Por que fez o que fez? Decisão pontual ou hábito!

Geralmente o nosso corpo promove uma ação motora por tomar determinada decisão que pode ser coordenada por diferentes razões: as vezes para atingir um objetivo pontual e específico em determinado momento (me dirijo até uma loja para comprar um vídeo game durante a promoção do Black Friday) e, outras vezes, por hábito (acordo todos os dias de manhã para um corrida). É nessa linha de pesquisa que começarei a investigar os mecanismos neurofisiológicos e comportamentais da dependência, durante o pós-doutoramento que iniciei no National Institutes of Healthy (NIH) nos EUA, em novembro de 2013. Vale pontuar que existem muitas evidências que os comportamentos motores que nos levam a buscar alguma recompensa (comida, bebida, sexo) têm semelhanças e homologias importantes com os mecanismos que ocorrem nos roedores. Em meio à discussão continuada que devemos fazer sobre ética, trago mais informações e exemplos que indicam que o  uso de animais na Ciência é importante, mas sempre deve ser justificável.

Transtorno obsessivo compulsivo de limpeza.Apesar do desenvolvimento de hábitos e regras serem importantes para se obter respostas comportamentais rápidas e acuradas, sempre nos deparamos com circunstâncias na vida que nos fazem reavaliar as consequências das ações e, assim, modulamos nosso comportamento (exemplo: no dia do Black Friday tem uma promoção maravilhosa do vídeo game logo pela manhã, portanto não vou dar uma corrida e sim me dirigir para a loja). A falta de habilidade de trocar entre ações habituais e ações determinadas por um objetivo específico, ou seja, não ser capaz de “quebrar o hábito” (por exemplo, não comprar o vídeo game porque é incapaz de deixar de correr pela manhã) pode ser a base de comportamentos distorcidos como os que ocorrem durante a dependência de drogas, os transtornos obsessivos-compulsivos, a doença de Parkinson, a doença de Huntington etc.

Estudos recentes, realizados em humanos e em roedores, mostraram que o comportamento de hábito ou o comportamento com objetivo específico dependem das conexões de circuitarias corticoestriatais. Isso quer dizer que as ligações entre regiões mais externas do cérebro, chamadas de córtex, e uma região mais interna, chamada estriado, podem coordenar ou competir para modular nossos comportamentos motores. O mais legal é que o comportamento e a circuitaria cerebral são preservados em roedores. Regiões como córtex pré-frontal medial/córtex orbital medial dos humanos são homólogas ao córtex pré-limbico dos ratos ou camundongos. Para ações com objetivos específicos foi visto que o caudado posterior do estriado humano é homólogo ao estriado dorsomedial dos roedores. Em relação aos comportamentos habituais, o nosso putâmen lateral posterior é homólogo ao estriado dorsolateral dos roedores.

Independente dos nomes difíceis para aqueles que não são neuroanatomistas, o importante aqui é perceber que existe uma conservação do funcionamento das estruturas cerebrais entre os mamíferos para o tópico em questão. Isso permite que os cientistas entendam e extrapolem resultados obtidos de roedores para ideias testáveis em humanos, e vice-versa. Esse é um dos motivos que permite que eu utilize camundongos nos estudos que pretendo fazer aqui no NIH.

Eu acredito que diversas doenças psiquiátricas podem ter componentes importantes relacionados à falta de habilidade em se quebrar hábitos. Por exemplo, o indivíduo depressivo se habitua a determinados comportamentos e, com o passar do tempo, passa a ter mais e mais dificuldades de sair do seu ciclo vicioso.

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Deixada minha opinião de lado: se conseguirmos entender quais as circuitarias cerebrais e quais os mecanismos neurofarmacológicos responsáveis pelo “shift”(ou troca) de comportamentos habituais para outros com objetivos específicos, talvez conseguiríamos propor intervenções interessantes para diversos doenças psiquiátricas.

foto_dentro10555_2Um trabalho científico publicado na Nature, em 2013, de autoria de uma pós-doutoranda do laboratório no qual estou trabalhando no NIH, Christina Gremel e Rui Costa (neurocientista que atualmente trabalha em Portugal), desvendou uma circuitaria específica que coordena a dinâmica de codificação entre a troca de ações com objetivo específico (em inglês, “goal-directed“) e ações habituais. Para chegar ao que queriam, os cientistas desenvolveram um método de se estudar no mesmo camundongo duas tarefas: uma dirigida por ação com objetivo específico e outra dirigida por hábito. Com isso, eles foram capazes de demonstrar que neurônios provenientes do córtex orbitofrontal que inervam o estriado dorsomedial controlam comportamentos de objetivo específico. No entanto, quando esses mesmos neurônios mudam as características de sua atividade podem coordenar comportamentos habituais por recrutarem a ativação de regiões do estriado dorsolateral. Isso significa que não necessariamente são circuitarias diferentes que medeiam esses processos, mas sim diferentes padrões de atividades que atingem diferentes regiões cerebrais.

deep-brain-stimulationSe não entendeu até aqui pense que, para todos os comportamentos que você faz existem neurônios disparando de um ou outro jeito dependendo de que tipo de estratégia fez fazer o que fez: decisão pontual ou hábito!

Ainda não sabemos como controlar esses tipos de comportamentos, mas a Ciência está trabalhando a “passos largos” para entender os mecanismos que nos levam a ter comportamentos habituais fortes. Por enquanto, caso algum hábito esteja atrapalhando sua vida de forma exagerada, procure um médico ou psicólogo. Não precisa ser necessariamente um hábito motor, temos muitos hábitos subjetivos que, as vezes, não nos fazem bem. Na Psicologia existem muitos livros neste assunto. Talvez o mais famoso deles seja “O Poder do Hábito” de Charles Duhigg. Neste livro o autor aborda exemplos em como pessoas conseguiram trocar hábitos prejudiciais por novas ações ou por outros hábitos não prejudiciais à saúde. Veja a ideia geral no vídeo abaixo e melhore seus hábitos!

Referências:

Balleine BW, O`Doherty JP. Human and rodent homologies in action control: corticostriatal determinants of goal-directed and habitual action. Neuropsychopharmacology Reviews. 35 p. 48-69. 2010.

Gremel CM, Costa RM. Orbitofrontal and striatal circuits dynamically encode the shift between goal-direct and habitual actions. Nature Communications. p. 1-12, 2013.

5 respostas em “Por que fez o que fez? Decisão pontual ou hábito!

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