A categorização nossa de cada dia.

O mundo em que vivemos exige da nossa cognição o uso de sistemas de aprendizagem complementares. E em contextos mais complexos, há a sobrecarga destes sistemas devido à quantidade de informações que se precisa processar.

Imagine essa situação:
[Uma pessoa ao sair de sua casa em direção ao trabalho se depara com a porta da casa vizinha aberta, onde uma senhora negra e muito idosa faz a faxina. Imediatamente a pessoa pode supor que aquela é a nova empregada de seu vizinho, uma senhora que provavelmente mora muito longe e se sustenta com dificuldade em um trabalho árduo. No trajeto para o seu trabalho o semáforo se ilumina em vermelho e ao parar o carro a pessoa é abordada por um senhor com o rosto surrado, quase que instantaneamente há a aplicação de rótulos verbais e o senhor é identificado como um mendigo, pedinte, esfomeado e, consequentemente, se imagina a vida terrível que ele vive, mas também que é preciso tomar cuidado com o que ele pode fazer naquela situação. Fecha-se a janela do carro. Ao chegar em seu escritório se depara com uma jovem muito bonita, loira e de corpo escultural andando por ali e logo supõe se tratar da nova secretária do chefe. E durante o resto do seu dia esta pessoa caminha por diversos locais, como restaurantes, lojas, salas e vai encontrando e categorizando pessoas, criando expectativas sobre como essas podem e devem agir.]
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O pensamento categórico permite que se perceba as pessoas que acaba de se conhecer a partir de crenças antigas gerais armazenadas na memória, permitindo que nós já tenhamos expectativas sobre o que nos espera. A possibilidade de podermos ter os pensamentos orientados pelas categorias que são construídas com a história de vida permite que lidemos tanto com situações corriqueiras como ir a um shopping à procura de algum item e sabermos que vamos encontrar auxílio com um vendedor assim que o identificamos, quanto com situações raras, mas previsíveis em decorrência da experiência de como lidar com semelhantes, como ir ao mesmo shopping e, ao não encontrar o vendedor, pedir auxílio a alguém que aparente poder ajudar. Tal processamento permite também lidar com situações totalmente divergentes do que se teria uma prévia ideia, como, por exemplo, ir novamente ao shopping e encontrar um vendedor que se comporte totalmente fora dos padrões habituais, sendo agressivo com clientes que pedissem sua assistência. Sendo assim, cria-se rótulos verbais para a classificação de indivíduos como membros de um grupo, que então – a partir da estrutura de conhecimento a respeito da categoria ativada – permite uma série de inferências de julgamento e impressões sobre a categoria (algumas certas, mas uma parcela significativa baseada em julgamentos estereotipados).
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Assim, pode-se perceber que é natural e, em alguns casos, extremamente valioso que automaticamente categorizemos grupos sociais e comportamentos de outrem, construindo um repertório de conduta e reação. Partindo dessa premissa, chego a uma parte do texto que pode parecer contraditório à maioria dos meus textos sobre preconceito e estereótipos, mas o argumento aqui é que o raciocínio categórico parece fundamental para a sobrevivência, pois permitiu desde épocas remotas que o homem lidasse com o novo e o inesperado a partir de crenças mais gerais e antigas. A generalização também possui seu lado positivo. É através dela que sabemos que animais com dentes afiados podem ser perigosos e visitantes inesperados em sua cabana afastada do mundo em uma sexta-feira 13 chuvosa podem não ser muito aprazíveis.
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Todavia, logicamente, esse raciocínio não se encontra além das controvérsias que sempre surgem quando falamos de generalização e estereótipos. Comumente, em um ambiente complexo e multifacetado, a generalização, apesar de sua utilidade, tende ao erro. No dia a dia, como a nossa história anterior, a categorização pode ser uma armadilha ardil. Diariamente estamos expostos a uma enorme rede de possibilidades de contradição de estereótipos, a vida em sociedade, apesar de incitar os pensamentos estereotipados pela necessidade de criar previsões de comportamento para diferentes pessoas, acaba por também propiciar oportunidades infinitas de contato com pessoas diferentes, algumas que confirmam os estereótipos, e outras tanto que destoam do pensamento categorizado. Utilizando a mesma personagem do início do texto, vamos supor que no outro dia ela:
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[Ao sair de sua casa em direção ao trabalho se depare com a porta da casa vizinha novamente aberta, mas agora vê a senhora conversando alegremente com seu vizinho que a chama de “vó”, ao trocar poucas palavras com eles, se descobre que a senhora estava ali para fazer uma pequena visita a seu neto e resolveu arrumar a bagunça dele. Nossa personagem agora a categoriza como uma doce senhora que provavelmente passa o dia assistindo novela, mas conversando mais com a senhora, se descobre que ela nem confirma o estereótipo da pacata vovó caseira, na verdade ela é um grande símbolo das causas raciais, justamente por ter se rebelado. No trajeto para o seu trabalho o semáforo novamente se ilumina em vermelho, mas ao parar, o senhor que o abordara anteriormente se mostra dono de uma voz invejável e a única coisa que quer é ser um cantor profissional, dando-lhe um panfleto para seu próximo evento. Ao chegar ao escritório, refletindo sobre tantas descobertas, a nossa personagem acaba por encontrar mais uma grande surpresa, a jovem muito bonita, loira e de corpo escultural está falando a todos os funcionários e se apresentando como a nova CEO, diretamente superior a seu chefe. E assim, nossa personagem passa o resto do seu dia categorizando e se surpreendendo com as novas informações encontradas.]
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Como visto, é possível encontrar durante a vida oportunidades não só para confirmar os estereótipos, como também para ir de encontro ao raciocínio estereotipado. Entretanto, afirmar que o ser humano tende a inibir o raciocínio categórico seria um erro, ocorre exatamente o contrário, mesmo com algumas evidências que vão de encontro a elas, não costumamos ser flexíveis nas crenças estereotipadas. Uma vez que alguém é inserido em alguma categoria, dificilmente há a reflexão sobre o assunto sem um choque (mesmo que seja um debate).
E quais seriam as condições que disparariam o raciocínio categórico automático? Provavelmente ele surge quando falta ao indivíduo percebedor motivação, tempo ou capacidade cognitiva para lidar com as demandas requeridas durante as interações sociais. Ou seja, não ser preconceituoso depende muito mais da qualidade do que da quantidade das informações e dos contatos interpessoais nos quais as pessoas aprendem sobre os grupos sociais. Logo, a conclusão que podemos tirar daqui é que o contexto (e o embate) são de importância ímpar para um pensamento menos estereotipado e, com isso, mais justo acerca das pessoas.
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Referências:
Bargh JA, Chen M, & Burrows L (1996). Automaticity of social behavior: direct effects of trait construct and stereotype-activation on action. Journal of personality and social psychology, 71 (2), 230-44 PMID: 8765481
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Pereira, M. E. (2008). Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana. Ciências & Cognição, 13 (3), 280-287
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2 respostas em “A categorização nossa de cada dia.

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