de pesquisa. Para saber mais, acesse os sites da SBCAL/COBEA e CONCEA. De maneira em geral, os Comitês de Ética e os órgãos reguladores têm o objetivo de diminuir o número de animais utilizados, garantir que os animais estejam em boas condições de saúde e, na medida do possível, substituir o modelo animal. Veja texto do ministério público sobre normas e cuidados com animais.

Infelizmente, nem sempre é possível substituir o modelo animal. Imagine a seguinte situação: um novo tipo de fármaco antitumoral está sendo testado em cultura de células (um tipo de técnica onde diversas células de um tecido biológico são mantidas vivas em uma placa). No entanto, os resultados desta técnica não podem ser extrapolados para um organismo; o organismo vivo é dinâmico, com diversos sistemas e tecidos trabalhando incessantemente para manter a homeostasia e o bom funcionamento do corpo (TEXTO 1). indexPara se manter células em cultura, é necessário um reagente chamado “Soro Fetal Bovino”. E adivinha de onde ele é obtido? Sim, a partir de animais de experimentação. Portanto, se você acha que células em culturas não utilizam animais de experimentação, tá na hora de pensar de novo. Adicione ao Soro Fetal Bovino meios de suplementação, anticorpos e as próprias células, que geralmente são retiradas de algum animal (TEXTO 2).

Não só no mundo acadêmico os animais são utilizados, também são utilizados na indústria cosmética e a farmacêutica. Cada componente novo de um composto deve ser testado em animais antes de ir para o consumo humano. Isso serve para evitar que seres humanos sofram consequências graves a curto ou a longo prazo.

Um dos eventos famosos que ocorreu na medicina e que mostra como a falta de testes em animais pode causar graves efeitos aos humanos é o da talidomida. Esta substância foi usada nos anos 60 como uma droga sedativa e hipnótica, mas também se mostrou eficaz para enjôos durante a gravidez. Poucos meses depois, nasceram crianças com más formações dos membros. Testes em animais foram realizados, porém só em roedores (descobriu-se mais tarde que os roedores metabolizavam a droga de maneira diferente dos humanos). Quando os testes foram realizados em mamíferos maiores, como coelhos e cachorros, os mesmos efeitos dos humanos apareceram. E antes que o pensamento de testar algum novo medicamento ou tratamento em presos de crimes bárbaros venha à sua cabeça, lembre-se que a ideia aqui é ser ético. Ninguém na ciência é discípulo do Dr Mengele. Ah, mas que bom que descobriram o efeito da talidomida e pararam de produzir o medicamento. Ledo engano, jovem gafanhoto. Pesquisas recentes mostram que a talidomida é eficiente para lepra e mieloma múltiplo, um tipo de câncer medular. Se as pesquisas em animais com a talidomida tivessem sido abandonadas, nunca descobriríamos estes potenciais.

Nós devemos aos animais o aumento na qualidade e na expectativa de nossas vidas. E também devemos respeito a eles, por isso, sempre buscamos manter o bem-estar animal. É normal que a população em comum tenha dúvidas em relação aos animais e os acadêmicos gostarem de falar sobre suas pesquisas. Que tal fazermos algo juntos?

Para terminar, queria comentar duas coisas. Primeiro, li em textos sobre o assunto que os animais resgatados estavam multilados ou sem olho. Espero que a essa altura do post você já tenha percebido que isso é uma falácia emocionalista, pois não há tortura nos animais. Essa história de cientista louco e cruel, só existe na ficção.
23YearsPoster_lg Em geral, os cientistas são pessoas sensatas que visam a melhor qualidade de vida, humana ou animal. Por fim, quero demonstrar meu repúdio a qualquer tipo de ataque violento, seja qual for o motivo. Há maneiras melhores e mais éticas de protesto. Vá até os órgãos de supervisão competentes e preste uma queixa. Estude, se informe do tema. Peça opinião aos dois lados envolvidos. Use sua razão!

TEXTO 1:

Gostaria de acrescentar minha experiência. Trabalhei com oncologia experimental. Várias drogas que foram testadas no laboratório em que trabalhei funcionavam muito bem in vitro, mas eram inócuas in vivo (curiosamente, o inverso também ocorria). E por que isso ocorre? Porque células tumorais estabelecem um sem número de interações com outras células saudáveis no organismo. Testar um droga numa placa de petri onde só estão presentes as células tumorais é uma abordagem interessante como indicativo de eficácia, mas é extremamente reducionista. NUNCA, JAMAIS, em qualquer pesquisa científica, será possível prescindir do uso de animais de experimentação. Se alguém tentar lhe convencer do contrário, saiba que essa pessoa está te enganando, seja agindo de má fé ou por pura ignorância.

Na maior parte das pesquisas, usam-se roedores. (…) Antes de testes clínicos são necessários testes em mamíferos de maior porte, como os cães.

Não sou matador de animais, adoro cães, tenho dois em casa que quando morrerem vou sentir uma falta absurda. Mas sou cientista, sei das dificuldades enormes inerentes ao trabalho científico e me revolta ver o trabalho de outras pessoas ser assim aniquilado. Se houve maus tratos, que as autoridades competentes averiguem (…)

Por Filipe Menegatti de Melo

TEXTO 2:

“Completando, é longo:

Uns podem dizer : ah, não somos contra o progresso, só queremos que maneiras alternativas sejam utilizadas, não animais.

Bom, não existem hoje maneiras alternativas para todos os testes necessários. Mas mesmo que existissem, veja quão egoísta é esse tipo de argumento:

Quando você (entenda por “você” a sociedade ocidental) estava cheio de pulgas, dormia no chão, morria de peste negra, era desfigurado pela varíola, ou ambos, você não tinha muita coisa contra testes em animais. Afinal de contas, a ciência avançou rápido fazendo testes em cobaias de laboratório e você foi sentindo o efeito na sua qualidade de vida. A varíola foi erradicada (vacinas contra a varíola foram testadas em animais), as pulgas que te passavam peste foram controladas por inseticidas caseiros (testados em animais), e de repente em 200 anos você se viu dormindo em lençóis de algodão com látex, bambu e sei lá mais o que (testados em animais), sem pulgas, e sua querida esposa não era mais desfigurada pela varíola. Até sexo é melhor. Ela toma contraceptivos (testados em animais) ou você usa camisinha (testadas em animais), e os filhos que vocês escolheram ter não correm risco de ter poliomielite porque recebem uma vacina (testada em animais). Alias, vocês seguiram a gestação deles mês a mês com maquinas de ultrassom (testadas em animais), e quando houve qualquer problema o médico receitou um remédio, anti-refluxo, hormônio (testados em animais). No parto a mamãe não sentiu dor pois recebeu uma peridural (testada em animais) e o bebê nasceu com icterícia, resolvida rapidamente por um banho de luz azul (até a luz foi testada em animais).

Então você se viu nesse mundo perfeito em que todos os seus problemas terminaram, e começou a gastar boa parte do seu tempo no computador (com componentes testados em animais) procurando algum problema com o qual se preocupar. Você leu que uns beagles estavam sendo usados em testes científicos e ficou indignado. Resolveu abraçar essa causa, afinal todas as espécies tem que ter direitos iguais.

Acontece, meu caro alienado, que os SEUS problemas terminaram (ou é o que você pensa, mas você e a sua família vão morrer de câncer, infarto, Alzheimer, diabetes…bem velhinhos, graças a ciência e aos testes em animais). Outras partes do mundo continuam com problemas. Pessoas (muito mais do que você imagina) ainda morrem de malária, filariose, doença do sono, doença de chagas, leishmaniose, vários tipos de viroses que causam diarreia, e muitas outras coisas tão horríveis quanto a varíola ou a peste. Você não tem esses problemas pois usa produtos (testados em animais) que mantém sua higiene em dia, repelentes (testados em animais) e mora em centros urbanos. Mas esses problemas são coisas reais para bilhões de pessoas. Ser contra testes em animais significa atrasar os avanços científicos que visam resolver esses problemas para essas pessoas. Sim, os cientistas se importam se tem gente na África, Amazônia ou India morrendo de malária ou diarreia. Muito mais do que você se importa. Portanto, ser contra testes em animais faz de você um babaca (eu queria escrever outra coisa, mas vou manter o nível do texto) egoísta.

Se ainda assim você não entendeu, vou tentar adaptar para a sua realidade. Você vai morrer velhinho, de alguma doença de primeiro mundo. Você e sua esposa ou marido. Digamos, câncer. Imaginemos então o seu dialogo com o médico, ao lado do leito do seu amado(a), daqui 50 anos.
Médico: não há nada mais a fazer.
Você: mas, doutor, não há nenhuma outra droga que possamos tentar?!
Médico: temos uma droga que teria chances de dar uma sobrevida de 5 anos, mas não podemos usar ainda.
Você: porque!!?
Médico: ainda estamos fazendo testes de toxicidade em culturas de laboratório, mas demora porque temos que testar em milhares de tipos celulares, todos que existem no corpo humano.
Você: porra!! Não da pra testar essa porcaria num cachorro pra ir mais rápido?
Médico: não. Desde a lei Tripoli estamos de mãos atadas. Sinto muito.

Pois é. Especismo é lindo na teoria, mas na pratica a vida do seu amado(a) não vale tanto quanto a vida de um beagle. Vale mais.

Percebeu? Isso é o que você esta impondo a todos aqueles que ainda não tiveram todos os problemas resolvidos. A diferença é que eles ainda são jovens, e estão morrendo jovens.”

Por Daniel Yousef Bargieri

Outros links interessantes:

http://letranslator.wordpress.com/2013/09/15/segundo-uma-pesquisa-ai/

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/10/1360185-retirada-de-caes-de-instituto-afeta-teste-anticancer-diz-cientista.shtml

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.php?id=90027

http://speakingofresearch.com/

http://www.insight.mrc.ac.uk/2013/10/21/introducing-patients-to-animal-research/

19 respostas em “Snoopy e a experimentação animal

  1. Pingback: Mimimi do Mimimi 16 – Meditação, Beagles e Como Dizer Não | Podflix

  2. Pingback: A rata Zana | Prisma Científico

  3. Pingback: Ciência é coisa do Demos | Prisma Científico

  4. concordo, ótimo texto, mas a ciência precisou para se desenvolver, meios alternativos devem ser buscados, também, não devemos descartar hipóteses de maus tratos e falta de cuidado, e em meu ponto de vista, cosméticos e afins, jamais devem ser testados em animais. Não se esqueçam, o fator principal para a existências de doenças, fomos nós mesmo.

    • Oi Lucas, obrigado pelo seu comentário.
      Há a hipótese de maus tratos aos animais sim, mas eu acredito que ele seja pouco provável. Mas que nós somos o principal fator para a existência de doenças, eu discordo totalmente. Pegue por exemplo o câncer. Ele sempre esteve presente na história da humanidade e, infelizmente, não conseguimos combatê-lo de forma eficiente ainda.

  5. Pingback: Falácias de mesa de bar (2) | Prisma Científico

  6. Pingback: Mimimi do Mimimi 16 – Meditação, Beagles e Como Dizer Não | Mimimi – mais um podcast

  7. Pingback: Por que os modelos computacionais não podem substituir os modelos animais? | Prisma Científico

  8. Muito bom, cheio de referências e completo! Meus parabéns, eu faço biomedicina, sou tecnico em lab de microbiologia e meu amigo trabalha no Biotério, ele tem o maior respeito pelos ratos que ele trabalha, até na hora que ele tem que sacrificar os animais. Abraço!

    • Obrigado pelo comentário Henrique. A relação ética dos bioteristas é de fundamental importância para o desenvolvimento da ciência. Espero que continue na área biomédica! Abraços!

  9. Poxa Bruno, fiquei emocionada com o seu texto! Está MUITO bem escrito e repleto de argumentos importantes. Obrigada por ter participado um pouquinho da sua formação. Vida longa a sua iniciativa de divulgação científica!
    Aproveitando, parabéns ao Daniel Youssef pelo texto prático e de simples entendimento. Acho que é exatamente esse tipo de exemplo real que as pessoas precisam para entender melhor a questão. Pergunte se ele se importa de usarmos o texto dele para um roteiro de cartilha educativa que eu e Karina Possa e outros estamos pensando em fazer.
    abs,
    Larissa

    • Oi Lari,

      Obrigado pelos elogios sobre o texto. Pode ter certeza que você teve grande participação sobre a minha formação, inclusive na parte de divulgação científica.
      Vou perguntar para o Daniel sobre o texto. Grande abraço!

  10. Parabéns! O Texto está ótimo!
    Como cientista (da área de alimentos) também me sinto incomodado por as pessoas venderem, nós cientistas, como gênios malignos e sádicos que acordam todos os dias “querendo” matar beagle por única e exclusivamente por maldade!! Sendo que quando divulgamos resultados sobre tal fruta age contra o câncer, as pessoas comemoram e ficam felizes com nosso trabalho e lotam o mercado para consumir elas…
    Outro argumento para o não teste em presidiários: para se obter uma resposta confiável, deve-se eliminar o maior numero de variaveis, agora que controle teríamos por exemplo para testar uma droga contra certa doença, se alguns terão maior tendencia a desenvolver os sistomas e outros não, (depende do pool genético) e vc não ter controle sobre isso, mas com animais de laboratório sim, outro detalhe é vc não consegue controlar os habitos (por exemplo qualquer coisa que ocorreu na vida deles antes de serem presos que pode causar inteferência no tratamento)
    e se os danos do medicamento em humanos só se desenvolvem em jovens/crianças, como um testariamos em presídiários? no filhos deles? indo pra fundação CASA?
    sem contar que se o dano for a longo prazo, termiamos q espera as vezes muitos anos para se obter a resposta (considerando que o presidiário vai comer apenas dentro da dieta 100% do tempo, e não vai fumar (ou qqr outra droga) ou se envolver em brigas, rebeliões e q vai ficar vivo e preso por sei lá mais de 30 anos… ) se fosse tudo isso controlado, a resposta ainda ia demorar muito, coisa que poderia ser resolvida em um ano com diversas gerações de ratos…
    Parabéns pelo ótimo texto, novamente!

    • Obrigado Thiago por compartilhar suas ideias e argumentos. De fato, o teste em humanos tem que ser ÉTICO e o mais controlado possível. Um dos pontos fundamentais deste tipo de pesquisa é o concentimento do paciente/voluntário antes dos testes. Se não há ética e regulamentação nesta área, o que impediria de os testes serem realizados em outras pessoas a seguir?

      Continue realizando ciência e a refratar conosco!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s