Ciência é coisa do Demos

Se você achou que eu ia falar de maus tratos à beagles e outros animais da pesquisa básica se enganou. O Prisma já falou disso. Se estiver interessado, entre aqui e aqui!

Sim, ciência é coisa do Demos. Mas Demos de povo.

inclusive-society

Se perguntarem para pessoas na academia/universidade que fazem pesquisas qual o principal objetivo de um estudo científico, muitos responderão: Publicar um artigo científico. Quando melhor dirão: Produzir conhecimento.

A segunda resposta pelo menos se aproxima. Porém, na realidade estes não são, ou deveriam ser, o principal objetivo. O principal fim de um estudo científico é produzir conhecimento para que este seja aplicado na sociedade, sendo convertido em benefícios para a mesma.

Não que as pessoas que fazem pesquisa sejam ignorantes ou não pensem no próximo (na maioria das vezes pelo menos). Mas estas respostas muitas vezes veem atreladas à cobrança de se publicar cada vez mais artigos em periódicos de fatores de impacto cada vez mais altos, entre outras.

Para se ter noção da relevância de uma publicação, quando se comenta com alguém da academia:  Fulano de tal tem um “Nature”! As pessoas comumente falam: Nossa! Ele é bom!

nature_logo

Isto não ocorre simplesmente por conta da pressão por publicações de alto impacto, mas também por esta revista ser conhecida pela dificuldade de publicação e respaldo científico com trabalhos de grande relevância.

Mas voltando ao objetivo da pesquisa científica, ela deveria sempre ser convertida em benefícios para a sociedade. Claro que isto não é fácil e com um “simples Nature” não vamos garantir que ocorra. Essa conversão demanda muito mais esforço, mais estudos e pessoas que consigam aplicar na prática o que de mais benéfico aquela ideia exposta no artigo/pesquisas possuem.

Vamos a um exemplo prático. Suponhamos que eu descubra uma intervenção que faz com que 75% dos usuários dependentes de álcool deixem de ser dependentes (as melhores intervenções conseguem somente 30%). Essa descoberta me traria uma grande chance de um “Nature”. E claro, vou querer publicar em um periódico que tenha reconhecimento e ampla divulgação na ciência para que muitas pessoas vejam o que descobri. Visto a importância deste trabalho, seria relativamente “fácil” conseguir uma boa publicação.

Mas digamos que eu quero que essa minha descoberta fosse logo aplicada na prática. Afinal artigos científicos não garantem isso. Como você devolveria seu trabalho para a população? Mandaria seu artigo pra todo mundo? Como transformaria tudo que descobriu em política pública? Encaminharia seu artigo para o e-mail do político que você votou ou conhece?scipolicy-01

Ledo engano que seu político vai ler seu trabalho. Até poderia ler, mas não compreenderia muita coisa e tão pouco isto bastaria para ele aplicar o que você escreveu. Isto não somente por relativa “ignorância” acadêmica por não estar acostumado com o tipo de escrita, mas porque políticas públicas são muito mais do que dados respaldados cientificamente. Políticas públicas demandam planejamento de custo, temporal e impactos comparados a outras possibilidades, entre outras coisas.

Há uma semana assisti uma palestra em que esta questão foi levantada: O que se fazer para poder tornar resultados da ciência em políticas governamentais.

E a resposta final foi: Sabendo apresentar e convencer o político de que seu projeto é bom. E como fazer isso? Jogando o jogo dos políticos. Ou seja, dizer que isso irá trazer, por exemplo, votos e favorecerá uma reeleição. Ou então trará um retorno financeiro ao Estado através de impostos, por exemplo. Em resumo, fazer o famoso lobby. É exatamente este o tipo de jogo que indústrias, por exemplo, fazem para conseguir o que almejam. Elas aprenderam a jogar o jogo dos políticos.

Jogo sujo? Talvez não… De interesses? Com certeza!

Stephen Fletcher destaca que a ciência e a política possuem uma filosofia de trabalho eminentemente diferente. Enquanto a ciência se pauta no questionamento, descrição e explanação, a política está preocupada com o governo e o comportamento humano. Talvez isto seja um dos problemas, falha na comunicação.

Pesquisa conclui: Estamos destruindo o planeta. Você poderia gentilmente reformular a frase em termos ambíguos, impreciso, vago, egoísta e em termos que nós possamos entender?
Fonte: http://www.ucsusa.org/scientific_integrity/science_idol/2013-cartoon-contest-contestants.html

Neste sentido existem inclusive cursos e aulas que ensinam pesquisadores a conversar com políticos e negociar suas propostas.

Por exemplo, isto é abordado no curso Desinging Cities do Coursera, oferecido por Gary Hack, Jonathan Barnett e Stefan Al da Universidade da Pennsylvania. Hack, em uma das aulas aborda a negociação entre produzir mudanças arquitetônicas na cidade e como as transformar em algo que a gestão pública ache benéfico. Sua conclusão é que a chave deve ser a RECIPROCIDADE. O desenvolvedor ganha com perspectivas melhoradas e o público (população e gestores) ganha com os benefícios associados (geração de capital, população consegue um espaço público melhor, etc.).

Esta é somente uma das barreiras que impedem ou dificultam a conversão de estudos científicos em políticas públicas. Essa discussão vai muito além do exposto. Mas acredito que uma boa pergunta para dormir com ela seja: E você, tem buscado com que seus trabalhos científicos sejam devolvidos à população? Ou somente seu artigo publicado é suficiente?

PS: Deixo aqui o agradecimento à minha irmã sobre a indicação do curso citado do Coursera. 

11 respostas em “Ciência é coisa do Demos

  1. Pingback: CIência é coisa do Demos – Parte 2 | Prisma Científico

  2. Parabéns mais uma vez ao Prisma pela iniciativa! Fiquei meio confuso nos comentários, porque me parece que faltou uma certa ligação: a Ciência é muito útil aos países que investem nela, nenhum governo investiria em “conhecimento do universo” nem na evolução da espécie humana, essas coisas nobres, se não contasse com um retorno. Esse retorno é obtido no desenvolvimento de novas tecnologias, e é ele que permitiu o descobrimento do Brasil, por exemplo, coisa antiga. Nessa ligação entre interesse nacional e bancada, o trabalho do cientista é essencial. Não é o mesmo cientista que trabalha na bancada que fala com o deputado, mas nos países desenvolvidos existe um bom contato entre esses dois mundos, é esse contato que promove as incubadoras e ajuda a depositar as tão sonhadas patentes. E faz tempo que o Brasil precisa muito dessa conexão. Talvez o André se sinta parcialmente responsável por esse vácuo? De qualquer forma, é muito bom que alguém se preocupe em preenchê-lo.

    • Bem pensado, Carlinhos. Mas ainda acho que o papel do pesquisador é de descobrir e publicar. Em paises onde a coisa funciona a publicaçao é preparada em paralelo à patente, e a aplicaçao pratica da coisa é bastante encorajada. No entanto, ainda tenho convicçao que a atuaçao do pesquisador nao pode ser pautada pela patente ou aplicaçao pratica, e sim pela descoberta e publicaçao. A parte dois, a que vem depois da descoberta, pode ser potencializada por politicas na area, pela facilitaçao de incubadoras, de crédito pelo emprendedorismo, etc. Mas a parte 1 tem que ser independente, e pode ser iniciada sem que a parte dois seja uma possibilidade visivel.
      Nao sei se fui claro, e fica dificil sem acento…Basicamente, se um resultado pode ter uma aplicaçao pratica, otimo. Mas ele nao tem que ser necessariamente resultante de um projeto visando essa aplicaçao pratica.

    • Acho que você entendeu bem a proposta Kikuti. Talvez esteja de fato extrapolando uma perspectiva de pesquisador/cientista, mas por conta desta lacuna entre as duas partes talvez haja espaço de fato para se atuar. Enfim, a ideia principal é tentar promover de alguma forma a reflexão sobre o tema!
      Obrigado pelo comentário!

  3. Acho que o debate cai no velho exemplo: “qual a responsabilidade dos cientistas pela bomba atômica”? A meu ver, o cara que descobriu a fissão nuclear pode ser enquadrado no campo do puro “desenvolver conhecimento”, algo que poderia ser utilizado de diversas formas; mas não dá pra pensar que o cientista que usou esse conhecimento pra fabricar a bomba de Hiroshima simplesmente estava “fazendo seu trabalho”, sem imaginar que aquilo seria utilizado pra matar milhares de pessoas inocentes.
    Por isso, não acredito que possa-se dizer que o objetivo da pesquisa seja simplesmente “gerar conhecimento e ponto final”. Há de se ter, sim, algum questionamento ético sobre o fim que se quer com aquele conhecimento gerado. O que talvez não se enquadre quando na pesquisa mais “pura” (como o caso que citei da fissão nuclear), mas no exemplo dado pelo André, de pesquisar eficácia de tratamento para alcoolismo, há claramente um interesse ético na elaboração da pesquisa, e portanto nada mais lógico que a preocupação com o fim que o conhecimento trará.

  4. Caro André,

    Ao ler seu texto eu tive a mesma impressão que o Guilherme. Acho que você esta redondamente equivocado. Para ser honesto, quase me entristece ler um texto desse escrito por um cientista formado.

    O objetivo da pesquisa cientifica é gerar conhecimento e difundi-lo. Ponto final. Traduzir este conhecimento em algo aplicado é desenvolvimento. Por isso alguns setores industriais são chamados de “pesquisa & desenvolvimento”, enquanto na academia fazemos apenas pesquisa, e alguns órgãos fazem as duas coisas separadamente, como o Instituto Butantã e a Fundação Oswaldo Cruz (ou seja, sua atuação em pesquisa básica não esta necessariamente vinculada a um objetivo de desenvolvimento, como o que ocorre na indústria).

    Assim, o trabalho de um cientista na academia é concluído quando um novo conhecimento gerado pelos seus experimentos é aceito para publicação em alguma revista. Uma vez que o novo conhecimento é disponibilizado para a sociedade (o ideal é que assim seja, e não apenas para seus pares…mas aqui entro no âmbito da discussão do “open access”, fica pra próxima) o papel do pesquisador acadêmico se encerra. Se este mesmo pesquisador quiser prosseguir no processo de transformar aquele novo conhecimento num produto (droga, vacina, programa de intervenção, etc…), ele pode procurar financiamento para isso. Por exemplo, pode resolver abrir uma empresa para produzir anticorpos monoclonais contra um certo tipo de câncer, ou pode pedir financiamento para um programa de intervenção e informação para dependentes. Mas essas coisas são desenvolvimento, não pesquisa básica.

    É importante ter sempre em mente que a aplicação imediata de um novo conhecimento nem sempre é evidente. Não o é temporalmente (vide o exemplo do recém-nascido de Faraday), nem pessoalmente. O que quero dizer é que uma descoberta pode não ter aplicação clara nem mesmo para seu descobridor, mas um conhecimento publicado por você pode ter aplicações claras para alguém, algum desenvolvedor, na China. Nem é preciso esperar décadas nesse caso. As vezes o conhecimento já nasce adulto, você é que pode não saber o que fazer com ele. Os horizontes das nossas mentes são diferentes, por isso temos ideias diferentes e enxergamos possibilidades diferentes. Você pode enxergar a possibilidade que eu não enxergo. Assim, eu não devo trabalhar para gerar conhecimento apenas se eu conseguir ver uma aplicação para ele, eu devo fazê-lo com o intuito de publicá-lo.

    Não preciso dizer que desenvolvimento não é o único próximo passo a partir de um novo conhecimento. É claro que muitas vezes um novo conhecimento proporciona simplesmente a possibilidade da geração de mais novos conhecimentos. Na verdade é isso o que ocorre na maior parte dos casos. O processo até que se chegue a um ponto onde o ultimo passo dado comece a gerar algo que pode ser aplicado é longo. Por exemplo, quando a Taq pol foi descoberta em 1976, seus descobridores certamente não faziam ideia que a enzima seria essencial para que o PCR fosse inventado em 1983. Naquele tempo, o PCR era o desenvolvimento em si, era o produto final para a sociedade (cientistas, no caso). A partir dali a biologia molecular amadureceu, e muita coisa aconteceu por causa do PCR. Mas certamente ninguém imaginava que aquele conhecimento seria usado para invenção dos primeiros sequenciadores, e que eventualmente seriam ainda a base para a produção dos sequenciadores capazes de sequenciar um genoma em um dia, como é hoje.

    É possível (com certeza) que em 1976 a descoberta da Taq pol isolada da bactéria Thermus aquaticus, vivendo em altas temperaturas no parque nacional de Yellostone, tenha sido vista por muitos como ciência pela ciência, simplesmente para sanar a curiosidade de cientistas. O tempo ainda dirá quais avanços para a sociedade o sequenciamento de ultima geração trará, mas o que a biologia molecular proporcionou desde 1983 é de valor imensurável. Os diabéticos foram uns dos primeiros. Depois deles, praticamente todo ser-humano já ganhou uns aninhos de vida a mais por causa do PCR, por causa da Taq.

    Acredito que um dos princípios mais fundamentais para o cientista seja: gerar conhecimento e comunicá-lo é o que é ciência pura.
    Se houver uma aplicação direta, ótimo. Mas não é necessário.

    • Olá Daniel, obrigado pelo comentário e também pela oportunidade de continuar a discussão sobre o texto, assim como dirimir alguns erros.
      Mesmo uma divisão entre pesquisa e desenvolvimento implica que o primeiro seja levado ao povo. Porém, como você bem disse, muitas vezes isso não ocorre de maneira direta. E como eu mesmo comento no texto, não é um simples e único trabalho que irá se converter em benefícios sociais (e de fato, um conhecimento que talvez não tenha uma visível aplicação clara e imediata não quer dizer que não seja um conhecimento válido ou que não seja importante). Concordo plenamente com o que disse.
      Na realidade falamos da mesma coisa. Porém errei ao me expressar no texto. Não sei se seu incômodo foi somente este, mas relendo meu texto acredito que a falha seja exatamente em minha forma de expressão na escrita que não deixa claro meu pensamento. Como também respondi ao Guilherme, disse “objetivo” e deveria ter dito “fim”. Logo, erro meu em não ter escolhido a palavra corretamente. Com isso exclui indevidamente estudos científicos como aqueles com os objetivos que você destacou. De certa forma dei a entender que, por exemplo, a pesquisa básica não é importante. Entretanto não é nem de perto o que pretendia. Sem ela não teríamos avançado na Ciência e muito do que é feito hoje não teria sido alcançado, vide seu exemplo da Taq pol.
      Discordo de você que o trabalho do cientista acabe ao publicar o artigo. O modelo de cientista que assumo é o de um pesquisador/professor da Universidade. Mesmo havendo a sobreposição de cargos, me pauto na fundamental importância do tripé ensino, pesquisa, extensão (e sim, acabo incluindo o desenvolvimento). Desta forma, não acredito que ao publicar um artigo o cientista deva se dar por satisfeito, tão pouco assumir o trabalho com findado. Após isto existem inúmeros desfechos que podem ser dados para que o conhecimento seja ampliado para fora dos muros da Universidade, não somente através dos artigos científicos. Talvez eu discorde de você por esta ser uma premissa particular minha e não do coletivo funções atribuídas/esperadas de um cientista.
      Enfim, defendo a ideia de que sim, a Ciência deve ser devolvida para o povo. Seu fim maior é este, pelo menos em minha opinião. E sim, como você bem ressalta, não é devido a uma falta de perspectiva de aplicação prática de um conhecimento instantaneamente que este não seja válido ou aplicável.

      • Oi André,

        Legal sua resposta.
        Concordo com sua opinião quanto ao assunto pesquisador/professor. Mas reafirmo que acho que o trabalho do pesquisador termina quando sua pesquisa é publicada (claro, falando de um projeto/objetivo). A publicação cumpre o papel de difundir/informar. No Brasil o pesquisador se mistura com o professor, e é claro que o papel do professor é formar. Veja bem, diferente de informar. São atribuições próximas, porém distintas. Tanto as atribuições são distintas que os cargos não são os mesmo em muitos países. Nos países onde o pesquisador se confunde com o professor, como no Brasil, o indivíduo que acumula os dois atributos precisa saber quando desempenha um ou outro. Assim, o papel do pesquisador é concluído com a publicação/informação. O papel de formar, atributo do professor, começa no momento do primeiro contato e não termina nunca. Alguém a quem você tratou por professor vai ser para sempre seu mestre, e a influencia que ele(a) teve sobre sua personalidade é eterna e praticamente hereditária, epigenética. Apenas a paternidade/maternidade é mais importante do que a atuação de um professor.

  5. Caro André, como leitor assíduo do Prisma resolvi comentar hoje. E isso por discordar profundamente do que escreveu aqui. E é uma discordância que vem de uma série de equívocos que encontrei.
    Inicialmente, uma análise epistemológica simples já desmonta seu argumento de que o objetivo da produção de conhecimento é a aplicação na sociedade. Qualquer epistemólogo que pegar já discutiu isso ad nauseum. E se você olhar mesmo historicamente, se isso fosse verdade Newton não teria criado suas leis, Einstein não teria desenvolvido as Relatividades, o LHC não teria sido criado (empreendimento científico mais caro já produzido na história e cuja aplicação na sociedade é menos de 1% da quantidade absurda de conhecimento lá produzido) ou Crick e Watson não teriam descoberto o dna. Os exemplos vão ao infinito. De fato, epistemologicamente, a produção de conhecimento não tem mesmo obrigação alguma de ser aplicada. E ainda bem! Pois do contrário a Ciência não estaria onde está hoje. Reza a lenda que Faraday ao mostrar a Royal Society seu trabalho em eletricidade foi interpelado sobre para que servia seu trabalho. E sua resposta foi: “para que serve um recém nascido?” Nascia ali, antes que todos compreendessem ou vislumbrassem uma aplicação, a eletricidade induzida que guia tudo que temos hoje.
    O que determina a aplicação do conhecimento científico na sociedade são critérios éticos, ideologias e valores morais. E nesse momento, quando você atrela isso ao jogo político mais sujo, o texto fica temeroso. E isso vem do fato do Prisma ser uma canal de divulgação e popularização da Ciência. Certamente muitos graduandos e “demos” tem acesso aos textos aqui publicados e essa é, sem sombra de dúvida, uma mensagem que não deve ser disseminada. É graças ao jogo político que vemos a indústria farmacêutica comandando o mundo, com práticas condenáveis. É graças a esse jogo que diversas pesquisas não são financiadas pois seus pesquisadores se recusam ou são incapazes de jogar o jogo. Sem dúvida que todos cientistas tem seus interesses, afinal são humanos como qualquer um, com vícios e virtudes. Mas é impensável acreditar que a forma de fazer o conhecimento ser aplicado na sociedade é por meio da adesão ao jogo político indiscriminado. Caso você leia um pouco sobre como a Ciência é produzida nos EUA, onde o lobby é legal, vai ver como esse jogo se mostra na prática… Basta ver o que faz a Monsanto.
    O que muitos sociólogos e filósofos da Ciência apontam como solução é justamente a mudança de mentalidade na formação do cientista e a popularização da Ciência. Quando você diz que um político não entende Ciência por “ignorância” está correto. São ignorantes do mesmo jeito que o demos que você traz no título. Não Ciência não é coisa do povo. E isso não significa que ela é melhor ou pior do que outros fazeres humanos, ou você acha que consegue bater uma laje ou roçar um pasto? Não… Qualquer um desses empreendimentos são específicos e têm suas complexidades próprias. O problema é o cientista que se acha a última bóia do Titanic. Que acredita que Ciência é só para seres iluminados, inteligentíssimos. Isso leva a uma deformidade que se dá na hora de sua divulgação, popularização. Como dizia Pierre Bourdieu, o cientista escreve difícil para que você perceba que ele está em outro patamar, que não é o seu…. Basta ver quantos cientistas pouco se importam com programas de extensão ou divulgação (isso tem aumentado nos últimos anos pois dinheiro vem sendo investido em projetos dessa natureza, mas ainda assim é considerado como trabalho menor, menos importante). E por isso o Prisma é importante!! Pois leva Ciência de forma inteligível para o demos, para o leigo, para o iniciante. E isso faz com que o compromisso de vocês seja ainda maior com os textos que publicam, pois a responsabilidade é enorme. É por meio de ações como a de vocês que a Ciência sai dos muros da universidade e dos laboratórios e chega de forma efetiva nas pessoas. E não por meio da adesão ao jogo político como você colocou aqui. E fique atento, pois nesse jogo não tem lugar para o Prisma ou qualquer ação como essa.

    • Olá Guilherme, obrigado pelo comentário e por permitir a sequência desta discussão. Inclusive para poder pontuar melhor algumas coisas.
      Lendo seu comentário percebi equívocos de minha parte. Ao utilizar a palavra “objetivo” errei pela escolha da palavra. Deveria ter utilizado a palavra fim.
      Ao me expressar erroneamente dei a entender que os seus exemplos não são considerados como relevantes. Este foi um erro de minha parte. E muito pelo contrário, todas estas pesquisas foram e são essenciais para o cotidiano da humanidade. A diferença está que em vários casos não é de forma tão direta e imediata que ocorre este retorno, e talvez nem seja algo que passe pela cabeça do cientista em um primeiro momento (vide seu exemplo). Mas isso não exclui a importância de seu trabalho e conhecimento produzido. Como exemplo, temos o prêmio Nobel, que tem como intenção premiar aquele que trouxe grandes benefícios à humanidade (http://www.nobelprize.org/alfred_nobel/will/). E, como bem sabemos, muitos dos prêmios são dados a cientistas de pesquisas básicas.
      Por outro lado discordo de você em alguns pontos, por exemplo quando diz “Não Ciência não é coisa do povo”. Ciência para mim é coisa do povo, inclusive feita pelo povo, sendo devolvida ao povo. Isso independentemente de ser aplicada a curto ou longo prazo. Antes de qualquer profissão assumida, particularmente também me considero povo/cidadão, o qual também usufrui dos benefícios trazidos pela Ciência. Na verdade usufruo muito mais do que produzo.
      Quando disse sobre uma “ignorância” acadêmica por não estar acostumado com o tipo de escrita” não me coloco em uma posição superior, apenas ressalto a diferença de linguagem que impera entre a Ciência e Política. Da mesma forma somos ignorantes em diversas outras atividades uma vez que não estamos treinados ou habituados a exercê-la.
      Talvez tenha sida exatamente essa a sua intenção em dizer que Ciência não é coisa do povo, por ela ser muitas vezes mantida dentro dos muros da Universidade e se fazer do uso de linguagem rebuscada. Neste caso, concordo com o que diz.
      Quanto a ideia de se saber “jogar o jogo dos políticos” acredito que não discorri suficientemente bem sobre isto. Não acho que saber jogar um jogo sujo pressuponha a utilização das mesmas estratégias espúrias (quando presentes, pois não podemos assumir isto como a única verdade). Por exemplo, aceitar financiamentos que envolvam conflitos de interesse éticos no desenvolvimento de pesquisas. Quando destaquei a RECIPROCIDADE entre Ciência e políticas públicas, busquei tentar deixar mais claro que nem sempre é tudo sujo. Ao conhecer e entender quais as estratégias são as utilizadas, podemos nos munir de ferramentas para poder conseguir enfrentar o problema. Uma coisa é conhecer o funcionamento do outro para poder saber como agir, mas isso não presume uma atitude antiética.
      Como disse, houve uma falha na minha escrita que não deixou isto claro. Poderia inclusive ter associado a um texto anterior meu sobre o DSM-V e os conflitos de interesse com a indústria farmacêutica para que a ideia fosse mais clara.

      • Oi André, entendo seu comentário mas ainda não me dou por satisfeito. E isso pq a aplicação na sociedade não é também o fim da Ciência. Como disse, epistemologicamente, o fim da produção científica é a ampliação do conheciento humano sobre o Universo. As implicações sociais da Ciência são outros quinhentos… E aí o que rege é são princípios éticos, ideológicos e sociais. Por isso é perigoso a forma com a qual você relacionou a solução para que a Ciência chegue com a adesão ao jogo político. Não entrarei no mérito se todo jogo é sujo ou não, mas qualquer cientista politico deixa claro que a ética que a rege é totalmente diferente daquela que usamos como cidadaos ou cientistas. Queira gostemos disso ou não. Na verdade acho q o problema é que você colocou uma mera opinião pessoal sobre Ciencia e sociedade. Contudo, como trata-se de um excelente canal de divulgaçao científica, acho que é necessário cuidado redobrado com o que se publica pois o leitor não considera o texto aqui como mera opinião, pois para isso temos nossos perfis nas redes sociais. Desculpe se estou sendo chato, mas é que ações como a do Prisma são raras e creio que o trabalho de vcs deve ser conduzido com muita responsabilidade pois prestam um serviço mais do que necessário para a compreensão pública da produção científica.

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