Black Bloc e Psicologia Social: a violência justificada das pessoas do bem

POST CONVIDADO

Por Guilherme Brockington

O desejo de produzir esse texto surgiu no meio da noite, quando me incomodei com um post que circulava no Facebook. Nele, professores cariocas envolvidos em um conflito com a Polícia Militar durante uma manifestação[1] agradeciam o “apoio” do Black Bloc. Não, esse não será um texto político. Não tratarei de possíveis motivações ou posicionamentos político-ideológicos relacionadas às manifestações que tem ocorrido com frequência no Brasil.

Quero trazer à tona reflexões sobre algo que parece fazer parte de nossa essência como animal social. Algo incrivelmente interessante e assustador. E espero que você, leitor, sinta-se encantado com os resultados das pesquisas que apresentarei. Mas, mais do que encantamento, espero que se sinta absurdamente incomodado. Que esse texto lhe traga, então, o desconforto.

Em julho de 2013, o Prisma nos trouxe um texto interessantíssimo sobre a inteligência coletiva e as manifestações pelo país. Contudo, existe um lado sombrio nessa “inteligência” que quero tratar aqui. Para começarmos essa reflexão, apresento as pesquisas sobre conformidade, iniciadas na década de 50 por Solomon Asch[2]. Na Psicologia Social, conformidade é entendida como uma mudança de comportamento ou crença pessoal como resultado de uma pressão social. As pesquisas de Asch buscavam entender se forças sociais (ou pressão de grupo) moldam as opiniões e atitudes das pessoas.

fig 2Ele observou 8 estudantes que participavam de uma tarefa sobre acuidade visual, na qual tinham que olhar para uma determinada linha vertical (X) em uma figura e encontrar sua correspondente entre três outras linhas (A, B e C). Muito simples, não? Como no caso ao lado, os participantes, em voz alta, respondiam B. O mesmo procedimento acontece por mais duas vezes. Até aqui não há nenhum problema e todos respondem a mesma óbvia opção. Então, na quarta vez que as figuras são apresentadas, algo diferente acontece… O primeiro estudante responde de forma claramente errada, escolhendo uma linha visualmente maior que X (como a A da figura). Em seguida, os outros seis seguem a resposta do primeiro e, também, respondem A. Como pode? Isso ocorre pois apenas o último a responder era, de fato, o sujeito do experimento. Os 7 primeiros participantes eram atores instruídos a responder errado após a terceira apresentação das figuras. Assim, o que fará o 8º sujeito? Seguirá o grupo e responderá algo explicitamente errado ou será coerente com o que vê? A princípio, o 8º sujeito responde corretamente, indo contra o grupo. Entretanto, após mais uma ou duas rodadas ele passa também a responder errado, claramente contrariando o que vê. Surge um constrangimento em responder de maneira diferente do grupo e o 8º sujeito, então, passa a seguir a maioria até o final[3].

Esse experimento foi replicado centenas de vezes, em 17 países. Em geral, 35% das pessoas dão respostas erradas apenas para estar de acordo com o grupo. Cerca de 70% dos sujeitos sucumbem à pressão do grupo ao menos uma vez e um terço dos participantes cede à pressão em mais de 50% das vezes. Não há diferenças significativas entre os gêneros e a cultura é um fator fundamental para a adesão à opinião da maioria. É preciso ressaltar que variações na pesquisa de Asch mostram que uma minoria também pode mudar a opinião das pessoas, bastando apenas que ela seja persistente em seus posicionamentos[4]. Enfim, parece que cedemos às mais diversas pressões. E isso não é tão difícil de notar. É possível que já tenha se levantado ao final de uma palestra ou show quando todos ao seu redor começam a aplaudir de pé. Mesmo que não tivesse vontade! No início você resiste, mas quando vê as pessoas se levantando e aplaudindo… E processos de conformidade como esses também podem ser facilmente observados nas manifestações e no apoio dado aos atos do Black Bloc.

A pesquisa de Asch nos leva a 1963, mais precisamente ao trabalho de Stanley Milgram[5], que realizou um dos mais famosos experimentos em Psicologia Social. Ele examinou a influência da obediência no comportamento de 40 voluntários recrutados de forma aleatória por anúncios de jornal[6]. Supostamente, tratava-se de um estudo científico sobre memória. No laboratório, eram instruídos que teorias de aprendizagem indicavam que a punição podia ser eficiente para aprender. Aos participantes era dado o papel de “Professor”, e outra pessoa, que na verdade era um ator, seria o “Aluno”. Todos recebiam uma lista com pares de palavras a serem decorados. Em salas diferentes, sem que pudessem ver um ao outro, o “Professor” dizia uma palavra e o “Aluno” respondia qual completava o par. O detalhe era que a cada erro o “Professor” daria um choque no “Aluno”, cuja magnitude variava de 30V a 450V. Os choques, contudo, não eram reais, mas o “Aluno” gritava quando os recebia. Ao longo do experimento, o “Professor” iria ouvir o “Aluno” implorar para ser liberado do teste e, até mesmo, reclamar de um problema cardíaco. De 100 participantes, quantos deles você acha que continuariam a aplicar os choques até chegar a 450V? 1%? Menos? Pois bem, os resultados são assustadores: cerca de 65% dos participantes continuaram administrando os choques, mesmo sabendo que estavam ferindo outro ser humano. Ainda que contestassem o pesquisador dizendo que o “Aluno” estava sofrendo, eles continuavam a aplicar os choques. Os resultados desta pesquisa se espalharam e o estudo se tornou largamente discutido. De modo geral, esse estudo indica que qualquer pessoa pode cometer algo que irá prejudicar ou machucar outra pessoa, apenas porque ela obedece a alguém que julga superior ou porque acredita que é algo que precisa fazer. O mais interessante para a reflexão que proponho é enfatizar o papel da desobediência. Milgram mostra que pior do que a obediência cega é a desobediência ineficaz. Ou seja, os “Professores” são capazes de se manifestar, mas isto não os impede de continuar ferindo os “Alunos”. Muitos deles continuaram a administrar o choque até os 150V, mas protestando!

Com os resultados desses dois experimentos podemos perceber que pressões de grupo influenciam em nosso comportamento e que podemos ferir o próximo ou por seguirmos ordens ou por acreditarmos que isso é o que precisa ser feito. Assim, o apoio dos professores ao Black Bloc e aos atos de violência nas manifestações podem ser vistos por essa mesma perspectiva.

O que pode ocorrer nesse caso é a “desindividualização”, na qual indivíduos em um grupo não são vistos ou considerados mais como indivíduos, causando uma redução dos controles internos de diversos comportamentos. “A Prisão de Stanford”, experimento idealizado e conduzido por Phillip Zimbardo[7], em 1971, demonstra bem esse fenômeno. De forma bem resumida, ele montou uma prisão falsa para investigar como 24 alunos de graduação, aleatoriamente selecionados, se comportavam ao assumir os papéis de prisioneiros e guardas[8]. Programado para durar duas semanas, o experimento teve de ser interrompido em apenas seis dias. Guardas se tornaram absurdamente abusivos, hostis e desumanos e prisioneiros começaram a mostrar sinais extremos de estresse e ansiedade. Até mesmo os próprios pesquisadores começaram a perder de vista a realidade da situação. O que mais impressiona nesse experimento é como ele tem um paralelo direto com situações da vida real. Abusos e violações dos direitos humanos são vistos com muita frequência em prisões.

O mais importante nesse trabalho é perceber que qualquer um de nós é capaz de se comportar de forma aterradora e que uma situação pode facilmente sair do controle. Ao replicarem a Prisão de Stanford, pesquisadores encontraram os mesmo resultados, entretanto viram que comportamentos abusivos surgem e ocorrem porque os indivíduos se identificam ativamente com aqueles que promovem atos viciosos como virtuosos. Eles se engajam nesse tipo de comportamento por acreditarem que estão fazendo o que é correto.

Ao descrever a desindividualização, Zimbardo identificou condições que aumentam as chances de que ele ocorra: anonimato (indivíduos não se sentem pessoalmente responsabilizados ​​por seus atos); atividades em grupo; perspectiva de tempo alterada (o presente é enfatizado e passado e futuro parecem distantes); excesso de carga emocional e envolvimento físico no ato. Juntos, tais fatores têm alta probabilidade de levar à desindividualização, podendo-se facilmente perder o controle de ações em grupo, gerando um crescimento exponencial de violência e caos.

E aí entra o Black Bloc, que se relacionam diretamente com todas as condições de desindividualização. O problema é que eles adotam uma postura violenta, conduzindo a uma desobediência ineficaz, que continua infligindo dor e danos. Além disso, creio que o conjunto de resultados apresentados nos mostra como podemos ser levados a seguir uma maioria (ou uma minoria persistente), vindo assim a apoiar, e até mesmo participar de ações violentas. Como, muito facilmente, assumimos papéis que nos ditam comportamentos que podem ser aterradores.

Assim, é ingênuo considerar e analisar o mundo de forma simplista, maniqueísta, dividindo os seres humanos em pessoas boas e ruins ou, como é moda agora, pessoas do bem e pessoas do mal. Não somos preto ou branco, somos cinza. Uma mescla de coisas boas e ruins, virtudes e vícios. Frutos de uma seleção natural e produtos de uma história social que nos influencia a cada dia. Por isso, é preciso refletir sobre quanto mal podemos causar quando acreditamos estar fazendo o que é certo. As redes sociais evidenciam esse comportamento diariamente. No momento em que escrevo este texto, circula no Facebook um vídeo no qual um policial atira em dois assaltantes durante o roubo de uma moto. Os comentários revelam a sede de sangue, a crença de que vale a justiça com as próprias mãos e o clamor por mais bandidos mortos. E você? Curtiu? Compartilhou?

Referências e vídeos:

[1] http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/10/entenda-o-impasse-entre-prefeitura-do-rio-e-os-professores-em-greve.html

[2] Asch, S. E. (1951). Effects of group pressure upon the modification and distortion of judgment. Carnegie Press. (2) Asch, S. E. (1955). Opinions and social pressure. Scientific American(3) Asch, S. E. (1956). Studies of independence and conformity: A minority of one against a unanimous majority. Psychological Monographs

[3] Vídeo curto com legendas em português http://www.youtube.com/watch?v=Ijop2hvPNFE e um vídeo mais completo, porém em inglês http://www.youtube.com/watch?v=ME4lOsQzcIE

[4] Moscovici, S., Lage, E., & Naffrechoux, M. (1969). Influence of a consistent minority on the responses of a majority in a color perception task. Sociometry.

[5] Milgram, S. (1963). Behavioral study of obedience. Journal of Abnormal and Social Psychology, 67. (2)Milgram, S. (1965). Some conditions of obedience and disobedience to authority. Human Relations. (3) Milgram, S. (1974). Obedience to authority: An experimental view. New York: Harper & Row.

[6] Versão original do experimento de Milgram http://www.youtube.com/watch?v=5xCV8rlp8Co e versão atual do experimento de  Milgram http://www.youtube.com/watch?v=y6GxIuljT3w

[7] Zimbardo, P. G. (1970). The human choice: Individuation, reason, and order versus deindividuation, impulse, and chaos. University of Nebraska Press. (2) Zimbardo, P. G. (2007). The Lucifer Effect: Understanding how good people turn evil. New York: Random House.

[8] Vídeo sobre Prisão de Stanford http://www.youtube.com/watch?v=L_LKzEqlPto

SOBRE O AUTOR:

Guilherme Brockington é físico, pósdoutor em Educação pela Universidade de SP e trabalha com neurociências e educação, investigando o papel da emoção na aprendizagem. Nas horas vagas se dedica a dançar forró, a estudar filosofia e sociologia bem como a assistir Breaking Bad e Game of Thrones.

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10 respostas em “Black Bloc e Psicologia Social: a violência justificada das pessoas do bem

  1. Apesar da validade de alguns argumentos, é preciso considerar a luta de classe e o desejo de controle do governo como forma de se manter no poder. Os quilombos e outras insurgências populares utilizaram ao longo da história extrema violência como forma de resposta e resistência (black blocs?), pois não era possível negociar com as com as “normas impostas” pelos colonizadores. Além disso, diversos grupos armados foram organizadas durante a ditadura militar. O que eu estranho, é o atual estranhamento de falta de civilidade e “incômodos” frente aos acontecimentos atuais, mas não nos incomoda a frequente violência das instituições contra a periferia e grupos marginalizados. Lembremos que a própria ciência já se prestou a diversas forma de violência e interesse econômicos (http://www.youtube.com/watch?v=NtHmmxcHvh0).

    • Já se percebe um tom não negociável em sua resposta.
      Em primeiro lugar, se argumentos são válidos ou não, quem és tu para comprová-los?
      Segundo: quilombos faziam parte de uma outra conjuntura em nosso país e mundo. Não se compara ovos à batatas. E lembre-se: o próprio Zumbi possuía escravos…
      Por fim, toda forma colonial possuía suas formas de imposição, de norte a sul no novo mundo percebemos isso. Mas compará-las a insatisfação política e assim justificar a violência é retroceder no tempo, nos avanços que tivemos enquanto Brasileiros. Mediante ao grande número de instituições, partidos políticos, O.N.G.’s, movimentos sociais, etc., é ridícula tal conduta.
      Isso, para mim, é falta de estudo de crianças birrentas. Crianças que se articulam para quebrar coisas em locais públicos privados.
      Lhe pergunto, caro argumentador: Não gosto de vc e de sua família, logo, me sinto reprimido quando vocês ligam o som alto ao lado de minha casa. Posso portanto chamar ”uns parente meu” e entrar em sua residência, quebrar tudo que encontrar pela frente e, se possível, dar uns chutes em sua família? É assim que um lojista que perde toda sua loja se sente, é assim que um comerciante se sente ao perder sua mercadoria mediante ao roubo destas pessoas, é assim que me sinto quando leio comentários como o seu.

      • Toda boa conversa se basei em argumentos e contra-argumentos, são apenas diferentes pontos de vista, compreende?
        Existem diferentes fatos históricos que se mostram conectados e se perpetuam em diferentes contextos ao longo do tempo (veja o vídeo que postei); segue mais uma boa dica dessa complexidade:

        Quem são os Brasileiros beneficiados?
        É complicado discutir com argumentos de cunho moral, mas todo processo de luta pelos diretos civis ainda está em andamento; estar em um democracia não garante o respeito aos diretos civis (essa é uma boa e longaaa leitura).
        A discussão está no campo dos conflitos entre instituições e a população, conflito esse que acontece de diferentes formas. Por exemplo, as doenças, violência, expectativa de vida etc…acontece de forma heterogênea na periferia e regiões pobres do Brasil se comparado com regiões com melhor IDH-M. Logo, é importante conhecer as diferentes realidades e processos históricos para compreender os atuais acontecimentos, mas vai levar tempo para considerarmos o que foi erro e acerto.

  2. Apesar da validade de alguns argumentos, é preciso considerar a luta de classe e o desejo de controle do governo como forma de se manter no poder. Os quilombos e outras insurgências populares utilizaram ao longo da história extrema violência como forma de resposta e resistência (black blocs?), pois não era possível negociar com as com as “normas impostas” pelos colonizadores. Além disso, diversos grupos armados foram organizadas durante a ditadura. O que eu estranho, é o atual estranhamento de falta de civilidade e “incômodos” frente aos acontecimentos atuais, mas não nos incomoda a frequente violência das instituições contra a periferia e grupos marginalizados. Lembremos que a própria ciência já se prestou a diversas forma de violência e interesse econômicos (http://www.youtube.com/watch?v=NtHmmxcHvh0).

  3. Excelente texto que explica de forma bastante didática como surgem determinados comportamentos sociais, não só dos black blocs, mas quaisquer comportamentos de grupos anônimos ou não.

    Faço até uma extrapolação deste texto ao comportamento dos políticos brasileiros, que agem como verdadeiros black blocs dos cofres públicos, saqueando-os descaradamente enquanto a população desinformada e desinteressada é conivente e/ou omissa.

    Recomendo fortemente esta leitura e, em seguida, uma reflexão:

    VOCÊ É CAPAZ DE CONTINUAR FAZENDO O QUE É CERTO, MESMO QUANDO TODOS ESTÃO FAZENDO ERRADO?

  4. “Com os resultados desses dois experimentos podemos perceber que pressões de grupo influenciam em nosso comportamento e que podemos ferir o próximo ou por seguirmos ordens ou por acreditarmos que isso é o que precisa ser feito.”

    Você não acha que está descrevendo o comportamento da polícia, não?

  5. Os estímulos ambientais eliciadores da disrupção são bem objetivos, e geram a reação em cadeia do comportamento de massa. Entendo que este fenômeno foi mais claro nas manifestações de junho, em que muitas pessoas fizeram coisas que muito dificilmente fariam em diferentes condições. Já se tratando dos Black Blocs, existe sim um aspecto tático bem definido pelas lideranças do grupo, aproveitando o atual contexto para colocar em prática seus procedimentos. Claro que nessa onda tb devem estar os que estão controlados pelos “sistemas automáticos de processamento”, como bem disse o Marquinhos lá no seu post sobre este texto no Face. Os Black Blocs não só fazem parte do fenômeno de massa, como tb a surfam.

  6. Apesar de aparentemente inédito, os black blocs já estavam zazando há tempos por aí, só que ninguém se deu o trabalho de notar: no quebra-quebra das torcidas organizadas quando o time perde ou ganha o campeonato. Nos ônibus incendiados quando a polícia invade um barraco ou uma favela em busca de traficantes. Até nas universidades públicas quando estudantes encapuzados invadem reitorias. É a rebeldia sem causa e sem cérebro contra tudo e contra todos.

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