Ciência é coisa do Demos – Parte 2

Partindo da premissa de que os resultados e conhecimentos obtidos através de pesquisas científicas devem ser, sempre que possível, aplicados na prática para o bem social, ou seja, devolvidos ao povo, escrevi o texto Ciência é coisa do Demos. Esta ideia em particular não é solitária, outros pesquisadores também a defendem. Porém, considerando algumas questões não abordadas, e por parecer uma mera opinião isolada, este novo post vem para ajudar a discutir melhor e levantar outros pontos importantes sobre o que foi previamente exposto.

Robert Lackey argumenta que cientistas devem contribuir para o processo político, não bastando que se ocupem de publicar seus achados em artigos acadêmicos. Para ele, a contribuição política dos cientistas não é somente a decisão correta a se tomar, mas sim uma obrigação, especialmente quando os estudos forem financiados por recursos públicos.

A pesquisa científica no Brasil, muitas vezes, está atrelada às Universidades. No caso das instituições públicas, estas assumem um preceito de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Os termos ensino e pesquisa são inteligíveis, porém, para clarificar, extensão universitária é uma das maneiras de promoção da relação entre Universidade e sociedade, sendo uma via de mão dupla, na qual existe a possibilidade de elaboração da praxis de um conhecimento acadêmico [1].

Entretanto, muitas vezes ensino e extensão são deixados de lado. Isto pode ocorrer por conta de uma série de fatores, dentre eles, a necessidade constante de publicação de artigos científicos em periódicos de alto impacto. Este, entre outros critérios, é uma das maneiras de mensuração da qualidade do ensino dos programas de pós-graduação de acordo com a Capes [2]. Este critério, na avaliação final, possui inclusive maior peso do que atividades de extensão.

O glossário de termos do National Institute of Health (NIH) define que pesquisas são:

  • Estudos que aumentam o conhecimento ou a compreensão sobre determinado tema;
  • Um estudo sistemático que visa aplicar um novo conhecimento para atender uma reconhecida necessidade; ou
  • Uma aplicação sistemática do conhecimento na produção de materiais úteis, dispositivos, sistemas ou métodos incluindo a concepção, desenvolvimento, e melhoramentos de protótipos e novos processos para necessidades específicas. Isto é às vezes é também chamado de “pesquisa e desenvolvimento”.

Nesta definição, pesquisas científicas contemplam tanto trabalhos que visam aprimorar o conhecimento de determinado tema quanto aplicações práticas dos mesmos.

No primeiro texto, ao atrelar a produção de conhecimento científico à aplicação prática na sociedade, acabo indiretamente negligenciando a importância de estudos da área básica. Contudo, como definido no glossário de termos, pesquisas científicas também são conduzidas somente com o fim de aprimorar o conhecimento sobre determinado tema. Na verdade, estes diferentes propósitos de pesquisas expostos pelo NIH são, ou pelo menos deveriam ser, complementares.

Na mesma linha de pensamento de Robert Lackey, outros autores, que assim como ele estão ligados às implicações da Ciência ao meio ambiente, defendem a ideia de uma Ciência mais integrativa ou holística. Isso inclui um maior diálogo entre as ciências sociais e naturais, além de contemplar componentes sociais, políticos, biológicos e físicos.

Cortner, em seu texto Making Science relevant to environmental policy cita alguns exemplos de esforços em direção à esta perspectiva holística, visando unir Ciência, Política e Gestão. Para ele, a Ciência sempre ajudou na construção de decisões, porém, por vezes Ciência e Política se distanciam, o que muitos lamentam. Com isso, para se alcançar esta visão mais holística, a Ciência necessitaria repensar a forma como interage com o mundo político.

Outro exemplo é citado por Steel. Ele resume uma antiga proposta de Levien de que a Ciência e os cientistas podem, e devem, assumir um papel importante no processo político ambiental, sendo isto possível de três maneiras:

  • Ciência e cientistas proveriam conhecimentos claros sobre os problemas, identificando o que se sabe e o que é incerto;
  • A Ciência e os cientistas descreveriam e identificariam as opções apropriadas para se solucionar tais problemas, as quais poderiam ser consideradas nas decisões políticas;
  • A Ciência estimaria as consequências das soluções propostas.

Em algumas bancas de defesa de mestrado ou doutorado, observei professores questionando aos alunos sobre a aplicabilidade de seus trabalhos na sociedade. Isto não quer dizer, entretanto, que eles seriam de fato aplicados, mas talvez esta seja uma forma de incentivar uma perspectiva social ampliada entre os atuais/futuros pesquisadores. Uma maneira de fomentar minimamente o pensamento de expansão dos conhecimentos produzidos dentro da universidade.

De certa forma, isto também ocorre quando se aplica projetos de pesquisas para concorrer a grants (financiamentos para as pesquisas).  Como exemplo, o já citado NIH destaca que busca estudos que possuam alta qualidade científica e que sejam relevantes às necessidades públicas de saúde [3]. Assim, na escrita desta solicitação de grant deve-se destinar um espaço para a exposição do impacto potencial da pesquisa na saúde [4].

De acordo com Roger Pielke, muitos cientistas apoiam este princípio, porém muitos não possuem expertise para avaliar seus estudos desta maneira. Nestes casos, os cientistas carecem da ajuda de instituições autoritativas e não partidárias que deveriam assumir a função de orientar os cientistas. Como exemplo, as academias nacionais de ciência ou sociedades científicas.

Outro ponto levantado no texto anterior é sobre o diálogo entre Ciência e Política. Por conta da superficialidade, o texto não fica claro, o que permite uma interpretação ambígua e por vezes soturna do mesmo. Porém, não é esta a intenção.

O diálogo entre Ciência e Política é bastante complexo e envolve inúmero aspectos. Em um texto sobre Ciência e Políticas Públicas, Naomi Oreskes argumenta que em um mundo perfeito, cientistas coletam fatos e políticos desenvolvem políticas baseadas nesses fatos. Ainda de acordo com ela, muitas vezes incorre-se em uma má interpretação do trabalho do cientista. O trabalho do cientista, inúmeras vezes, é visto como focado em fornecer provas para as demandas sociais. Pelo contrário, na melhor perspectiva, a Ciência produz um consenso através de revisões e várias investigações sobre determinado assunto, uma vez que um estudo científico não é definitivo, permitindo certo grau de incerteza. Ou seja, ele não traz respostas definitivas, mas sim suscita possibilidades.

Como dito no texto anterior, não só de dados científicos são feitas as políticas públicas. O já citado Roger Pielke aponta que para a Ciência, decisões políticas implicam uma decisão através da ponderação de uma série de alternativas disponibilizadas e fornecidas por meio dos conhecimentos científicos. Estas permitiriam uma ampla gama de opções possíveis de serem assumidas. Ou seja, a Ciência fornece informações que deveriam ser norteadoras das decisões políticas. Por outro lado, a perspectiva política busca, na verdade, a redução na quantidade de alternativas a serem escolhidas, o que não é o de fato disponibilizado pela Ciência.

Outro problema na relação Ciência-Política está no que Pielke em seu texto intitulado When scientists politicize science: making sense of controversy over The Skeptical Environmentalist chama de triângulo de ferro. Em uma aresta existem políticos indecisos que passam a resolução de um problema para cientistas, o que normalmente ocorre através de financiamentos para pesquisas criadas visando gerar “respostas”. Em outro canto, existe o cientista que necessita de recursos para conduzir suas pesquisas no intuito de resolver problemas políticos (não para ampliar o conhecimento), e que, portanto aceita a oferta. Em um terceiro canto, existem pessoas que se apropriam de dados científicos para justificar suas metas políticas, sociais, ambientais ou de negócios. Tudo isto acaba por solapar a imparcialidade dos dados científicos que seriam utilizados de maneira indevida.

Decisões políticas muitas vezes também envolvem diferentes grupos de interesse, e ao se assumir uma perspectiva, automaticamente infringe-se o interesse (velado ou evidente) do outro. Isso pode promover grandes conflitos. Consequentemente, a Ciência acaba se tornando uma espécie de campo de batalha para interesses pessoais, os quais nada tem a ver com a necessidade de produção de novos conhecimentos.

Como alternativa, a fim manter a qualidade dos processos políticos relacionados à Ciência, Silvio Funtowicz e Jerome Ravetz propuseram o que chamam de Ciência Pós-Normal (Post-normal Science). De acordo com eles, os fatos apresentados pela Ciência são necessários, mas não suficientes para resolver novos problemas característicos dos “sistemas complexos”, comuns no contexto de decisões políticas. Assim, nesta nova concepção de Ciência, focada na resolução de problemas, são consideradas questões normalmente negligenciadas tradicionalmente na prática científica, como a incerteza, carga de valores e a pluralidade de perspectivas legitimadas. Ao se considerar estes fatores, portanto, seria possível haver uma tomada de decisão mais coerente sobre estas questões de ordem complexa.

Por fim, gostaria de citar diretamente dois trechos do texto de Funtowicz e Ravetz: “O que chamamos de “ciência” passou por muitas mudanças ao longo dos séculos em seus objetivos, métodos e funções sociais (…) (…) estamos caracterizando as mudanças na ciência que serão necessárias neste novo século para nossa civilização se tornar sustentável”.

Bibliografia:

Cortner, H. J. (2000). Making science relevant to environmental policy. Environmental Science & Policy, 3(1), 21-30.

Fletcher, S. (2007). Converting science to policy through stakeholder involvement: An analysis of the European Marine Strategy Directive. Marine pollution bulletin, 54(12), 1881-1886.

Funtowicz, S., & Ravetz, J. (2003). Post-normal science. International Society for Ecological Economics (ed.), Online Encyclopedia of Ecological Economics at http://www. ecoeco. org/publica/encyc. htm.

Lackey, R. T. (2007). Science, scientists, and policy advocacy. Conservation Biology, 21(1), 12-17.

Mills, T. J., & Clark, R. N. (2001). Roles of research scientists in natural resource decision-making. Forest Ecology and Management, 153(1), 189-198.

Oreskes, N. (2004). Science and public policy: what’s proof got to do with it?. Environmental Science & Policy, 7(5), 369-383.

Pielke Jr, R. A. (2004). When scientists politicize science: making sense of controversy over The Skeptical Environmentalist. Environmental Science & Policy, 7(5), 405-417.

Pielke, R. A. (2002). Science policy: Policy, politics and perspective. Nature, 416(6879), 367-368.

Steel, B., List, P., Lach, D., & Shindler, B. (2004). The role of scientists in the environmental policy process: a case study from the American west. Environmental Science & Policy, 7(1), 1-13.

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