Falácias de mesa de bar (2)

Certa vez, durante um banquete na Grécia Antiga, um belo rapaz chamado Alcebíades – talvez o mais belo entre os atenienses – após tomar muito do vinho azedo que serviam naqueles tempos se irritou com a presença de Sócrates na mesa e, em um rompante passional, começou a atacá-lo colérica e apaixonadamente. Acusando Sócrates de ter uma retórica apaixonante como a de sátiros tocando flauta na floresta, como que se enfeitiçasse os corações ingênuos, acusando Sócrates de o perseguir em todas as suas noites de sono… Os seus sonhos não mais seriam os mesmos até o dia da sua morte, pois desejava Sócrates e este não se importava com ele. Sócrates era um homem fantástico e cruel e por isso não deveria ser idolatrado, mas sim excluído das rodas dos mortais para sempre!

Como estamos vendo, utilizando de uma falácia clássica – o ad hominem – Alcebíades acusou Sócrates de não possuir certos valores morais que, na Grécia Antiga, basicamente queria dizer “a vontade de possuí-lo” mesmo. Triste e apaixonado, Alcebíades aparentemente não leu o meu texto anterior sobre falácias na mesa de bar (clique aqui para entender um pouco mais dessa bagunça) e utilizou uma falácia contra Sócrates, o chato dos chatos, o maior dos retóricos. Pois Sócrates respondeu à altura de toda a sua sapiência disfarçada de ignorância:

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“Só sei que nada sei, gente.”

Mistura perigosa: Álcool e gente. É, meus amigos, se nem na Grécia Antiga havia como escapar dos barracos e falácias, imagine hoje… Após esse prólogo é hora de mais um texto sobre as falácias na mesa do bar!

1) Negação do Antecedente

Nesta falácia há a implicação de que algo não poderá ser verdade a partir de uma negativa. Embora esta negativa não necessariamente implique na não existência do restante da afirmação. Como assim?

Assim:

Se A, então B.

Não A.

Então não B.

O problema aqui é que nem sempre esta lógica pode ser tomada. Como exemplo, na mesa do bar o cara fala “Molejo é melhor que Beatles, então Molejo é a melhor banda de rock do mundo.”, e você argumenta que “Molejo nem é rock.”, e aí se tem a conclusão errada logicamente “Então Molejo não é a melhor banda do mundo.”. E nós sabemos que Molejo não ser rock não implica que não seja a melhor banda do mundo…

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Pagode também é filosofia.

2) Petitio Principii (Clamando pela questão)

Nesta falácia a pessoa implica uma conclusão partindo de uma premissa que, por si só, não necessariamente é correta. Ou seja, partindo de uma generalização que, por muitas vezes é falsa, a pessoa apresenta uma conclusão frágil e provavelmente errônea.

Além disso, as premissas podem até estar ligadas, mas a premissa utilizada como argumento também deveria ter sido provada como verdadeira. Ou além, não necessariamente traria a conclusão de que a segunda seria verdadeira apenas por isto.

Basicamente, é dizer que X é verdadeiro, porque X é verdadeiro.
Exemplos:

“- O comportamentalismo é funcional porque uma análise funcional demonstra que ele funciona.”

ou…

borrada

Clique na imagem para entender essa discussão.

Quebrar a raiz do raciocínio é a melhor forma de lidar com essa falácia. “Espera um pouco, em primeiro lugar, x não necessariamente é verdadeiro e você segue todo o seu raciocínio assumindo isso, mas ele é falso exatamente por tomar como certa essa premissa que pode ser totalmente errada.” ou “Se você me demonstrar com mais evidências que a premissa inicial está certa, podemos tomá-la como ponto de partida para a aceitação ou não da próxima.”

A depender da quantidade de álcool ingerido, você provavelmente só falará: Moça, sai do facebook…

3) Falso dilema

O falso dilema é muito comum. É simplesmente colocar dois pontos de vista como se a veracidade e o valor de um fosse totalmente excludente da veracidade e valor do outro.

Se você não é libertário de esquerda, você então é conservador de direita. Ou você é conservador ou você é libertário. Se você não concorda com os maus tratos aos animais, você não pode defender pesquisa científica com animais.

Estrutura da falácia:

Se A é verdadeiro, então B é falso. E vice-versa.
Como lidar com ela:

“Olha, eu gosto de cachorros, acho beagles lindos, mas o que você está falando não tem muita relação. Eu posso gostar dos animais e tratá-los bem, mas entendo o valor da pesquisa científica. Quer se informar? Leia esse texto aqui do Prisma Científico…”

Trazendo para uma outra possível história em uma mesa de bar: o seu amigo chorando dirá “ela não me ama mais, ela não atendeu o meu telefonema, se ela não está em casa, deve estar com outro. Liguei para a casa dela e ela não estava, logo, está me traindo” e você falará “calma, rapaz, oxe! Ela não estar em casa não implica que ela está te traindo”. Mostrar que os dois pontos não necessariamente são contraditórios e que uma análise mais fria e racional sobre a situação é a mais justa é fundamental. Mandar o seu amigo ir para casa, bloquear o celular e mandar ele não entrar no facebook para não fazer besteira também.

2 respostas em “Falácias de mesa de bar (2)

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