Sobre zumbis e estigma

Não é novidade na história da sociedade contemporânea que uma das abordagens mais utilizadas no “combate” às drogas é o medo. No início dos anos 70, o então presidente dos EUA, Richard Nixon cunhou um termo que se faz presente ainda hoje: A guerra contra as drogas.  Apesar dos exemplos de falhas, suas diretrizes relacionadas à regulamentação e controle das drogas ainda estão enraizadas na política brasileira e de muitos outros países.

Um local de forte interesse daqueles envolvidos nessa guerra é a propaganda. Através desse veículo a mensagem de um determinado grupo pode atingir milhares de pessoas em uma área muito abrangente. Se a propaganda for de boa qualidade, mais pessoas podem se interessar pelo produto que ela está oferecendo. Não é a toa que a propaganda é a alma do negócio!

Recentemente, um vídeo começou a viralizar pelas redes sociais e por alguns blogs bem famosos. Recomendo assisti-lo antes de continuar a leitura do post.
Vai lá, sem preguiça, o vídeo nem é longo.

Parando pra pensar, os publicitários que bolaram essa campanha fizeram uma associação interessante entre dois conceitos presentes na cabeça da população para vender sua ideia: zumbis e crack.

A cada mês pelo menos um jogo, filme ou seriado novo de zumbi aparece nos cinemas e televisões. De romance ao terror, os mortos-vivos atrás de cééérebros estão por todo lugar. Até na biologia já foi feita uma analogia entre zumbis e um tipo de fungo. Do outro lado temos o crack e sua suposta epidemia. Do norte ao sul, em todos os meios de comunicação, a avalanche de notícias envolvendo o crack é avassaladora. É até difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar dessa droga ou que não tenha uma opinião formada sobre ela.

Segundo o vídeo acima, qual é a semelhança entre um usuário de crack e um zumbi? Zumbis são seres que se contaminaram com algum patógeno (vírus ou bactéria) e que, por causa disso, perderam toda sua racionalidade restando apenas uma fome insaciável por carne viva. Na concepção popular, o que é que o crack faz com as pessoas? Faz com que elas percam sua racionalidade restando apenas uma fome insaciável por mais crack. Parecido né?

Eis ai uma receita de sucesso para uma campanha impactante: associações fáceis para o telespectador, depoimentos fortes, superprodução e uma pitada de medo só pra fortalecer a memória. Lembra um pouco as antigas propagandas norte-americanas do reefer madness – suposta loucura causada pelo uso de maconha.

O que esses publicitários não sabem é que a mesma campanha que, segundo eles, tem o objetivo de prevenir que mais jovens sofram dessa doença e enaltecer aqueles que resistem acaba de inserir mais uma camada de tijolos na já espessa parede que separa a maioria dos usuários de crack de um tratamento digno e eficaz. Essa parede se chama estigma social.

A origem desse termo é bem remota. Na Grécia antiga, criminosos, escravos ou traidores eram marcados com um corte ou uma queimadura para que todas as pessoas soubessem de seu “erro”, essa marca era chamada de estigma. O estigmatizado perdia sua credibilidade e moral perante a sociedade e, por conta disso sua identidade social era posta de lado e o indivíduo passava a ser visto apenas por sua marca e o que ela representa.

Assim como leprosos em séculos passados, e portadores do vírus HIV nos anos 80 e 90, hoje em dia os dependentes de drogas, e especialmente os dependentes de crack, são vistos como os seres à margem da sociedade. Mães instruem seus filhos a atravessar a rua caso se deparem com um deles na mesma calçada, pais escorraçam eles para ensinar os filhos como devem ser tratados e educadores ensinam que o crack é o sinônimo de incompetência e pobreza.

Baseando-se nesse estigma, categorizações, rótulos e preconceitos são construídos impondo um limite quase físico entre o estigmatizado e o resto da sociedade. Pense assim, se na crença popular usuários de crack são violentos e envolvidos com o crime, quem iria de bom grado entrar na cracolândia para tentar dialogar e ajudar as pessoas que estão lá fazendo uso de crack? Só se for um palhaço.

O estigma, no entanto, é uma faca de duas pontas. Se por um lado, ele afasta as pessoas que poderiam ajudar, ele também faz com que os estigmatizados deixem de procurar ajuda. Um importante pesquisador da área de estigma já propôs a teoria do “por que tentar?”. O estigma internalizado – quando o indivíduo aceita-o para si – faz com que a pessoa acredite que não mereça as oportunidades que surgem em sua vida: “Por que eu deveria procurar um emprego como contador? Eu não mereço uma posição importante”, “Por que eu deveria tentar ir morar sozinho? Eu não mereço ser independente”. Assim como a barreira impede a sociedade de acolher o estigmatizado, ela também previne que ele retorne à sociedade.

Ao promover uma campanha como a de cima, uma nova face do estigma relacionado à dependência de crack tem nascimento. Agora, na concepção popular, além de assaltantes, prostitutas e assassinos, aparentemente, os usuários de crack também são zumbis.

Os idealizadores da campanha dizem que o objetivo é educar e orientar os jovens a respeito do crack e das táticas empregadas pelos traficantes para incentivar seu uso. Concordo plenamente e compartilho do mesmo ideal, mas a que custo eles querem fazer isso? Mais desinformação? Mais estigma? Mais guerra? Educação é feita através de fatos e não medo.

Sendo assim, trago a você, querido leitor(a) que chegou até essa parte do post duas informações relevantes para um questionamento mais profundo sobre o tema em debate.

Em primeiro lugar, um estudo bem recente realizou uma meta-análise do impacto do uso de medo em propagandas. Segundo os achados desses pesquisadores, para que uma propaganda que envolva algum tipo de conteúdo aversivo relacionado a consumo de droga obtenha sucesso, é necessário que exista uma forte interação entre o conteúdo e a ação de resposta proposta, ou seja, a ação que o telespectador deve tomar para combater a suposta ameaça. A ideia é a seguinte: se você quer fazer uma campanha com um conteúdo aversivo forte, você deve também promover uma contra resposta forte.

A contra resposta da campanha dos zumbis e crack (prevenção do uso) é feita de uma maneira tão fraca que ela fica perdida perante o conteúdo aversivo apresentado. Segundo esses mesmos pesquisadores, o efeito colateral dessa associação desbalanceada – conteúdo forte, contra resposta fraca – é a ocorrência de mecanismos de defesa. O estigma social pode ser encarado como esse mecanismo de defesa por parte de uma sociedade assustada que não sabe como lidar com o problema.

A segunda informação que trago para vocês é referente à ideia de que os usuários de crack e outras drogas são seres irracionais. Em 1988 foi proposta a Teoria da Dependência Racional que vem sendo estudada até hoje. Essa teoria avalia a tomada de decisões de usuários de drogas sob a perspectiva da neuroeconomia. O que essa teoria propõe, e o que foi observado em situação experimental, é que apesar dos usuários tomarem decisões mais arriscadas, o processamento utilizado para a formulação da decisão se baseia em um constructo racional. Durante esse procedimento, questões como risco à saúde, disponibilidade da droga no futuro, preço da droga no futuro e estado hedônico no momento da decisão são postas na equação para determinar a ação final: consumir ou não a droga.

A suposição de que os dependentes de drogas são seres irracionais parte do princípio de que as decisões racionais só podem surgir de pessoas saudáveis. Isso leva a conclusão de que a dependência de drogas interfere com a tomada de decisão normal. No entanto, a Teoria da Dependência Racional é uma teoria referente à dependência, por isso deve-se tomar cuidado ao compará-la com outras teorias neuroeconômicas com um foco diferente.

É sempre importante lembrar de que o desenvolvimento da dependência de qualquer tipo de droga depende de três fatores essenciais interconectados: a droga, o indivíduo e o ambiente em que ele vive. Não adianta lutar contra a dependência se só focamos em um fator e ignoramos os outros.

Da próxima vez que você se deparar com um usuário de crack não pense que ele é um zumbi. Tente olhar para ele como um ser humano com um passado e um presente que lhe proporcionaram o crack como a maneira menos pior de se viver a vida.

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Atualização 22/01/14

No dia 19/01/14, a Folha de São Paulo divulgou uma reportagem a respeito da nova política do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, de tratamento e combate ao crack, especialmente na região da Cracolândia. Na reportagem, diversos usuários de crack, psiquiatras, assistentes sociais, moradores da região e inclusive o prefeito Haddad foram entrevistados e compartilharam seus pontos de vista a respeito da situação. Chamo a atenção de que, em momento algum, foi levantado algum tipo de terror a respeito dos usuários de crack. Percebe-se facilmente que o foco da reportagem não é a droga, mas sim o ser humano que existe ali que, como discutido no texto, é esquecido devido ao estigma imposto sobre ele. O mais interessante é perceber que alguns dos depoimentos mais sensatos sobre a situação de rua, a droga e a sociedade foram feitos pelos próprios usuários de crack, repudiando ainda mais a idéia de zumbis irracionais.

Referências

McGaugh JL 2002 Memory consolidation and the amygdala Trends Neurosci

Hughes DP, et al. 2011 Behavioral mechanisms and morphological symptoms of zombie ants dying from fungal infection BMC Ecol.

Ahern J, et al. 2007 Stigma, discrimination and the health of illicit drug users Drug Alcohol Depend.

Corrigan PW  et al. 2009 Self-stigma and the “why try” effect: impact on life goals and evidence-based practices World Psychiatry

Peters GJ et al. 2013 Threatening communication: a critical re-analysis and a revised meta-analytic test of fear appeal theory Health Psychol Rev

Becker GS e Murphy KM 1988 A theory of rational addiction J Polit Econ

Henden E et al. 2013 Addiction: choice or compulsion? Front Psychiatry

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3 respostas em “Sobre zumbis e estigma

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  2. Me chamou a atenção ouvir o depoimento do rapaz acolhido pelos braços abertos e seu modo de contar que tudo o que ele esperava do palhaço era que esse trouxesse alguma coisa boa para o lugar e para as pessoas. Acredito que não há frase mais ilustrativa para mostrar que o primeiro passo para a superação é acolher e que todo o medo que a publicidade impõe não passa de uma forma de esconder o nosso desconhecimento. Somos todos iguais e buscamos mais que tudo felicidade, a qual um simples palhaço nos faz ver que é possível e dá forças para voltar a crer em si mesmo como ser humano.

  3. Pingback: Por que o Crack? Parte 1 – Qual a droga que mais causa prejuízos? | Prisma Científico

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